
Alguns excelentes filósofos ensinam que, na consideração das coisas, deve-se evitar os abstratismos — que separam o que é inseparável na realidade concreta — e as visões unilaterais, que veem apenas um aspecto, ignorando os demais, dos quais resultam ficções com presença meramente mental, sem fundamento no mundo real fora da mente.
No caso da moralidade católica, ela é inseparavelmente ética do fim último, dos valores absolutos, dos deveres, das virtudes e dos bens objetivos. Todas essas noções lhe convêm, de modo que vê-la apenas como ética das virtudes ou dos deveres, com exclusão dos demais, é falsificá-la. Isso pode ser sintetizado do seguinte modo: é do coração da ética católica que o homem deve fazer o bem e evitar o mal, pelo bem em si e para o seu próprio bem, sendo Deus o fundamento absoluto e o fim último de toda a ordem moral. Assim, por exemplo, o homem deve fazer a justiça e evitar a injustiça, pela justiça mesma e para o seu próprio bem. Aqui há o valor da justiça, como algo importante por si mesmo; há o dever de justiça, como algo exigido pela realidade; há a virtude da justiça, enquanto o homem a exerce habitualmente; há o bem da justiça, enquanto faz o homem ser justo e experimentar seus benefícios; e há o vínculo com o fim último, enquanto conduz a Deus, o Sumo Bem, com a plenitude de satisfação duradoura desejada pelo coração humano, a paz e o deleite do eterno repouso. E Cristo diz: “Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (Mateus 5, 6).
A esse respeito, o filósofo católico Dietrich von Hildebrand diz: “Finalmente, o caráter radicalmente novo da moralidade cristã é revelado no fato de que todas as virtudes e atitudes morais, seja qual for o seu objeto, originam-se em uma resposta a Deus; a espinha dorsal de todas as atitudes morais é o amor a Deus, através de Cristo, com Cristo e em Cristo. (…) É fácil perceber a sublimidade de uma moralidade em que a resposta básica última não é dirigida apenas a valores moralmente relevantes, mas à Pessoa Absoluta que é a Bondade Infinita em Si – uma moralidade em que o amor a Deus e o amor de Deus em nós permeiam e formam cada ato da vontade e são a primeira e a última palavra no homem”.
