
No livro do Profeta Jeremias é dito: “No início do reinado de Joaquim, filho de Josias, rei de Judá, foi comunicada da parte do Senhor esta palavra, que dizia: “Assim fala o Senhor: Põe-te de pé no átrio da casa do Senhor e fala a todos os que vêm das cidades de Judá, para adorar o Senhor no templo, todas as palavras que eu te mandei dizer. Não retires uma só palavra; talvez eles as ouçam e voltem do mau caminho, e eu me arrependa da decisão de castigá-los por suas más obras. A eles então dirás: Isto diz o Senhor: Se não vos dispuserdes a viver segundo a lei que vos dei, a escutar as palavras dos meus servos, os profetas, que eu vos tenho enviado com solicitude e para vossa orientação, e que vós não tendes escutado, farei desta casa uma segunda Silo e farei desta uma cidade amaldiçoada por todos os povos da terra”. Os sacerdotes e profetas, e todo o povo presente ouviram Jeremias dizer estas palavras na casa do Senhor. Quando Jeremias acabou de dizer tudo o que o Senhor lhe ordenara que falasse a todo o povo, prenderam-no os sacerdotes, os profetas e o povo, dizendo: “Este homem tem que morrer! Por que dizes, em nome do Senhor, a profecia: ‘Esta casa será como Silo, e esta cidade será devastada e vazia de habitantes?'” Todo o povo juntou-se contra Jeremias na casa do Senhor.” (Jr 26,1-9)
Considerando que (1) certamente a Sagrada Escritura é palavra de Deus em linguagem humana, (2) “não se atribui a uma coisa o que sua natureza não permite” e (3) há o que a natureza divina perfeitíssima exclui, segundo as verdades da Revelação e as verdades acessíveis à razão natural, certamente no trecho em questão há o que “arrependimento” não pode significar, o que implica como deve ser entendido.
Quando Deus diz “talvez eles as ouçam e voltem do mau caminho, e eu me arrependa da decisão de castigá-los por suas más obras”, isso não significa imperfeição na Consciência nem na Vontade divina; é, antes, um modo de falar que combina a eternidade, a temporalidade e distintos aspectos, e enuncia possibilidades, consequências exigidas e atos devidos. Por exemplo: atualmente, aqueles da casa de Judá estão no mau caminho e, por isso, segundo a justiça divina, são merecedores de castigo, de modo que, caso permaneçam nele, assim acontecerá. Porém, quanto ao futuro próximo deles, após a ação do profeta enviado, podem mudar, voltando do mau caminho, e, assim, podem não receber o castigo, segundo a divina Misericórdia, sempre em harmonia com a Justiça. Deus diz desde toda a eternidade, com conhecimento simultâneo, sem antes nem depois, mas sua ação se dirige ao que é temporal, limitado e contingente, com seus limites naturais.
Além disso, no modo de falar da Escritura há analogia, uma fala por semelhança, especialmente pela semelhança do efeito (Santo Tomás), porque, entre outras coisas, da parte de Deus, considerando sua Liberdade e as contingências na ordem da criação, certos efeitos para os homens poderiam ser diferentes, conforme a Justiça e a Misericórdia do Criador. Assim, o “arrepender-se” de Deus também significa, corretamente entendido, o que poderia ser diferente e mudar na ordem dos acontecimentos, e não na Vontade Divina, que é imutável. Está escrito: “És tu a causa de tua perdição, ó Israel; só em mim está o teu auxílio.” (Os 13,9)





