
Opondo ciência e religião, há quem afirme que as explicações religiosas são desnecessárias e mitológicas, algo da infância fantasiosa de uma humanidade ainda não evoluída para os estágios superiores da razão, como poderia dizer um cientificista positivista, que faz da ciência empírica uma espécie de ídolo. Isto se mostra falso, quando se considera, dentre outras coisas, o seguinte:
(I) Nesta ideia há o erro de tratar as ditas religiões como uma coisa só, sem ponderar suas diferenças de conteúdo e de mentalidade. Esta é uma distinção importante, pois, pelo menos no catolicismo autêntico, os conteúdos dogmáticos não se opõem a nada de objetivamente certo nas ciências; e, na mentalidade religiosa que lhe é própria, há espaço e estima para a boa atividade científica e seus conhecimentos verdadeiros. Caso exemplar disso é Santo Alberto Magno, doutor da Igreja e padroeiro dos cientistas, que foi um homem de ciência com interesses em áreas como a física, a química, a astronomia, a mineralogia, a botânica e a zoologia. Santo Alberto diz: “Ao estudar a natureza, não devemos indagar como Deus Criador pode, segundo Sua livre vontade, usar Suas criaturas para realizar milagres e, assim, manifestar Seu poder; devemos, antes, indagar o que a Natureza, com suas causas imanentes, pode naturalmente produzir” (em Sobre a Vegetação).
(II) Uma explicação religiosa verdadeira e uma explicação científica verdadeira não se excluem, enquanto dizem respeito a aspectos distintos das coisas. Na cosmovisão católica há espaço e justificativa para as duas, enquanto se considera, por exemplo, que na ordem cósmica criada há uma concatenação de causas, entre as quais a Causa primeira onipresente, que tudo mantém na existência, e as causas segundas naturais. A este respeito, Santo Tomás diz: “E por este motivo o filósofo e o fiel consideram realidades diversas nas criaturas. O filósofo, com efeito, considera aquilo que lhe convém conforme a natureza própria, por exemplo o fogo, enquanto fogo. O fiel, porém, considera nas criaturas somente aquilo que a elas convém enquanto são relacionadas com Deus, como o serem criadas por Deus, serem sujeitas a Deus, etc.” (em Suma Contra os Gentios).
(III) Quando se excluem mutuamente, ambas as explicações ou discursos sobre a realidade não podem ser verdadeiros, e em tal caso se pode falar de conflito. Mas, se uma é verdadeira, a outra só pode ser falsa, e deve-se ficar sempre com a verdade. Além disso, as ciências particulares, pelo seu objeto e pelos seus métodos, são naturalmente limitadas com relação ao ser concreto, de modo que para elas há necessariamente o inexplicável, e mesmo sua possível evolução é até certo limite. Isso deve ser considerado na questão da necessidade ou não das explicações religiosas. A este respeito, pode-se considerar o que diz o filósofo Dietrich von Hildebrand: “O homem viajante, nessa viagem da vida, é um interrogador. Este papel importante do interrogar, como um componente da vida humana e das possibilidades elevadas da inteligência humana, revela-se sobretudo nas perguntas fundamentais sobre o sentido do mundo, o sentido da vida, o destino do homem e especialmente nas perguntas sobre a raiz última do ser, as perguntas incondicionais que vivem no coração de toda pessoa humana. As perguntas fundamentais do homem são, portanto, religiosas e filosóficas” (em O que é filosofia?).
