
“(…) Diferente de todos os ensinamentos de Nosso Senhor, diferente da revelação de sua missão, o tema das palavras na cruz não é nem a revelação de uma verdade divina nem uma autorrevelação. Nem são essas palavras um desvelar explícito do Coração de Jesus, como as palavras Desiderio desideravi manducare hoc pascha vobiscum [Tenho desejado ardentemente comer convosco esta Páscoa] (Lc 22,15). Aqui o tema é a Paixão redentora, de modo que muitas das palavras de Cristo são dirigidas ao seu Pai celeste. Temos a oportunidade de testemunhar esse evento misterioso tão sublime, essa ação divina tão íntima na qual a Paixão redentora é o único tema. Mas é justamente aqui que o mistério do sofrimento, do esvaziamento e da obediência até a morte revelam, de certo modo, mais do seu Sagrado Coração do que qualquer palavra com que Cristo tivesse se dirigido explicitamente à humanidade. É no momento em que a ação redentora é o único tema que, num certo sentido, nos é dado o desvelar mais íntimo do Sagrado Coração.
Na veneração do Sagrado Coração de Jesus, a Paixão de Nosso Senhor tem um papel central. De fato, existe uma relação essencial e profunda entre o coração e a capacidade de sofrer, e toda a Paixão é um desvelar dos segredos do Sagrado Coração.
“Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Nesse momento supremo, Cristo fala como o Filho do Homem, em contraste com todas as situações em que, falando como Filho de Deus, Ele mesmo perdoa os pecadores.
Todavia, ao pedir que Deus perdoe os seus inimigos, Cristo implicitamente perdoa a injúria que lhe fizeram. Esse é um perdão humano, o mesmo perdão que Cristo ordena que tenhamos. Mas, acima de tudo, deparamo-nos com sua máxima e misericordiosa caridade; Cristo não apenas pede a Deus que perdoe os seus assassinos como chega a escusá-los por causa de sua ignorância. O Filho do Homem como que coloca os braços protetores diante de seus assassinos.
É-nos dado testemunhar, no Sagrado Coração, a glória da caridade misericordiosa e do perdão sublime. Cor Jesu, fons totius consolationis, miserere nobis [Coração de Jesus, fonte de toda consolação, tende piedade de nós].
“Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43). Nessas palavras, Jesus fala primeiramente como Deus, como Aquele que pode perdoar o pecado e prometer o paraíso ao bom ladrão. Mas aqui também pode ser ouvida a voz do seu Sagrado Coração. Há um tom de alegria santa nessas palavras. A resposta arrebatadora que é dada ao único apelo do ladrão convertido não é apenas um perdão, mas a garantia imediata da bem-aventurança. Nesse aspecto, ultrapassa as palavras ditas a Maria Madalena ou à mulher adúltera. Certamente se dirigem a um homem numa cruz, que enfrenta a morte iminente, enquanto Maria Madalena e a mulher adúltera ainda tinham uma vida a viver, ainda podiam se desviar.
Ainda assim, a resposta superabundante de Nosso Senhor ao bom ladrão não é apenas uma manifestação da misericórdia irrestrita de Deus; também revela que o Coração de Jesus alegra-se com o homem que reconhece a divindade do Senhor crucificado no momento mesmo em que os apóstolos acreditam que toda a sua esperança foi soterrada. Cor Jesu, dives in omnes qui invocant te, miserere nobis [Coração de Jesus, rico para todos que vos invocam, tende piedade de nós].” (Dietrich von Hildebrand, em “O Coração – Uma análise da afetivade humana e divina”, pág. 159-160. Cultor de Livros. 2024)
