
No Evangelho de São Lucas é dito sobre Maria Santíssima: “E deu à luz seu filho primogênito, e, envolvendo-o em faixas, reclinou-o num presépio; porque não havia lugar para eles na hospedaria”. Há quem use essa passagem para dizer que Maria teve outros filhos, pois, se Jesus é o seu primogênito, então haveria outros, e com isso não seria verdadeiro o dogma católico da Virgindade Perpétua da Santa Mãe de Deus, sempre Virgem Puríssima. Nisso há uma meia-verdade misturada com falsidade importante, que é a parte que nega o dogma, verdade revelada da fé verdadeira.
Certamente, se alguém é primogênito, então ele é o primeiro de uma sequência, na qual há pelo menos o segundo. Por exemplo: como verdade da razão e da Revelação, Deus é dito a Causa Primeira de todas as coisas, causa onipresente que ao seu modo divino atua com as causas segundas que há nas coisas. Pela noção de causa primeira e de causas segundas se entende os milagres, pois em cada milagre, que só se realiza pelo poder de Deus, a Causa Primeira onipotente age sem necessidade da causa segunda. No milagre da Encarnação, Cristo homem foi gerado apenas de Maria, de seu corpo santo, sem a participação de um homem, o qual, junto com a mulher, em geral é a causa segunda natural do surgimento de novos homens.
Assim, se Jesus é o primogênito de Maria, então tem de haver pelo menos outro filho. Porém, se é certo que a Sagrada Escritura diz “filho primogênito de Maria”, é necessário distinguir, e assim a confusão se desfaz.
Eis a distinção. A mesma Escritura diz que Cristo é Filho unigênito do Pai (Jo 3,16) e primogênito do Pai (Heb 1,6). Ora, há aqui uma aparente contradição, pois não é possível ser primogênito e unigênito no mesmo sentido, pois se é filho único, não há outros, e se não há outros é sem sentido falar em primeiro. Mas a contradição é aparente, se consideramos o que a fé verdadeira ensina. Como ensina São João, Cristo é o Verbo Divino que se fez carne e habitou entre nós, é o Filho de Deus, que é Deus, com a mesma Essência Divina do Pai, que o gerou desde toda a eternidade, como a Sabedoria que Deus tem de si mesmo. Nesse sentido, Deus Pai tem apenas um Filho essencialmente divino; porém, em outro sentido, Deus possui outros filhos, os filhos adotivos, que pelo batismo são divinizados pela ação do Espírito Santo, tornados participantes da natureza divina de modo sobrenatural. Assim, há o Filho divino por natureza, coeterno com o Pai e o Espírito Santo, e há, pela Misericórdia Onipotente e sumamente generosa, os filhos adotivos, divinos por participação.
Com relação ao caso de Maria, pode-se dizer o mesmo: Jesus Cristo é, segundo a carne, o Filho único da Santíssima Virgem, e o primogênito, pois, segundo o espírito, todo batizado é filho espiritual de Maria. Assim, por vontade divina a Imaculada possui uma multidão de filhos espirituais, e esse é um dos significados do que na cruz Cristo diz para Ela e para o discípulo amado, que a tradição diz ser o Apóstolo São João: “Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: Mulher, eis aí teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa” (Jo 19, 26-27).
O Natal, em seu verdadeiro sentido religioso, ensina a Encarnação do Verbo, o Salvador que veio trazer a salvação providenciada pela Misericórdia Divina para o homem escravo de suas misérias, e como fato no fato da Encarnação ensina o nascimento do Menino-Deus, tal como profetizado pelo profeta Isaías: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamarão pelo nome de Emanuel’ que significa ‘Deus conosco”. (Is 1,23)
