
Como diz o teólogo Garrigou-Lagrange, “a profecia, em sentido próprio, é o dom de conhecer e prever seguramente o futuro por inspiração divina”. E Santo Tomás de Aquino ensina que a mente do profeta é antes de tudo iluminada. Desse modo, o verdadeiro profeta recebe certos conhecimentos superiores comunicados pela consciência Divina onipotente que tudo sabe de modo todo simultâneo. Isaías, um profeta, homem de Deus escolhido, portador desse dom, recebeu a profecia sobre a virgem e seu Filho santo, o verdadeiro e único Messias, o Emanuel, Deus conosco pela Encarnação redentora. Em geral, nas profecias não é dito tudo em todos os detalhes, mas é dito algo importante e seu significado essencial. O fato da profecia em questão é um sinal para o povo de Israel e para a casa de Davi, algo que mostrará a presença de Deus e sua Providência onipotente cheia de bondade para o povo escolhido e para toda a humanidade.
Enquanto realizada, na profecia de Isaías a Virgem certamente é Maria, a escolhida por Deus desde toda a eternidade, e o Filho é Jesus Cristo, o Emanuel, porque é o Filho eterno de Deus, que é Deus com o Pai eterno, que se encarnou, entrando na história humana como homem-Deus para a salvação de sua criatura muito amada, necessitada de amparo em sua miséria. A profecia não diz isto deste modo, mas é o que significa em seus fatos realizados. Neste duplo aspecto, há mistérios nas palavras da profecia e há mistério nos fatos realizados da profecia. Ante tais mistérios, a mente humana, sempre por si mesma limitada, permanece como que num claro-escuro pela abundância de luz, como os olhos ante o sol. Por isso, somente de Deus, enquanto fonte primeira necessária, provém a profecia, a compreensão da profecia e a compreensão dos fatos da profecia. Do mesmo modo que é o Bem fonte de todo bem, Deus é a Luz fonte de toda luz, a Sabedoria fonte de toda sabedoria verdadeira.
O salmo 39 é um salmo de Cristo, e nesse sentido é um salmo profético, que antecipa certas palavras, certas ações e o espírito de Jesus, o Messias verdadeiro. Aqui, espírito significa aquilo que move, com os movimentos próprios da vida humana. No caso do divino Jesus, o que lhe movia fundamentalmente era fazer a vontade do Pai, como ele mesmo disse, quando fala da vontade do pai como seu alimento. Assim, neste salmo profético é dito: “com prazer faço a vossa vontade” (9).
A nova e eterna aliança, a partir do segundo sacrifício, que é a entrega amorosa do santo corpo de Cristo, de sua sagrada Humanidade, é uma aliança na verdade e na vontade, e assim é essencialmente espiritual, nascida do Espírito e voltada para o Espírito como seu fim último. É próprio dessa aliança o amor pela verdade, e nisso o amor pela verdadeira religião, e o interesse pela vontade de Deus, reconhecida como a melhor Vontade. Assim, por exemplo, é dito por Jesus, o divino Mestre: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus”. (Mt 7,21)
O espírito de Maria era o mesmo de Cristo, porque a vontade de Deus antes de tudo em tudo era o que a movia. Assim, como resposta amorosa a vontade de Deus, ela disse ao anjo: “eis a escrava do Senhor, faça-se em mim conforme a tua palavra”. A primeira Eva, esposa de Adão, consentiu com sua vontade às palavras enganosas da serpente diabólica, e a nova Eva, a Divina Mãe do novo Adão, consentiu com sua vontade imaculada às palavras de verdade do santo anjo Gabriel, o mensageiro luminoso de Deus, a força da misericórdia e da justiça divinas. Assim, Maria Santíssima, que é a Rainha dos profetas, profetizou sobre si mesma: “desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é onipotente e cujo nome é Santo”. (Lc 1, 48-49)
Desse modo, como diz a profecia, que só pode vir do Espírito da Verdade, podemos dizer: “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus”.
