
“Para os cristãos, a vida terrena é um status viae. Não se trata apenas de que tudo o que encontramos de grande e importante sobre a terra contenha um indício de uma eternidade desconhecida, mas de que toda a nossa vida aqui é uma peregrinação, uma preparação para a vida propriamente verdadeira na eternidade. Estamos sobre a terra «exspectantes beatam spem» («aguardando a feliz esperança», Tt 2,13).
A bem-aventurança eterna é incomparavelmente mais importante do que toda a felicidade terrena. A raison d’être (razão de ser) de nossa existência é chegar a ser transformados em Cristo e glorificar a Deus. Nossa vida sobre a terra adquire a máxima importância porque é aqui que deve realizar-se essa transformação. É um status viae que só nos mostra seu verdadeiro rosto quando o reconhecemos como tal em sua subordinação ao status finalis, à união eterna com Deus, à visio beatifica (contemplação beatífica), à bem-aventurança que nunca acaba. Novamente encontramos a coincidentia oppositorum, isto é, os dois aspectos contraditórios à primeira vista, mas que, na verdade, se complementam profundamente. Por um lado, a vida sobre a terra tem uma importância decisiva, pois é aqui que deve ser alcançada a transformação que constitui o sentido de nossa existência; por outro lado, esta vida não teria sentido se não houvesse uma eternidade, se ao status viae não se seguisse o status finalis. O peso maior recai sobre o status finalis, mas não para retirar do status viae sua importância decisiva. Antes, pelo contrário, a eternidade aumenta ainda mais sua importância; confere-lhe pleno sentido.
«In lumine tuo videbimus lumen». («Em tua luz veremos a luz.» Sl 35,10.) A lumen Christi ilumina tudo; nela se descobre também o verdadeiro sentido, a verdadeira beleza de todos os bens naturais. (…) E o mesmo acontece com o caráter terrível do pecado, da ofensa a Deus, com o mal abissal da injustiça, da impureza, do orgulho, da indiferença e do ódio a Deus. Na lumen Christi descobre-se o verdadeiro futuro, a grande e terrível alternativa entre o céu e o inferno.
(…)
A morte adquire um novo rosto, um duplo aspecto novo. Por um lado, é a hora do Juízo, de colocar-se diante de Deus, o Juiz; por outro, é o encontro com Jesus face a face. No Dies irae, dizemos, por um lado, estas palavras:
«Que haverei de dizer então, miserável de mim?\
A que advogado haverei de recorrer,\
Quando nem mesmo o justo estará seguro?»
E o santo temor invade nosso coração. Por outro lado, pedimos com o coração cheio de esperança:
«Rei de tremenda majestade,\
Que salvas gratuitamente aqueles que devem ser salvos,\
Salva-me, fonte de piedade!»
Essas duas atitudes tão opostas, de temor e de esperança, estão mutuamente entrelaçadas. (…)”
Fonte: DIETRICH VON HILDEBRAND. Sobre la muerte: escrito póstumo. Madrid: Ediciones Encuentro, 1983.





