O modos de presença de Deus: tocar o Cristo Eucarístico como João ou como Judas

A experiência humana mostra que há diferentes modos de ser, como o ser-possível e o ser-atual, e diferentes modos de conhecer, como a intelecção da inteligência que vê a impossibilidade de uma madeira de aço ou a percepção dos olhos que vê a cor azul. Porém, seja qual for o modo de ser, tudo que é alguma coisa é participante do ser Deus, pois Ele é o Ser por excelência, e neste sentido Ele disse a Moises que seu nome é o “Eu Sou” e Cristo disse a alguns hebreus que “antes que Abraão existisse, Eu sou”. E seja qual for o modo de conhecer de uma criatura, ele é sempre, de modo limitado, conhecimento na Consciência divina que tudo conhece intimamente e totalmente. À Santa Brígida o Deus-homem disse: “Tudo o que existe, existiu e existirá é previsto por mim. Nem mesmo um pequeno verme ou o menor dos grãos pode existir ou continuar a existência sem mim. Nem a menor coisa escapa da minha presciência, por que tudo vem de mim e é previsto por mim.”  Isto significa que para as criaturas contingentes  “perdurar no ser significa receber a existência a cada instante”, por vontade amorosa do Criador.

Assim, quanto à presença de Deus nas criaturas, pode-se com razão do Um e o Múltiplo. Por exemplo: há a presença de seu Poder onipotente, a presença de sua Sabedoria onisciente e a presença de seu Amor misericordioso. Outro modo de presença é a presença enquanto Verbo Encarnado, do “Verbo que se fez carne e habitou entre nós”, como ensina São João Evangelista. O mesmo Verbo encarnado, Jesus Cristo, está presente na Sagrada Eucaristia, pois está escrito “isto é o meu corpo”, “Eu sou o Pão Vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá eternamente”, “a minha carne é verdadeira comida, e meu sangue é verdadeira bebida”. Na Hóstia Sagrada vemos a circularidade, e isto significa que Deus não tem princípio nem fim, que não há princípio nem fim em sua Sabedoria, em seu Poder e em sua Caridade. Um Deus que se fez Pão e assim permanece, sem deixar de ser Divino, mostra nisso sua Onipotência que tudo pode, que há razões em sua Sabedoria, e até que ponto ama sua criatura humana.

Porém, embora todos recebam o Pão vivo, nem todos recebem com o mesmo efeito, pois nem todos recebem como deveriam receber, conforme as exigências da Sabedoria Divina. Alguns, por exemplo, recebem o Pão como o discípulo amado que tocou em seu Coração na Santa Ceia e permaneceu com Ele no Calvário, e outros recebem como Judas, isto é, com a duplicidade do traidor que, por um lado, em aparente sinal de afeição, lhe dá um beijo, mas que por outro lhe entrega aos inimigos que desejam sua destruição. Assim, podemos tocar o Corpo de Cristo com os lábios do traidor, com os lábios da falsidade, com os lábios da duplicidade de quem pretende permanecer em seus graves pecados, e desse modo, como diz São Paulo, “beber e comer da nossa própria condenação” em vez da Salvação, dos bens divinos.

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