
A verdade e a certeza são dois valores importantes da vida humana, da vida da consciência, o que inclui a religião, a filosofia e as ciências. Assim como a razão filosófica e a razão científica exigem a verdade e a certeza, porque sem elas as duas perdem o sentido, a razão religiosa exige o dogma. Enquanto exigência de verdade e certeza, de certo modo o dogma é a razão na verdadeira religião. Como todo relativismo, o relativismo religioso e o “relativismo dogmático” é um discurso sem inteligência.
Na verdadeira religião podemos falar de três certezas importantes: a certeza da autoridade, a certeza da razão e a certeza da experiência. A certeza da autoridade, ante a qual é devida a obediência da fé, diz respeito antes de tudo à verdade revelada que é acreditada “por causa da autoridade de Deus que a revela”, verdade garantida por Deus, que é a Verdade, que não se engana nem engana ninguém. Por exemplo: (I) a Sagrada Escritura, corretamente compreendida, possui certeza de autoridade, porque é palavra de Deus em linguagem humana; (II) outro caso é quando um Papa legítimo ou um Concílio legítimo declara algo como dogma ou diz o que é catolicamente correto, a exemplo do que diz o Concílio Vaticano I: “Se alguém disser que o Deus uno e verdadeiro, Criador e Senhor nosso, não pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana, por meio das coisas criadas – seja excomungado”.
A certeza da razão é aquela que antes tudo corresponde a razões necessárias, àquilo que é uma necessidade absoluta, que não poderia ser de outro modo. Assim, por exemplo, em sentido elevadíssimo Deus é necessariamente Uno. Uma razão necessária é: “Deus é sumamente perfeito, não lhe faltando perfeição alguma. Por isso, se houver vários deuses, necessariamente haverá várias coisas com essa perfeição. Ora, isto é impossível, porque, se a nenhuma delas falta perfeição alguma, e se nenhuma tem mistura de imperfeição – o que se requer para que o uma coisa seja perfeita – não haverá nada em que se distingam entre si. Logo, é impossível haver vários deuses”.
A certeza da experiência diz respeito a realidades da fé enquanto conhecidas de certo modo na experiência. Continuação: Assim, há a realidade da Providência Divina, que tudo governa com Onipotência. Essa realidade dita pela fé com o tempo pode ser confirmada em inúmeras experiências pessoais, acima de qualquer dúvida razoável, por exemplo quando algo improvável pedido em oração acontece ou quando uma verdadeira profecia se realiza.
Um exemplo das três certezas. A Santíssima Trindade. É uma certeza de autoridade, porque definida como dogma em Concílios: “Não professamos três deuses, mas um só Deus em três Pessoas: A Trindade consubstancial (Constantinopla) e “Cada uma das três pessoas é esta realidade, isto é, a substância, a essência ou a natureza divina” (IV Latrão). É uma certeza da razão, enquanto certamente não é um absurdo, um sem-sentido, embora por ser um mistério do ser de Deus que excede a capacidade natural da razão humana, não pode ser demonstrada de um modo que dispense a revelação divina. Mas pode ser entendida pela razão até certo limite, como um Sol Divino que pelo excesso de luz ofusca a visão humana, que fica num claro-escuro. Neste sentido, São Boaventura, quando fala dos atributos de Deus, diz que “podem reduzir-se a três, a saber: a eternidade, a sabedoria e a felicidade; e estas três a uma: a sabedoria, na qual se incluem a mente que gera, o Verbo gerado e o amor que une a ambos, e nos quais a fé ensina que consiste a Santíssima Trindade”.
Certeza da experiência a respeito da Santíssima Trindade é o que a Bondade Onipotente concedeu à Santa Faustina. Em seu Diário, ela relata: “Então, o meu espírito foi unido a Deus; imediatamente vi a inconcebível grandeza e santidade de Deus e, ao mesmo tempo, conheci (195) o nada que sou por mim mesma. Reconheci, mais distintamente que das outras vezes, as Três Pessoas Divinas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Mas é uma só a Sua Essência, igualdade e majestade. E, embora a minha alma conviva com os Três, e tão claramente compreenda isso, não o consigo expressar com palavras. Todo aquele que está unido com uma dessas Três Pessoas, está, por isso mesmo, unido com toda a Santíssima Trindade, visto que Sua Unidade é indivisível. Essa visão, ou antes esse conhecimento, inundou a minha alma de uma felicidade inconcebível, porque Deus é tão grande. O que acabo de descrever não vi com os olhos, como antigamente, mas de maneira puramente interior, de forma puramente espiritual e independente dos sentidos. Isso durou até o final da santa Missa” (472).
