
O salmo 48 diz: “Nenhum homem a si mesmo pode salvar-se, nem pagar a Deus o seu resgate”. Para poder é necessário ser. O que é pode e o que não é não pode. O que é pode o que pode por ser o que é, e o mesmo vale pra o que não é e não pode. O homem não pode salvar si mesmo por ser o que é. Isto significa uma impotência essencial. Se ele não pode se salvar mas pode ser salvo, isto significa uma dependência essencial. Impotência e dependência significam a finitude da humanidade. A dependência que o homem tem de Deus é absoluta, é total. Sem Deus, o Absoluto, o Onipotente, todo homem é nada, é puro não-ser, pura impotência.
Se Deus é plenitude do ser, que não depende de nada para nada, Deus só pode ter criado o homem por bondade, em razão de seu amor misericordioso, generoso, e não para o seu próprio bem, como se faltasse algo em Deus.
Se considero o que pertence necessariamente à Essência Divina, a hipótese de maldade em Deus é absurda, sem sentido. Embora Deus possa, nos desígnios de sua sabedoria, permitir o mal, em certo sentido sempre relativo, jamais há qualquer maldade nas decisões divinas. Consentir em hipóteses absurdas sobre Deus e consentir em discursos sem inteligência, que obscurecem o Ser Divino. O salmo 48 diz: “Dirão meus lábios palavras de Sabedoria, e o meu coração meditará pensamentos profundos”.
O destino dos que “só vivem de delícias”, conforme o salmo 48, é um destino obscuro, porque, como não podem escapar da morte, é semelhante ao gado que se abate. A morte os esvaziará de seus bens perecíveis e ficarão eternamente na miséria da alma, privada perpetuamente, como preferiram, do “único necessário”. A infelicidade será sua morada eterna, sua perpetua habitação, se não mudarem em tempo, seguindo o conselho dado por São João Batista de “fazei penitência, porque está próximo o Reino dos céus” e o conselho dado por Cristo de “convertei-vos e crede no evangelho”.
