
Um ser não pode ser mais do que é, se não recebe isso de outro, necessariamente, porque não pode receber de si mesmo, e neste caso já seria, e não pode receber do nada, que em tudo nada pode. Este necessário, sem o qual ele não pode ser mais do que já é em sua totalidade, necessariamente tem que ser mais do que ele, do contrário nada poder ser dado nem recebido. O excedente de ser só pode vir de outro que é mais. Somente o ser pode dar o ser.
Na possibilidade de receber o ser de outro, aquilo que foi recebido não é dele, não lhe pertence, pois se pertencesse não necessitaria receber. Neste caso, ao receber já seria outro que era. Assim, enquanto é aquilo que é, enquanto permanece naquilo que é, um ser não pode ser mais do que ele mesmo, o que é diferente de dizer que um ser não é atualmente tudo quanto pode ser naturalmente. Por exemplo, o homem, enquanto misto de atualidade e possibilidade, pode progredir nas possibilidades de sua essência, pode possuir em grau maior, dentro de um máximo e de um mínimo, perfeições próprias de seu ser, como a inteligência. Por outro lado, no verdadeiro cristianismo, corretamente compreendido, acontece, para quem alcançou a salvação, certa divinização do homem, ao receber a vida divina e assim possui-la sobrenaturalmente, o que inclui certo grau de conhecimento divino.
A este respeito, por exemplo, Santo Tomás diz na “Suma contra os gentios” que “aqueles que veem a Deus, em Deus veem todas as coisas”, e que “pela visão de Deus participa-se da vida eterna”. Diz ele: “Com efeito, a eternidade é diferente do tempo, porque o tempo tem o ser em certa sucessão, e a eternidade tem o ser todo simultâneo. Já foi dito acima, que na mencionada visão não há sucessão alguma, mas tudo, que por meio dela é visto, o é simultaneamente num só olhar. Por conseguinte, essa visão se perfaz por uma certa participação da eternidade. Ora, essa visão é um certo modo de vida, porque a operação do intelecto é um certo modo de vida. Logo, por meio dessa visão o intelecto participa da vida eterna”.
“Estive morto e agora vivo:
Sou o Vivente pelos séculos;
tenho as chaves dos abismos
e a vitória sobre a morte”.
