A presunção dos saduceus, ou: todos que se opõem a Cristo estão enganados

Um modo de exercer uma frutuosa consciência crítica é considerar, na medida do possível, suposições contidas naquilo que é  afirmado. No Evangelho há um exemplo a este respeito. Certa vez os saduceus, um círculo de hebreus que negavam haver ressureição, colocaram a seguinte questão para Cristo: “(…) Havia sete irmãos: o mais velho casou-se, e morreu sem deixar descendência. O segundo casou-se com a viúva, e morreu sem deixar descendência. E a mesma coisa aconteceu com o terceiro. E nenhum dos sete deixou descendência. Por último, morreu também a mulher. Na ressurreição, quando eles ressuscitarem, de quem será ela mulher? Porque os sete se casaram com ela!” E a resposta do Divino Mestre foi: “Acaso, vós não estais enganados, por não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus? Com efeito, quando os mortos ressuscitarem, os homens e as mulheres não se casarão, pois serão como os anjos do céu.”

Dito de outro modo, seria como se Cristo dissesse: se para vocês saduceus as Escrituras é algo importante, um critério decisivo, neste caso estão enganados por não conhecer aquilo que deveriam conhecer, por supor enganosamente o que não deveriam supor, se considerassem o que está contido nas escrituras e o poder do Deus que dizem estimar.

Nessa história, Cristo mostra que a suposição dos saduceus é falsa e, por esta razão, a pergunta é sem sentido.  Um caso semelhante é quando alguns perguntam: “se Deus criou tudo, quem criou Deus?” ou “de onde Deus veio?”. A suposição é de que Deus tem uma causa ou origem. Porém ela é falsa, se considero o ser de Deus. Deus, em sentido elevadíssimo, como Ser Supremo, é eterno, e consequentemente não tem princípio nem fim, não passou a ser nem pode deixar de ser. Ele é o Antecedente eterno de todos os consequentes, a Causa Primeira de todos os efeitos, o Primeiro Princípio que tudo contém, Alfa e Ômega.

Assim, considerar suposições contidas em um discurso e o valor de cada uma, enquanto verdade ou falsidade, enquanto certeza absoluta ou mera hipótese, tem sua importância, pois, como os saduceus da história, posso por presunção falar enganosamente do que não conheço, por supor saber o que na realidade não sei.

“Só sei que nada sei”.

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