
O homem pode ser dito espiritual pelas suas potências, que são sempre potências com relação ao ser, porque, do contrário, seriam com relação ao puro nada, o que é sem sentido. Tais potências permitem ao homem uma relação de presença, participação e posse com coisas imateriais, incorpóreas e espirituais. Entre essas potências estão sua inteligência, que conhece; sua vontade, que quer; e seu coração, que sente.
O homem pode ser dito espiritual porque é capaz de consciência de si, exigida pelo ser “eu”, e é capaz de crescer nesse conhecimento próprio e de transcender a si mesmo pela inteligência, que o leva além de si por um modo de participação e de presença em outro ser. É espiritual porque é capaz de relação inteligente com a realidade, capaz de atingir o logos de um ser, de apreender sua essência, de entender os significados objetivos das coisas e de viver os fatos da realidade em perspectiva, com consideração de seus verdadeiros sentidos. É espiritual porque é capaz de perceber coisas universais, necessárias e eternas — coisas imateriais e incorpóreas — e relações imperceptíveis pelos órgãos corporais. É espiritual porque é capaz de apreender a verdade, e verdades eternas, com posse contínua do ser conhecido para além do instante que passa, como mostra a memória. É espiritual porque é capaz de perceber ilusões dos sentidos, de detectar mentiras, confusões e contradições, e de corrigir e ser corrigido quanto à consciência. É espiritual porque é capaz de verdade e certeza apodítica, pela evidência percebida e pelas demonstrações de sua inteligência raciocinante.
O homem pode ser dito espiritual porque é capaz de querer livremente e, nesse querer, pode fazer o bem e evitar o mal entendidos como tais; pode intencionalmente realizar valores, como a justiça e a misericórdia, e exercer as virtudes, como a prudência e a temperança. É espiritual porque é capaz de comunicação consciente com outra pessoa — por exemplo, por meio da linguagem e no ato de aprender e ensinar. É espiritual porque, na relação com o outro, é capaz de vínculos dotados de significado e valor, como o vínculo do matrimônio, com o valor da fidelidade, e o vínculo de amizade, com o valor do auxílio mútuo.
E é dito espiritual porque, feito à imagem e semelhança de Deus (Gn 1, 26), possui imortalidade em sua alma imaterial, criada como algo indestrutível (Suma Teológica, I, q. 75, a. 6), porque é capaz de Deus, de possuí-lo, unir-se a Ele e contemplá-lo como Suprema Verdade e Sumo Bem, conforme a graça divina concedida em Cristo e distribuída ordinariamente em sua Igreja Católica — Nele que é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6). É espiritual porque é capaz de sentimentos espirituais e consolações na alma cuja fonte não pode ser corpórea nem material, como a alegria, a paz, o êxtase e a felicidade propriamente dita: aquele sentimento interior de plenitude pela posse do Bem, que a tem como fonte inesgotável e duradoura (Dietrich von Hildebrand, O Coração).
Assim, o homem é espiritual pelo desejo interior de felicidade duradoura, pela inquietude do coração — insatisfeito com os bens limitados, passageiros e destrutíveis desta vida terrena, nos quais não encontra repouso (cf. Sto. Agostinho, Confissões, I, 1) —, a paz na tranquilidade, a tenda de São Pedro na Transfiguração (cf. Mt 17, 4). Cristo disse: “O espírito é que vivifica, a carne de nada serve. As palavras que vos tenho dito são espírito e vida” (Jo 6, 63).
