Difusão da Bondade Divina: a Santíssima Trindade, a criação e a divinização

A existência da semelhança e da diferença na totalidade do ser é uma importante certeza absoluta perceptível pela inteligência humana, que posso com razão reconhecer como inegável se considero o que a experiência mostra e a consequência de negá-las.

A semelhança e a diferença supõem necessariamente duas coisas. Primeiro a presença do ser, e segundo, a multiplicidade no ser. Elas exigem isto, por ser o que são. A semelhança é sempre semelhança em algo e a diferença é sempre diferença em algo. Isto é assim, e só pode ser assim, do contrário seria semelhança em nada e diferença em nada, o que significa ausência de semelhança e ausência de diferença. Assim, semelhança é semelhança no ser e diferença é diferença no ser. Por exemplo, se digo que duas coisas se assemelham, isto quer dizer que elas possuem algo em comum, algo que é Um nelas, de certo modo o mesmo ser nelas. Homens e mulheres, enquanto pessoas humanas criadas, são semelhantes pela mesma humanidade que neles há, porém, dentro dessa mesma humanidade, possuem diferenças, como a masculinidade de um e a feminilidade do outro.   

Em Deus isto diz respeito à Santíssima Trindade revelada pelo Cristo, quando, por exemplo, envia seus apóstolos com a missão de batizar “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. No divino Jesus, Deus é Uno e Trino, uma só Essência Divina vivente na qual há três Pessoas igualmente divinas, sem que isto signifique três deuses, pois a Divindade, por natureza, só pode ser uma. Neste sentido, a Trindade Santa é a vida íntima de Deus, do Deus revelado como essencialmente Amor, Bondade infinita que se doa. Como ensina São Boaventura, é próprio da bondade a tendência a se difundir. Vemos isto em nossa própria experiência. Um exemplo: quando por bondade uma mãe deseja que o bem da alimentação seja comunicado a todos os seus filhos, que se torne algo comum em todos eles.

Se é assim, isto vale para Deus, e é um modo ainda que limitado de compreender a Trindade Santa, sem quem o mistério deixe de existir para a mente humana. Deus é o Supremo Bem, a própria Bondade. Deus Pai, plenitude da Divindade, pela tendência de seu Amor, doa completamente o seu Ser, e nisto é gerado o Filho, não no tempo e sim desde a eternidade, na simultaneidade absoluta do Ser divino. Deus Filho, também bondade onipotente, que recebeu amorosamente o Ser, doa amorosamente o seu amor ao Pai. Assim, o Pai e o Filho se amam mutuamente, e este amor do Pai e do Filho, do amante que é amado e do amado que é amante, em um só e mesmo amor, é o Espírito Santo.

Na história da salvação, o Espírito Santo gera, no ventre de Maria Imaculada, o Verbo Encarnado, o Filho que se fez homem. Assim, na ladainha dedicada ao coração divino-humano de Cristo, Deus-homem, é dito que Nele “habita toda a plenitude da Divindade”. E Maria, a Virgem puríssima, é dita a esposa do Espírito Santo, pois possui com Ele uma união mística sem igual entre as puras criaturas, acima a dos anjos e santos, por exemplo.

Se a difusão da Bondade divina significa em um caso a geração das Pessoas Divinas do Filho e do Espírito Santo, em outro caso ela significa a criação das criaturas, e em outro caso ela significa a divinização das criaturas puramente humanas.

De diferentes modos Deus em tudo está, e tudo é dom de sua infinita bondade onipotente.

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