
Um ateu presunçoso disse: “Só o fato de ser preciso argumentos para provar que Deus existe é prova de que Deus não existe, porque se existisse seria autoevidente”.
Nesse discurso, certamente falso, há confusões, concepções errôneas, suposições falsas e coisas ignoradas. Quando há confusões, deve-se apresentar as devidas distinções. Quando há concepções errôneas, deve-se considerar os conceitos adequados ou concepções corretas. Quando há suposições falsas, deve-se considerar as suposições opostas verdadeiras. Quando há coisas ignoradas, deve-se levá-las em conta na questão (ou ponto) para a qual são relevantes.
Nos temas presentes em tal afirmação, não há, por exemplo, a devida consideração das distinções entre os modos de ser, os modos de existência, os tipos de conhecimento e os tipos de evidência. Quanto aos modos de ser, há, por exemplo, o ser finito e o ser infinito; quanto aos modos de existência, há, por exemplo, o modo de existir de uma árvore e o modo de existir de uma ideologia ou ciência. Quanto ao tipo de conhecimento, há, por exemplo, o empírico e o a priori. Quanto ao tipo de evidência, há, por exemplo, a evidência sensível e a evidência intelectual. A respeito do tema da existência, o filósofo Dietrich von Hildebrand diz: “Primeiramente, temos que advertir que toda questão sobre a existência de um ser implica da nossa parte uma compreensão do gênero de existência que ‘exige’ a essência em questão”.
No caso, o modo como se fala de Deus revela ao mesmo tempo uma concepção errônea de Deus e uma ignorância do conceito adequado de Deus enquanto objeto de demonstração de existência; dito de outro modo, desconsidera o que se entende por Deus, em sentido racional elevadíssimo, de alta cultura intelectual, a exemplo da filosofia escolástica medieval. Isso é importante na questão do modo de existência, dos tipos de conhecimento e dos tipos de evidência. Por exemplo, de Deus não é possível haver evidência sensível, enquanto entendido como puro Espírito, imaterial, onipotente e infinito.
Em síntese: o argumento não procede, é falso, pois supõe que naturalmente o homem poderia ter uma visão evidente de Deus, seja sensível ou intelectual, o que é absolutamente impossível no primeiro caso e relativamente impossível no segundo. Ver a Deus com evidência é ver sua Essência, todo o seu Ser infinito de modo imediato, em sua mesma presença. Para um ser finito, isto é naturalmente impossível. Assim, a devida consideração do argumento em questão inclui levar em conta a natureza das coisas, em suas necessidades, impossibilidades e possibilidades – a natureza da percepção sensível, das coisas sensíveis, a natureza humana, a natureza divina, e assim por diante.
