
Exigir provas inegáveis ou razões necessárias para a fé é algo sem sentido, pois no caso já não seria mais crer e sim saber evidente, inclusive sem mérito. A razoabilidade do ato de crer não está nas evidências que para ele se apresentam, mas nos motivos de credibilidade, sendo o primeiro deles a não contradição (seja pela coerência interna, seja pela conformidade com verdades conhecidas).
O objeto da fé religiosa, da religião revelada, excede a capacidade cognitiva da razão humana e não possui com relação a ela evidência imediata, como é o caso da Trindade de Pessoas divinas em Deus e da encarnação do Verbo divino. A certeza da fé, diferentemente da certeza filosófica fundamentada na evidência intelectual, tem como motivo próprio a autoridade do Deus revelador e é acompanhada de credibilidade racional. Assim, o conteúdo revelado pode ser dito suprarracional, enquanto a credibilidade pode ser dita racional (com os preâmbulos filosóficos da inteligência natural do ser, os “argumentos exteriores” na ordem dos fatos – milagres, profecias cumpridas, vida extraordinária dos santos –, a coerência interna da doutrina, a harmonia com o que é verdadeiro na filosofia e nas ciências, a moralidade elevada, a adequação com a natureza humana, os frutos socioculturais positivos, etc.).
Dito de outro modo, o conteúdo revelado, ao qual corresponde o “crer que”, não é evidente para a razão natural, mas é racionalmente crível, ou seja, a fé verdadeira não é irracional, porque sua credibilidade pertence à ordem da razão. No livro da Sabedoria é dito: “São insensatos por natureza todos os homens que ignoraram Deus e, pelos bens visíveis, não foram capazes de conhecer aquele que é, nem, considerando as obras, reconhecer o Artífice” (13,1–5). E na Primeira Epístola de Pedro é dito: “Estai sempre prontos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la pedir” (1Pe 3,15).
