
O oitavo mandamento proíbe o falso testemunho e ensina não ir pelo caminho da mentira. Quem aceita que a mentira existe mas nega que a verdade existe não tem razão, está nas trevas do engano, simplesmente porque se não há verdade, não há mentira. Sem a noção de verdade, a noção de mentira não faz sentido, porque a mentira, enquanto afirmação consciente de uma falsidade, supõe que algo é verdadeiro. Se não há verdade, ninguém mente nem jamais mentiu. Porém, por experiência podemos dizer que é inegável que existe mentira. Como degradados filhos de Eva, é comum que os homens mintam uns para os outros. Quando uma pessoa diz que nunca mentiu, a tendência é não acreditar em suas palavras, pois o senso comum nos diz que é quase impossível alguém que nunca mentiu. Assim, se posso dizer com razão que é inegável a existência da mentira, então é inegável a existência da verdade.
Na mentira uma pessoa prefere “dizer que é o que não é” ou “dizer que não é o que é”. Assim, pertence à essência da mentira a negação da verdade, a inversão e a contradição. Negação, contradição e inversão: eis marcas importantes da mentira e do satanismo. Consequentemente, a mentira é uma negação de Deus, a Verdade Eterna, que tudo conhece totalmente e intimamente, do qual nada pode ser escondido.
A decadência humana começou com a aceitação de uma mentira dita pela serpente, “o pai da mentira”, conforme diz Cristo, a Verdade Encarnada. A serpente como “pai da mentira” é pai de negações e de perversões do que é verdade, consequentemente do que é bondade. Como nas tentações de Cristo, diz meias-verdades misturadas com falsidades importantes. Não é possível haver uma mentira absoluta, sem nada da realidade, sem nada do ser, porque isto significaria abolição da verdade, o que é impossível.
Os inimigos da descendência da serpente são os descendentes da mulher, um dos modos de dizer a batalha secular da do Espírito da verdade contra o espírito da falsidade. Em um de seus significados, esta mulher dita no Gênesis é a Nova Eva, a Imaculada, a Mãe da Verdade Encarnada, da verdadeira religião. A Encarnação redentora, fruto da bondade onipotente de Deus, começa com a anunciação do Arcanjo São Gabriel. O Arcanjo Gabriel é o anjo da verdade, aquele que diz toda a verdade em nome de Deus e Maria, a Virgem Santíssima, é aquela que acolhe integralmente a verdade recebida. Em ambos há o interesse pela verdade, o interesse em conhecê-la e o interesse de que seja conhecida. A relação do anjo e Maria gira em torno da encarnação da Verdade Vivente. Assim, toda a verdade no anjo, toda a verdade em Maria, toda a verdade em Cristo e toda a verdade no Espírito Santo. Contra as meias-verdades exige-se toda a verdade. E como Ele mesmo disse, toda a verdade é Cristo, está em Cristo. Neste sentido, em essência a verdadeira religião é Católica, conforme a totalidade, conforme toda a verdade, sem impurezas da falsidade, sem as marcas da serpente. É a religião do Espírito Santo, o Espírito da Verdade, vitorioso Senhor dos Exércitos.
Certa vez, em comentários sobre a vida de São Paulo Apóstolo, o Papa Bento XVI disse: “Num mundo no qual a mentira é poderosa, a verdade paga-se com o sofrimento. Quem quer evitar o sofrimento, mantê-lo distante de si, mantém distante a própria vida e a sua grandeza; não pode ser servo da verdade nem pode servir a fé”.
