O ceticismo sem razão e as certezas legítimas da Sabedoria (sempre em Deus)

Há um ceticismo que é negativo, pois superestima a dúvida, que tem o seu valor, mas dentro de certos limites, dado que não faz sentido sempre duvidar de tudo como se na vida só houvesse incertezas. A vida humana concreta exige um mínimo de certeza e qualquer pessoa, até o mais cético dos céticos, possui alguma certeza, pelo menos a certeza da incerteza. Porém, a certeza da incerteza, que é inevitável mesmo para o cético que tudo nega, traz consigo outras certezas, do mesmo modo inevitáveis.

Além disso, a dúvida mesma supõe inúmeras certezas na mente de quem duvida, sem o que seria impossível a dúvida. Duvidar é sempre duvidar de algo e este ato supõe sempre a presença do ser. Há, por exemplo, a coisa contestada e o agente que exerce a duvida. Duvidar de tudo isto seria negar a própria dúvida, o que significaria uma certeza. Só é possível o não se há antes o sim.

Assim, o problema não é a certeza em si, mas a certeza sem razão objetiva, uma certeza enganosa, como no caso do presunçoso que presume saber o que na realidade não sabe. A certeza é um dos valores da sabedoria, porém a certeza legítima, como a “certeza crítica”, a certeza com razão, garantida pelo ser mesmo.

Há realidades que a inteligência humana tem de reconhecer sem poder negá-las com razão, pois são inegáveis, certezas absolutas. Por exemplo. Diz Santo Agostinho que “se alguma coisa é desaprovada, com razão, é porque a menosprezamos, ao compará-la com algo melhor” e que “nada é totalmente bom quando poderia ser melhor”. Deus é o único Ser que é totalmente bom eternamente. Assim, ele não pode ser melhor nem pior do que já é, não pode progredir nem regredir no ser. Se ele é assim, então não há nada que por comparação possa ser melhor que ele. Consequentemente, Deus jamais deveria ser desaprovado, e quem o desaprova jamais tem razão, e sim insensatez.

Neste sentido, o primeiro mandamento com razão manda amar primeiro o que merece ser amado acima de todas as coisas, pois é o ser mais amável de todos. Deus, a Sabedoria, nunca manda algo contra a razão, seus caminhos jamais são caminhos da insensatez. Contra a sabedoria e no caminho da perdição somente os demônios e os homens que os seguem.

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