
Como ensinamento contido em certas parábolas de Cristo, Deus concede a graça e há frutos dela que dependem do homem. A graça significa alguma bondade concedida gratuitamente, e não como dever de justiça. Neste sentido, a Criação e a Redenção são graças da Misericórdia divina. Como é certo, segundo ensina São Paulo, que Deus quer que todos se salvem e conheçam a verdade, sem predestinar ninguém ao inferno, e se a fé é necessária para a salvação, no sentido de quem crer com a obediência da fé será salvo, então de um modo ou de outro Deus concede a todos o dom da fé, ou concede a graça suficiente para a salvação. E se entre aqueles que receberam o dom da fé há os que caem no abismo do inferno é porque não deram frutos dessa graça, o que dependia de sua vontade livre. Assim, sem excluir a graça, o decisivo na salvação eterna e na condenação eterna é a vontade do homem.
A este respeito, por exemplo, Santo Tomás fala da vontade imutável no bem para os bem-aventurados e da vontade imutável no mal para os condenados. Assim, o destino eterno da pessoa é uma espécie de perpetuação de sua vontade na vida terrena, após a alma se separar do corpo no fato da morte. E como coisas opostas têm efeitos opostos, isto vale para o bem e para o mal escolhidos. Quem escolheu a Deus como fim último terá os efeitos eternos dessa escolha e quem rejeitou a Deus e sua graça terá os efeitos eternos de sua escolha, que não podem ser os mesmos que os efeitos do bem, e sim os efeitos próprios do mal, infelicidade sem fim, o vazio perpétuo do “único necessário”. Diz o Santo doutor: “Assim como os bons, vivendo na carne, colocam em Deus o fim de todas as suas obras e desejos, também os maus os colocam em algum bem indevido que os afasta de Deus. Porém, as almas dos bons, quando separadas, aderem imutavelmente ao fim que nesta vida presente preestabeleceram, isto é, a Deus. Logo, também as almas dos maus imutavelmente aderirão ao fim que para si escolheram”. (Suma contra os Gentios)
E Santa Faustina diz em seu Diário: “Após essas palavras, tive uma compreensão mais profunda da misericórdia de Deus. Será condenada apenas a alma que quiser; porque Deus não condena ninguém”. (1452)
