
Certos adversários da Sagrada Escritura, para desacreditá-la como “Palavra de Deus enquanto foi escrita por inspiração do Espírito divino”, alegam haver nela contradições.
Para falar em contradições na Sagrada Escritura é necessário saber o que é contradição. Contradição é afirmar a ausência e a presença do mesmo simultaneamente e sob o mesmo aspecto, é afirmar o ser e o não-ser de algo ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Se alguém diz que Sócrates morreu e depois diz que o mesmo Sócrates não morreu, isso pode ser uma contradição, mas também pode não ser, pois depende do sentido das afirmações. Contradição é caso a morte seja a mesma nas duas afirmações, como a morte do corpo, por exemplo. Porém, se a morte é dita em sentidos diferentes, como morte corporal e morte na memória histórica, então não há contradição. Assim, a primeira afirmação pode ser entendida como Sócrates morreu corporalmente e a segunda pode ser entendida como a memória histórica da figura de Sócrates permanece entre as gerações após sua morte corporal, e neste sentido ele ainda é um personagem vivo em certas consciências.
Essa consideração vale para as Escrituras divinas, pois, em todos os casos, antes de se falar em contradições é necessário saber em que sentido suas afirmações devem ser entendidas.
Exemplo de suposta contradição. No livro Deuteronômio (24,16) é dito por Deus que “não morrerão os pais pelos filhos, nem os filhos pelos pais. Cada um morrerá pelo seu próprio pecado”; porém no livro de Isaías (14,21) Deus diz que “Nunca, jamais se falará da raça dos ímpios. Preparai o massacre dos filhos por causa da iniquidade dos pais. Que eles não se levantem para conquistar o mundo, e invadir toda a face da terra”.
A suposta contradição entre as passagens em questão é aparente, pois aqui a palavra da Escritura é considerada em apenas em sua veste literária, sem verdadeira inteligência de seu sentido, sem a visão intelectual da palavra divina comunicada. O trecho de Isaías não contradiz o trecho de Deuteronômio, porque não deve ser entendido como Deus que castiga filhos inocentes pelas culpas dos pecados cometidos pelos pais, e sim deve ser entendido da seguinte maneira. Como anteriormente é falado da “raça dos ímpios”, todos os que pertencem a essa raça têm em comum a impiedade, um dos nomes do pecado, pois é próprio do ímpio ir contra as leis de Deus. Neste caso, os pais são ímpios e os filhos também, e os pecados dos pais estão nos filhos pela semelhança, que desse modo são pecadores pela impiedade. Assim, os filhos não são inocentes, e enquanto iníquos são merecedores de castigo perante a justiça divina, do Deus que tem todo direito de fazê-lo, porque é dono do ser e da existência, governante de todo o universo, Aquele que tira a vida e faz viver (1Sm 2,6). Em poucas palavras: o “por causa da iniquidade” significa que os filhos são iníquos como os pais por causa dos pais, que pelo exemplo ou palavra fizeram os filhos semelhantes em certos pecados. Assim, permanece o que é dito em Deuteronômio: cada um morrerá, isto é, pagará a justiça divina, pelo seu próprio pecado.
