
No Salmo 28 é dito: “Eis a voz do Senhor sobre as águas, sua voz sobre as águas imensas! Eis a voz do Senhor com poder! Eis a voz do Senhor majestosa”.
Inegavelmente há o ser e não o nada, há o possível e o atual. O possível é sempre dependente, pois depende de algum poder em ato para ser realizado, de modo que é o que é por outro ser. Quando se diz que Deus é onipotente, isto quer dizer, dentre outras coisas, que tudo só é possível pelo poder de Deus, que pode realizar todos os possíveis absolutos, o que exclui os impossíveis absolutos por contradição intrínseca, sempre puro nada.
Tudo depende do Ser de Deus e nada pode contradizer o Ser de Deus. Os primeiros princípios, entre eles o princípio de contradição, uma lei absoluta de toda a realidade, são como que fundados no Ser de Deus e, de certo modo, expressão dele.
Dentro do simbolismo natural, a água pode ser tomada como símbolo das possibilidades, pelos inúmeros modos que pode adquirir, como mostra a experiência. Se é assim, naquilo que possui de simbólico e como um de seus significados objetivos, quando em Gênesis é dito que no princípio da criação “o Espírito de Deus movia-se sobre as águas” (Gn 1,2) e no Salmo é dito sobre a voz poderosa do Senhor sobre as águas imensas, isso pode ser entendido como as possibilidades da criação e o poder onipotente de Deus, o qual, com sua voz cheia de significado, pelo Logos, diz a forma, o logos, a essência, a razão das coisas.
A presença da água em milagres e no batismo de Cristo também significa as possibilidades sobrenaturais das coisas, fundadas em suas naturezas. Assim, por exemplo, porque é corpo, o solo pode ser movido fora de sua ordem comum, mas não pode, como o homem, tornar-se filho adotivo de Deus ou receber vida divina pela eternidade, porque não tem alma espiritual, de modo que um solo que a tivesse deixaria de ser o que é por natureza. Nesse sentido, é dito, como princípio de compreensão das realidades da fé, que Deus não abole a natureza, mas a aperfeiçoa.









