
Há quem diga que o homem não possui livre arbítrio. Tal negação tem inúmeras consequências para a vida pessoal e para a vida social. Santo Tomás de Aquino, ao falar sobre o livre arbítrio que há em Deus, diz o seguinte em sua “Suma Contra os Gentios”: “há livre arbítrio enquanto alguém quer as coisas não necessariamente, mas espontaneamente”. Necessário é aquilo que não pode ser de outro modo, em oposição ao contingente, que é aquilo que poderia ser de outro modo. Por exemplo: ao desenhar um triângulo ele necessariamente tem que possuir três lados, caso contrário não será um triângulo, porém posso desenhá-lo com diferentes tamanhos, sem que assim deixe de ser um triângulo.
O livre arbítrio é sempre com relação a algo e significa a capacidade humana de não querer as coisas necessariamente, mas livremente dentro das possibilidades de cada circunstância; é a capacidade de querer ou não querer a mesma coisa, de dizer sim ou não com a vontade. Porque há o limite das circunstâncias em que ele é exercido e porque há o limite das possibilidades sem as quais ele não poderia ser exercido, pode-se falar de um limite no livre arbítrio, porém isto não é motivo razoável para negar sua existência, porque o limite de algo não significa sua inexistência.
A este respeito diz o filósofo Josef Seifert: “Uma “pessoa não-livre” é uma contradição em si – tal como “madeira de aço”. A liberdade pertence tão essencialmente ao ser-pessoa que nenhum ente poderia ser chamado de pessoa se, em princípio e como sujeito despertado para a vida consciente racional, fosse inteiramente determinado de fora, por forças físicas, pela sua natureza, por outras pessoas e mesmo por Deus – ao invés de ser capaz de produzir atos pelo seu próprio centro, por si mesma. Mesmo a experiência de liberdade da criança é o bastante para ver que, se uma pessoa não fosse livre, responsabilidade e moralidade não poderiam existir, bem e mal seriam ilusões, não haveria culpa e nenhum mérito. Estima e rejeição seriam tão sem sentido quanto punição e recompensa, e a consciência moral que nos força a fazer o bem, quando hesitamos fazê-lo, e torna presentes a nós as nossas obrigações, adverte-nos a não fazer o mal, ou repreende-nos, por ter feito algo errado, seria baseada numa grande ilusão; prometer ou manter promessas, ou então dar um presente, tudo isso cessaria de ser o que é e seria reduzido à sua aparência. A gratidão ou a censura seriam tolice absurda – todas essas dimensões tão essenciais à vida humana pessoal estariam desprovidas da sua fundamentação, se seres humanos não fossem livres”. (Josef Seifert, em “Somos livres?”)
