
Deus não predestina ninguém para o inferno. Algumas razões que mostram essa verdade:
Santo Agostinho diz que o homem é criado pela Sabedoria para a Sabedoria. A Sabedoria é o próprio Deus, que é a própria Felicidade. Se Deus cria o homem para si, então ele cria o homem para a felicidade e, conforme a ideia divina original, a isso todos os homens estão destinados. O inferno significa uma certa ausência de Deus, uma privação perpétua da felicidade da felicidade que somente Deus pode dar. Assim, ou Deus cria todos os homens para a felicidade ou predestina alguns para o inferno. As duas coisas ao mesmo tempo não são possíveis, porque alguns é negação de todos. Como é certa a primeira, então a segunda só pode ser falsa.
Além disso, no sentido aqui considerado, um predestinado ao inferno necessariamente vai para o inferno, porque o necessário exclui possibilidades contrárias. Assim, para este homem não seria possível de modo algum se salvar, o que contradiz as Escrituras, que ensina: Deus “não deseja a morte do pecador e sim que ele se converta e viva” (Ez 33), “deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2,4).
Além disso, isto contraria a Misericórdia Divina e a Justiça Divina. No primeiro caso, porque a criação não corresponde a um dever de justiça, e assim pode ser dita obra da misericórdia, que difunde suas bondades nas criaturas, o que exclui algum homem ser criado para o inferno, que é privação de bondades. No segundo caso, se o inferno é condenação, ela é consequência do julgamento da justiça. Só pode ser julgado e sentenciado quem é culpado por alguma maldade que preferiu livremente. Sem liberdade, sem livre-arbítrio, não há culpa. Assim, aquele que foi para o inferno por predestinação, por prévia decisão divina, teria ido injustamente, porque não poderia ter exercido a liberdade de rejeitar o inferno e preferir a salvação.
Além disso, há um primado da bondade sobre a maldade. Há antes e eternamente a bondade e não a maldade, porque pode haver o bem sem o mal, mas não o mal sem o bem. Em Deus não há maldade, e tudo o que Ele faz é bom. Assim, Deus faz o homem na bondade e para a bondade, como projeto imutável, o que exclui o pecado e o inferno.
Por esta e por outras, só vai para o inferno quem merece segundo a Justiça Divina, por rejeição da Misericórdia Divina; e se mereceu é porque de certo modo preferiu, escolheu, sem ser forçado a isso. Assim, no inferno como destino há primeiro uma auto-exclusão do homem quanto ao Bem e não uma exclusão previamente decidida por Deus.
Se tudo isso é certo, então é uma falsidade importante, uma “doutrina diabólica”, na expressão de São Paulo Apóstolo (1Tm4,1).
