
Em sua “Suma Contra os Gentios”, Santo Tomás de Aquino ensina que pela lei divina os homens têm o dever de aceitar a verdadeira fé. Em suas palavras, algumas razões são:
“1. Com efeito, assim como se inicia a afeição corpórea pela visão dos olhos do corpo, também o amor espiritual deve ter início na visão inteligível do que é amável espiritualmente. Ora, a visão do objeto espiritualmente amável, que é Deus, nós não a podemos ter no presente, porque ela excede à razão natural e, sobretudo, porque sua fruição está na nossa beatitude. Logo, é necessário que pela lei divina sejamos levados à fé verdadeira.
2. Além disso, a lei divina ordena o homem para que ele se submeta totalmente a Deus. Ora, como o homem se submete a Deus amando-o pela vontade, deve também se submeter a Deus crendo pelo intelecto. Mas não crendo em algo falso, porque nada falso pode ser proposto ao homem por Deus, que é a verdade. Por isso, quem crê em algo falso, não crê em Deus. Logo, os homens são dirigidos por Deus para a verdadeira fé.
3. Além disso, quem erra no tocante à essência da coisa, não a conhece. Assim, por exemplo, se alguém vê no animal irracional um homem, não conhece o homem. Mas se errasse quanto a algo acidental da coisa, isto não se daria. No entanto, quanto às coisas compostas, quem erra em algum princípio essencial, embora não a conhecesse totalmente, a conheceria sob algum aspecto. Assim, por exemplo, se alguém pensasse ser o homem um animal irracional, conhecê-lo-ia quanto a seu gênero. Mas isso não pode acontecer às coisas simples, pois qualquer erro excluiria totalmente o conhecimento dela. Ora, Deus é o que há de mais simples. Logo, quem erra no tocante a Deus, não o conhece: por exemplo, quem pensa que Deus é corpo o desconhece absolutamente, pois conhece algo em lugar de Deus. Logo, quem erra a respeito de Deus, não pode amar a Deus, nem desejá-lo como fim. Ora, como a lei divina destina-se a que os homens amem e desejem a Deus, é necessário que eles sejam forçados pela lei divina a ter uma verdadeira fé a respeito de Deus.
4. Além disso, uma falsa opinião na ordem inteligível é paralela, na ordem moral, ao vício oposto à virtude, pois o bem do intelecto é a verdade. Ora, é próprio da lei divina proibir os vícios. Logo, lhe é também próprio afastar opiniões falsas a respeito de Deus e das coisas referentes a Deus.
5. Daí se ler na Escritura Sagrada: Sem a fé é impossível agradar a Deus (Hb 11,6). E no Livro do Êxodo, antes de serem dados os outros preceitos da lei, afirma-se a verdadeira fé em Deus, ao se dizer: Ouve, Israel, o Senhor teu Deus é um só (Ex 20,2).
6. Por esses argumentos é refutado o erro de alguns que afirmam que nada tem a ver com a salvação do homem o conteúdo da fé com que ele serve a Deus” (“Suma contra os gentios”, livro 3, capítulo 118).
