
Deus, como justo juiz, em seu pleno direito, manifestou a Moisés a ideia de exterminar o povo idólatra e ingrato, o que significa que Ele poderia fazê-lo e o povo merecia. Porém, por excesso de bondade de sua misericórdia e pela intercessão de Moisés, homem de predileção, Deus não executou o extermínio e lhes deu nova oportunidade. Vale para a intercessão de Moisés o que é dito por São Tiago Apóstolo: “A oração do justo tem grande eficácia” (Tg 5,16). Por causa dos justos, que lhes são agradáveis, como amigos, Deus deixa de executar muitos castigos merecidos pelo povo e pela humanidade.
Os castigos de Deus não são males que o criador faz, porque em Deus não há maldade e Ele jamais quer o mal. Tais males são males para os homens enquanto privados de certos bens por merecimento ante a justiça divina, pelos males morais cometidos nas escolhas de seu livre-arbítrio. Neste sentido deve ser entendido o que é dito na Escritura: “E o Senhor desistiu do mal que havia ameaçado fazer ao seu povo”. (Ex 32,14)
Quando fala de Deus, é próprio da linguagem da divina revelação a analogia, que é uma síntese de semelhança e diferença. Assim, por exemplo, quando a Escritura fala de “desistência”, “arrependimento” ou “ira” de Deus, deve ser entendido pela semelhança, analogicamente. Deus “desistiu” significa que, ante as diferentes possibilidades, prevaleceu uma na decisão divina, aquela pedida por Moisés, e assim, pelos efeitos, Deus decidiu não punir o povo com a aniquilação merecida. No caso, o desistir não significa uma imperfeição de Deus, como se fosse um homem, mas sim serve para enfatizar a sua Misericórdia e a intercessão de Moisés. Assim, diz o salmo 105: “Até pensava em acabar com sua raça, não se tivesse Moisés, o seu eleito, interposto, intercedendo junto a ele, para impedir que sua ira os destruísse”. (23)
