
Amar é sempre amar algo, pois amar nada é não amar, é ausência de amor. Assim, o amor exige o ser. Alguém só pode amar aquilo que conhece, pois amar o que não se conhece é o mesmo que amar nada. Assim, o amor exige a consciência. Se o amor exige o conhecer, o amável exige o cognoscível (pode ser conhecido) e o amante exige o cognoscente (aquele que conhece), e assim aquilo que não pode ser conhecido não pode ser amado e aquele que não pode conhecer não pode amar. Tudo isto está contido na realidade do amor, e será sempre assim, porque não pode ser de outro modo, é essencialmente necessário.
Posso dizer que uma paisagem é cognoscível mas não cognoscente, é amável mas não amante, enquanto que a pessoa humana é amável e amante, cognoscível e cognoscente, portanto é superior à paisagem, pois pode mais. Em razão da multiplicidade, uma verdade contém outras verdades, porém, como o Ser é uno, a Verdade é una. A multiplicidade não significa negação da unidade do ser, assim como as múltiplas verdades não significam negação da unidade da verdade, e quando há esta negação seu nome é falsidade.
Deixando a parte o Deus verdadeiro, isto mostra que no ser de cada coisa há possibilidade, impossibilidade e necessidade – o que não pode ser de outro modo. No caso, possibilidade significa mutabilidade, quer dizer, pode passar por mudanças, e a impossibilidade com a necessidade significam imutabilidade.
Considerar isto é importante por diversas razões. Por exemplo, diz São Boaventura: “A nossa inteligência compreende realmente uma proposição, quando sabe com certeza que ela é verdadeira. E saber isso é saber verdadeiramente, porque se tem certeza de não se enganar. Com efeito, a inteligência sabe que uma proposição é verdadeira quando não pode ser de outra maneira e que, por consequência, é uma verdade imutável. Mas, como nosso espírito está sujeito à mutação, não poderia ver a verdade de maneira imutável sem o socorro duma luz invariável – a qual não pode ser uma criatura mutável. Se ele conhece a verdade, conhece-a, pois, naquela luz que “ilumina todo homem que vem a este mundo”, a qual é “a verdadeira luz” e “o Verbo que no princípio estava em Deus” (Jo 1,1-9).
