
Palavras de Santo Agostinho, de valor para todos os tempos, em seu escrito “A Verdadeira Religião”:
“Seja qual for a intenção dos filósofos, qualquer pessoa pode facilmente compreender que não se há de buscar a religião junto dos que, participando dos mesmos mistérios sagrados com o povo, abertamente expõem em suas escolas opiniões diferentes e contraditórias, sobre a natureza de seus deuses e sobre o sumo Bem.
Se não fosse senão por ter extirpado esse mal, ninguém poderia negar à religião cristã o mérito de indiscutíveis louvores.
(E, dirá alguém, não há divergências na Igreja?)
De fato, as inúmeras heresias, uma vez apartadas da norma do cristianismo, atestam que aqueles que sobre Deus Pai, a sua sabedoria e o dom divino, professam e ensinam doutrinas contrárias à verdade não são admitidos à participação dos santos mistérios. Isso porque se crê e se ensina como fundamento da salvação humana que estejam concordes: a filosofia – isto é, a procura da sabedoria, e a religião. De quem não aprovamos a doutrina, tampouco havemos de participar com eles dos sacramentos.
(…)
Desse modo, a verdadeira religião não há de ser buscada na confusão do paganismo, nem nas impurezas do cisma, nem na cegueira do judaísmo, mas somente entre os denominados cristãos católicos ou ortodoxos, isto é, entre os guardiães da integridade e seguidores do que é reto.
Esta Igreja católica – vigorosa e extensivamente espalhada por todo o orbe da terra – serve-se de todos os que erram, para o seu próprio proveito e também para a correção deles – uma vez que se resolvam a despertar de seus erros.
Aproveita-se dos pagãos, para campo de sua transformação; dos hereges, para prova de sua doutrina; dos cismáticos, para documento de sua estabilidade; dos judeus para realce de sua formosura. Convida a uns, a outros elimina; a estes abandona, àqueles se antecipa. Contudo, a todos dá a possibilidade de receber a sua graça, quer tenham de ser formados, reformados, reunidos ou admitidos. E a seus filhos carnais, isto é, aos que vivem ou julgam conforme a carne, ela os tolera como a palha, com a qual o grão na eira está mais protegido, até ser limpo de sua casca. Mas como nesta eira, cada qual é voluntariamente palha ou grão, temos de suportar o pecado ou o erro dos outros. Isso até que alguém se levante para denunciar ou defender sua falsa opinião, com ousada pertinácia.
(…)”
