
Sofrer é experimentar algum mal. Do mesmo modo que não há sofrimento sem o mal, não há o mal sem o bem, porque o mal é certa falta ou privação de algum bem. Assim, o homem sofre por causa do mal, o que significa que sofre por causa de algum bem que lhe está ausente e deveria possuir. A realidade, como ordem divina do ser, é em si mesmo boa, a existência é um bem, o ser é bondade, antes de tudo a Bondade do Criador e depois as bondades das criaturas. Porém, pela divina revelação, o mal entra no mundo devido ao pecado do homem, que nisso se colocou num estado de privação da graça divina, da qual depende para ter uma vida feliz, sem a qual ele é como que miséria ambulante.
A Sagrada Escritura é um grande livro sobre o sofrimento. Nela, o Evangelho é também Evangelho do sofrimento, porém em sentido positivo, como diz a linguagem da Cruz. Segundo a palavra revelada presente na Escritura divina, o sofrimento humano possui pelo menos três significados importantes. Primeiro, como castigo pelo pecado, pois o Deus da revelação é Legislador e Justo Juiz, que pune pela maldade e premia pela bondade, como exige a Justiça Divina, na ordem divina do ser governada pelo Criador. Segundo, como educação e purificação, do Deus misericordioso que deseja corrigir para que haja conversão, que é um bem para o homem. Terceiro, como virtude e mérito, que é o sofrimento do justo e inocente, que sofre livremente e nesse seu sofrimento consegue bens para si e para o outro. O sofrimento de Cristo, semelhante ao homem em tudo menos no pecado, e o sofrimento de sua Mãe Santíssima, desde sempre Imaculada, são sofrimentos de almas vítimas inocentes, no divino amor, na divina Misericórdia. Sofrem para libertar o homem do mal definitivo, acima de qualquer mal temporal, que é a perdição eterna no inferno sem fim, a terra dos desgraçados que rejeitaram a graça.
Sobre o Sofrimento de Maria, a Senhora das Dores, o teólogo católico Guarrigou-Lagrange diz: “O caráter de satisfação ou de expiação dos sofrimentos da Santíssima Virgem provém de que, como Nosso Senhor e com ele, ela sofreu pelo pecado ou pela ofensa feita a Deus. Ora, ela sofreu na medida de seu amor por Deus ofendido, de seu amor por seu Filho crucificado por causa de nossas faltas, e de seu amor por nossas almas que o pecado destrói e faz morrer. Esta medida foi, pois, a da plenitude de graça e de caridade, que desde o instante se sua concepção imaculada ultrapassa a graça final de todos os santos reunidos, e desde então não tinha cessado de crescer. Já pelos atos mais difíceis, Maria merecia mais que os mártires nos seus tormentos, porque colocava mais amor; qual não foi, portanto, o preço de seus sofrimentos aos pés da cruz, dado o conhecimento que recebeu do mistério da Redenção” .
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Sugestão de livros:
“Mãe do Salvador e a nossa vida interior” (Guarrigou-Lagrange)
“O Sentido Cristão do Sofrimento Humano” (Papa João Paulo II)
