
Como nos ensinam alguns, se considero a dúvida em sua essência, a dúvida de sempre, presente em todas as dúvidas, com a inteligência posso ver o seguinte. Primeiro, nela há sempre, ante a consciência de quem duvida, pelos menos duas possibilidades com relação a algo, possibilidades entre as quais a pessoa oscila, como num pêndulo, sem saber a qual assentir, a qual dizer o seu sim interior. Assim, ao mesmo tempo que exige a consciência a dúvida só pode acontecer em um ser com consciência limitada. Por esta razão, por não ter consciência uma pedra não pode duvidar e por ser uma Consciência onisciente, sem limites, Deus não pode duvidar – Nele não há dúvidas, apenas certezas absolutas. Segundo, na dúvida há sempre o desejo de segurança ou um correspondente receio de errar, um temor de se enganar. Terceiro, junto á oscilação e ao desejo mencionados, há no ato de duvidar a convicção de que não se deve assentir precocemente, sem razão, a uma das possibilidades que se apresenta à mente. Sem estas três coisas não há dúvida, não pode haver dúvida.
Há dúvidas que são razoáveis e há outras que são sem razão. Assim, minha dúvida pode ser prudente ou imprudente, com frutos positivos ou negativos. Por exemplo: se aceito que Deus realmente existe e que algo vem Dele, então por ser Ele o que é, Aquele que não se engana e não engana ninguém, não há razão para duvidar. Santa Brígida, mística católica, em seus escritos relata algo que a Imaculada, Maria Santíssima, disse para ela: “Sou aquela que ouviu a verdade dos lábios de Gabriel e acreditou sem duvidar. É por isso que a Verdade tomou para si carne e sangue do meu corpo e permaneceu em mim. Eu trouxe à luz a essa mesma Verdade que foi Deus e Homem. Na medida em que a Verdade, que é o Filho de Deus, desejava vir a mim, morar em mim e a nascer de mim, sei muito bem se pessoas têm verdade sobre seus lábios ou não.”
Por haver o indubitável, realidades acima de qualquer dúvida razoável, certezas absolutas, como a presença do Ser absoluto que a própria dúvida supõe, então há limites para a dúvida, que pode ser subestimada ou superestimada em seu valor para a verdadeira consciência, para a posse da verdade.
Quem pode duvidar? Só que tem razão!
