Dávidas da Misericórdia Divina e exigências da Justiça Divina

Todo ser, por possuir uma essência – no sentido de possuir aquilo que faz com que ele seja o que é e não seja outra coisa – traz consigo exigências que lhe são próprias. São exigências de sua essência, que correspondem ao que nele é essencialmente necessário, impossível de ser diferente. Por exemplo, a responsabilidade exige a liberdade de tal modo que sem liberdade não faz sentido falar em responsabilidade. Posso falar com razão de responsabilidade no homem, mas não de responsabilidade no sol. Por esta e por outras, a realidade é um cosmos e não um caos. Em sua relação com a Razão Criadora, está cheia de significados, logos, razões.  

Deus é Aquele que possui todas as perfeições do ser em máximo grau. Assim, o Onipoente Criador é sempre justo, todo justiça, a própria Justiça, que Nele é sem começo nem fim, nunca diminuída nem aumentada. A justiça, por ser o que é, exige o que exige, e por isto se pode falar das exigências da justiça divina. Isto significa que Deus nunca age contra a sua justiça, e sim naquilo que ela por assim dizer Lhe permite.

Um ensinamento que Cristo concedeu à mística Santa Brígida é que “Deus não faz justiça sem misericórdia nem bondade sem justiça”. Quer dizer, Misericórdia e Justiça divinas não se opõem, não há contradição entre elas. Por assim dizer são dois nomes para a Bondade Divina, estão unidas a Ela. A Justiça respeita o que a Misericórdia diz e a Misericórdia respeita o que a justiça diz, e nisto Deus sempre decide, decreta, com Sabedoria, por razões de sabedoria.

Tudo o que há está presente em Deus, na Mente Divina que tudo contém e por nada é contida. Isto significa que tudo está simultaneamente presente na Bondade divina, consequentemente na Misericórdia e na Justiça. E como não há indiferença em Deus, ausência de apreciação, para Ele tudo tem um valor, uma importância, e assim quem rejeita as dádivas da misericórdia encontrará as exigências da justiça. É próprio da Justiça exigir o pagamento de toda a dívida e pagar tudo o que deve ser pago. Neste sentido, ante a Justiça divina quem faz o bem merece ser recompensado e quem faz o mal merece ser castigado, isto é, merece receber algum bem ou merece perder algum bem. Cristo, com seu sacrifício de valor infinito, ante a Justiça mereceu para o homem o Céu, graça infinita. Quanto mais semelhante ao Divino Mestre alguém se torna pelos sofrimentos que com Ele sofre, mais glorioso será no Céu, maior será o seu trono, por merecimento, pelo grau de participação nos merecimentos de Jesus, o Salvador. O mesmo Cristo, que adverte como amoroso pai, diz que ao que tem lhe será concedido mais em abundância, mas ao que não tem será tirado até mesmo o que tem, pois o verdadeiro Deus “sacia de bens os indigentes”, “eleva os humildes”, mas “resiste aos soberbos”, “derruba do trono os poderosos” cheios de si.

A cólera de Deus, a ira Divina que se fala nas Escrituras, em um de seus sentidos significa o exercício da Bondade divina enquanto justiça ante a maldade que pede correção, castigo, reparação. Assim, a Sabedoria divina não pervertida pelo homem, cheia de amor misericordioso pelas criaturas que deseja salvar, diz: “procurem minha misericórdia onipotente, não a rejeitem, para que minha justiça não os encontre”. Há o tempo da compaixão e há o tempo da justiça, há o Cristo salvador misericordioso e há o Cristo justo juiz. Há o tribunal da Justina divina, no juízo final pelo qual todos passam, e há o Tribunal da Misericórdia, como é o Sacramento da confissão.  Se tudo isto é verdade, são verdades espirituais vitais.

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