Sobre a Onipotência divina em seu sentido correto

Certamente, um dos atributos de Deus é ser onipotente, e não sem razão o glorioso anjo Gabriel diz que “para Deus nada é impossível” (Lc 1,37) e o próprio divino Jesus diz: “Para os homens isso é impossível, mas para Deus tudo é possível” (Mt 19,26). Porém, a onipotência divina deve ser corretamente entendida, sem confusões. Como ensina Santo Tomás de Aquino, ela se estende a todos os possíveis absolutos, isto é, a tudo aquilo que não nega a si mesmo, que não se contradiz, e assim estão excluídos os impossíveis absolutos, que são absurdos sem sentido. Exemplo disso é um quadrado redondo ou uma madeira de ferro, que se excluem em suas características essenciais, naquilo que faz com que sejam o que são e não outra coisa.

Pelo princípio de não contradição, nada que negue a si mesmo pode existir, porque não é sequer possível; equivale ao nada absoluto, que é pura impossibilidade, total imperfeição. Deus, como totalmente perfeito de modo imutável, não nega a si mesmo; Ele é o próprio Ser subsistente, que exclui necessariamente o não-ser, o nada. E tudo o que é ou existe de algum modo só o é por certa participação no Ser divino e em sua bondade, dependendo absolutamente d’Ele.

Os paradoxos da onipotência, usados como supostos argumentos contra a existência de Deus, são falsos problemas, pois se baseiam em uma ideia errada da onipotência, em premissas falsas, em confusões. Seja qual for a sua versão, eles se desfazem quando esse atributo é considerado como deve ser entendido razoavelmente e quando se considera a natureza das coisas, em suas possibilidades, impossibilidades e necessidades absolutas. Por exemplo, perguntar se Deus pode criar uma pedra que não possa carregar equivale a perguntar se Deus pode criar outro deus, o que é sem sentido, porque um “deus criado” não seria Deus de modo algum, dado que seria dependente de outro e inferior a Ele. Do mesmo modo, é contra a natureza de uma pedra ser incarregável por Deus, o que equivaleria a admitir uma criatura mais potente do que o seu Criador, como se o efeito fosse superior à causa naquilo mesmo em que foi causado. Além disso, Deus possui poder infinito e não pode deixar de possuí-lo, e uma pedra que não pudesse ser carregada teria de ter peso infinito, o que é impossível, pois o infinito na quantidade é sempre potencial, jamais atual, uma vez que significa a possibilidade de sempre se acrescentar mais.

No livro do Apocalipse é dito: “Eu sou o Alfa e o Ômega, diz o Senhor Deus, Aquele que é, que era e que vem, o Todo-Poderoso” (Ap 1,8).

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