A felicidade última do homem não está nesta vida

“Além disso, todos dizem ser a felicidade um bem perfeito e, se não fosse, não aquietaria o apetite. Ora, o bem perfeito está totalmente isento de mal, como o branco perfeito é o que não tem mescla de preto. Mas não é possível que o homem no estado desta vida fique totalmente isento do mal: não só dos males corpóreos, como o calor, o frio, a fome, a sede, e outros semelhantes, como também aos males espirituais. Com efeito, não há alguém que jamais tenha sido perturbado pelas paixões desordenadas, que nunca tenha saído do justo meio da virtude, excedendo-se ou retraindo-se; que não se tenha em algo tempo enganado; ou que, pelo menos, não tenha ignorado o que desejasse saber; ou finalmente, que não tenha tido apenas opinião daquilo que desejasse conhecer com certeza. Logo, a felicidade última do homem não está nesta vida.

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É impossível que o desejo natural seja inútil, porque a natureza nada faz em vão. Ora, um desejo que não pudesse ser satisfeito, não poderia ser natural. É, pois, possível ser satisfeito o desejo natural no homem, mas não nesta vida, como acima foi demonstrado. É, pois, necessário que seja satisfeito após esta vida. Logo, a felicidade última do homem será alcançada após esta vida.

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Por isso, a visão imediata de Deus nos é prometida na Carta aos Coríntios: Vemos agora como por um espelho, obscuramente; então, face a face (1Cor 13, 12).

Isso não deve ser entendido de modo material, como se imaginássemos uma face corporal na divindade, pois já foi demonstrado acima que Deus é incorpóreo. Nem é tampouco possível que vejamos a Deus pela nossa face corpórea, pois a visão corpórea facial só pode referir-se a coisas corpóreas.  Por conseguinte, veremos Deus face a face, porque é uma visão imediata, como a que temos de um homem que vemos face a face.

Segundo essa visão assemelhamo-nos ao máximo com Deus, participamos de sua beatitude, pois Deus conhece a sua substância pela sua essência; e nisto consiste sua felicidade.

Por isso, é dito na Sagrada Escritura: Quando aparecer, seremos semelhantes a Ele. Vê-lo-emos como é (1Jo 3,2). Eu preparo uma mesa para vós, como o pai preparou para mim; para comerdes e beberdes na minha mesa no meu reino (Lc 22, 29). Essas expressões não podem ser compreendidas como se tratassem de bebidas e comidas corpóreas, mas daquilo que se recebe na mesa da sabedoria, a respeito da qual a própria diz: Comei os meus pães e bebei o meu vinho que misturei para vós (Pr 9,5).

Com efeito, comem e bebem na mesa de Deus aqueles que gozam da mesma felicidade com que Deus é feliz, vendo Deus do mesmo modo segundo o qual Deus se vê”. (Santo Tomás de Aquino, “Suma contra os Gentios”).

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