“Estive morto e agora vivo: Sou o Vivente pelos séculos, tenho as chaves dos abismos e a vitória sobre a morte””

Um ser não pode ser mais do que é, se não recebe isso de outro, necessariamente, porque não pode receber de si mesmo, e neste caso já seria, e não pode receber do nada, que em tudo nada pode. Este necessário, sem o qual ele não pode ser mais do que já é em sua totalidade, necessariamente tem que ser mais do que ele, do contrário nada poder ser dado nem recebido. O excedente de ser só pode vir de outro que é mais. Somente o ser pode dar o ser.

Na possibilidade de receber o ser de outro, aquilo que foi recebido não é dele, não lhe pertence, pois se pertencesse não necessitaria receber. Neste caso, ao receber já seria outro que era. Assim, enquanto é aquilo que é, enquanto permanece naquilo que é, um ser não pode ser mais do que ele mesmo, o que é diferente de dizer que um ser não é atualmente tudo quanto pode ser naturalmente. Por exemplo, o homem, enquanto misto de atualidade e possibilidade, pode progredir nas possibilidades de sua essência, pode possuir em grau maior, dentro de um máximo e de um mínimo, perfeições próprias de seu ser, como a inteligência. Por outro lado, no verdadeiro cristianismo, corretamente compreendido, acontece, para quem alcançou a salvação, certa divinização do homem, ao receber a vida divina e assim possui-la sobrenaturalmente, o que inclui certo grau de conhecimento divino.

A este respeito, por exemplo, Santo Tomás diz na “Suma contra os gentios” que “aqueles que veem a Deus, em Deus veem todas as coisas”, e que “pela visão de Deus participa-se da vida eterna”. Diz ele: “Com efeito, a eternidade é diferente do tempo, porque o tempo tem o ser em certa sucessão, e a eternidade tem o ser todo simultâneo. Já foi dito acima, que na mencionada visão não há sucessão alguma, mas tudo, que por meio dela é visto, o é simultaneamente num só olhar. Por conseguinte, essa visão se perfaz por uma certa participação da eternidade. Ora, essa visão é um certo modo de vida, porque a operação do intelecto é um certo modo de vida. Logo, por meio dessa visão o intelecto participa da vida eterna”.

“Estive morto e agora vivo:
Sou o Vivente pelos séculos;
tenho as chaves dos abismos
e a vitória sobre a morte”.

“A Eucaristia é a vida das almas e das sociedades, como o sol é a vida dos corpos e da terra”

No sacrifício eucarístico há uma dupla doação, uma dupla entrega, um duplo dom. Há a doação do Monte Calvário e a doação da Santa Ceia. Por isso, a Santa Missa, sagrada pelo que significa, é o sacrifício do Calvário, a atualização incruenta desse sacrifício, que assim se torna presente novamente, aqui e agora, sob os véus da aparência do pão e do vinho consagrados. Ela é também a Santa Ceia na qual Cristo se entrega como Pão cotidiano, como presença visível e invisível ao longo dos tempos. Nisso Cristo se entrega ao Pai para satisfazer sua puríssima Justiça, em benefício dos homens privados da felicidade para a qual foram feitos, e se doa aos homens no Pão e Vinho consagrados, como alimento para seu ser miserável, faminto de verdadeira felicidade neste vale de lágrimas. A doação que Cristo faz de si mesmo é a doação de seu ser. Isto significa que algo importante do ser de Cristo é comunicável por Ele e receptível pela criatura humana. Em essência, Cristo é Deus-homem, união substancial de Divindade e humanidade, em razão da Vontade amorosa de Deus. Nessa comunicação, que de certo modo significa multiplicação, há o um e o múltiplo, que por sua vez significa participação e comunhão.

Na participação há o ser participado e o ser participante, há a semelhança e a diferença, e em tudo isso há a relação. Se religião é ligação, então a verdadeira religião é Cristo, com sua presença Eucarística e seu Corpo Místico.

Porque a Sagrada Eucaristia significa o Calvário, a entrega na Cruz, o crescimento na participação eucarística traz consigo maior participação na Paixão. Porque Ela é o banquete da Santa Ceia, o crescimento na participação eucarística traz consigo maior participação nas delícias do divino alimento.

São João é o mais mariano e o mais eucarístico dos Apóstolos, e nisso é o mais íntimo amigo de Cristo, conhecedor como nenhum outro dos segredos de seu Sagrado Coração, no qual estão todos os tesouros da Sabedoria. Ele é o apóstolo dos últimos tempos, enquanto tempos que precedem o Reino Eucarístico e do Imaculado Coração de Maria..

“Pois sim, a Eucaristia é a vida das almas e das sociedades, como o sol é a vida dos corpos e da terra”.

Todas as bondades na verdadeira religião dizem Deus é Misericordioso e Bondade infinita

No salmo 56, Davi diz: “3. Clamo ao Deus Altíssimo, ao Deus que me cumula de benefícios. 4.Mande ele do céu auxílio que me salve, cubra de confusão meus perseguidores; envie-me Deus a sua graça e fidelidade. 5.Estou no meio de leões, que devoram os homens com avidez. Seus dentes são como lanças e flechas, suas línguas como espadas afiadas. (…) porque aos céus se eleva a vossa misericórdia, e até as nuvens a vossa fidelidade. 12.Elevai-vos, ó Deus, nas alturas do céu, e brilhe a vossa glória sobre a terra inteira”.

A fidelidade de Deus é absoluta, Ele sempre cumpre sua palavra. Suas palavras são cheias de Sabedoria, ditas em sua infinita Bondade e contam sempre com seu poder Onipotente. Deus é grandioso demais, a própria grandeza, incomensurável. Nenhuma expressão é exagerada para expressar o quanto Deus é Glorioso; na realidade todas as palavras são insuficientes, porque sempre limitadas. Sobre Aquele que é ilimitado, o que é limitado só pode expressar limitadamente. O Infinito sempre transcende o finito, porque este, por essência, não pode abarcá-lo. Assim, com relação às criaturas, Deus é sempre mais, está sempre além. Somente Deus mesmo, em sua Onipotência, pode elevar o homem até Si. É o infinito onipotente que amplia o finito impotente. Nisto a Misericórdia de Deus é evidente, sua Bondade é inegável.

Todo o Ser Deus é estimável, adorável. Porém, sem negar a Unidade, a Simplicidade e como que a Harmonia do Ser Divino, o homem deve estimar especialmente o Amor Misericordioso, a Misericórdia Divina, porque ela é sua vida, sua existência, sua salvação. A verdadeira religião é uma religião que não exclui a Justiça Divina, e sem negar a Justiça a Misericórdia é especialmente estimada. Cristo é o Deus Misericordioso, a Sagrada Eucaristia é o Deus Misericordioso. Todas as bondades na verdadeira religião dizem Deus é Misericordioso, Bondade infinita: a Criação, a Encarnação Redentora, o Céu eterno, a Santíssima Virgem Maria, a Igreja, os 7 sacramentos, a Sagrada Escritura, os milagres, o purgatório, as indulgências, os sofrimentos, os Santos, e assim por diante.

Cristo disse à Santa Faustina: “Antes de vir como justo Juiz, abro de par em par as portas da Minha misericórdia. Quem não quiser passar pela porta da misericórdia, terá que passar pela porta da Minha justiça… (Diário. 1146)”. E: “As almas que recorrem à Minha misericórdia e aquelas que glorificarem e anunciarem aos outros a Minha grande misericórdia, na hora da morte Eu as tratarei de acordo com a minha infinita misericórdia” (1520).

O “único necessário”: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória… cheio de graça e de verdade”

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade”. (Jo 1,14)

Se, como ensina Santo Tomás de Aquino, Deus comunica à semelhança de seu Ser nas criaturas da Criação, então pode-se dizer que em tudo há sabedoria, há logos, porque o Logos é Divino. Deus é a Razão Eterna das razões eternas, que tudo avalia a partir de si mesmo, pois Ele é o próprio Ser.

Assim, no cosmos, na realidade, não há nada absolutamente sem sentido, sem sabedoria, e o que há de sem-sentido ou de absurdo, só há de certo modo, relativamente, como perversão ou negação correspondente à liberdade do homem em estado de queda e à ação diabólica, ambas permitidas por Deus em sua Bondade perfeitamente sábia. Neste caso, mesmo o “absurdo”, o “sem-sentido”, o “caótico” possuem um sentido compreensível, e por isto podem ser compreendidos em seu relativo modo de ser.

O Verbo Onipotente, Filho Eterno do Pai Eterno, com Ele coeterno na única Divindade, pelas razões de sua pura Sabedoria, que contém toda a sabedoria possível, e de sua pura Bondade, assume a natureza humana ao se encarnar no seio puríssimo do Virgem Maria, eleita desde toda a eternidade, na simultaneidade absoluta do ser divino, para receber a bondade da Maternidade Divina, destina a ser como que a Arca Sagrada que abriga a Palavra Divina vivente.

Enquanto Pessoa Divina, o Verbo é a Verdade vivente e vivificante, e, ao ser encarnar, é a Verdade Encarnada, vivente e vivificante, Jesus Cristo, o Deus-homem, que conquista a vida divina para o homem e a distribui àqueles que a desejam sinceramente, e que ao possuí-la definitivamente viverão eternamente como filhos de Deus, participantes, pela Eterna Misericórdia, de sua vida íntima, de superabundante e inesgotável felicidade, Verdade luminosa contemplada, Sabedoria belíssima vista face a face, o “único necessário”.

A verdade

Ainda que nem todos amem a verdade, só esta pode ser a base de uma felicidade duradoura.

A verdade é uma

Bem sabemos, contudo, que na vida concreta às vezes agimos como se num mesmo problema o “não” e o “sim” podem ser ambos verdadeiros. Não é difícil, por exemplo, experimentar em nós mesmos, que às vezes agimos com a convicção de que a Divina Providência nos assiste, e que em outras ocasiões nos preocupamos de maneira exagerada, como se esta Divina Providência não existisse. Portanto, a Divina Providência ou existe ou não existe. Igualmente é verdade, por exemplo, que neste momento eu estou escrevendo estas palavras e que você, calor leitor, as está lendo. Diante disso, não pode ser verdadeira a frase contrária, ou seja, que eu não tenha escrito estas coisas, ou que você não as esteja lendo. De fato, sobre este mesmo assunto não pode ser verdade o “sim” e também o “não”. A verdade está no “sim” ou no “não”. A verdade, de fato, é uma.

A verdade é também poderosa. Se alguém quiser desmentir e afirmar que nem eu escrevi e nem você tenha lido, a verdade não mudaria, e quem o negasse erraria, enganar-se-ia. E mesmo que os negadores fossem numerosos, a força da verdade não sofreria em absoluto. Antes, mesmo que todos os homens da terra afirmassem, publicassem, filmassem e jurassem por toda a sua vida que eu não escrevi estas linhas e que você não as leu, tudo isso não seria suficiente para tirar nem mesmo um pouco do granito de verdade, ou seja, que eu escrevi, que você leu. E nem Deus cancela nem pode cancelar a verdade com um milagre, já que Ele mesmo é a Verdade por essência.

Como é grande o poder da verdade! Um poder verdadeiramente infinito, divino.

Também na religião. A questão não muda quando se refere às verdades religiosas. Na terra vemos numerosas confissões religiosas e existe a ideia, muito difundida, de que toda religião é boa. Porém não se pode estar de acordo com esta ideia.É verdade que muitos daqueles que não reconhecem nenhuma religião, ou professam uma outra, podem estar isentos de qualquer culpa diante de Deus, pelo fato de estarem plenamente convencidos de andarem no caminho certo; contudo também nas questões religiosas a verdade pode ser somente uma, e aqueles que têm convicções diferentes da realidade das coisas, erram. Só aquele que julga segundo a verdade tem uma verdadeira fé.

E assim, se é verdade que Deus existe, estão no erro os incrédulos, que afirmam que ele não existe. Por outro lado, se Ele não existisse estariam no erro todos aqueles que professam qualquer religião. Além disso, se é verdade que Jesus Cristo ressuscitou, é verdade aquilo que ensinou e que Ele é Deus encarnado; mas se Ele não tivesse ressuscitado, todas as confissões cristãs não teriam razão de existir.

Enfim, se Jesus se dirigiu a Pedro com as palavras: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16, 18), e desta forma deu o sinal para que cada um tenha a oportunidade de reconhecer sua Igreja entre as centenas de igrejas cristãs diferentes entre si, então só aqueles que se encontram na Igreja universal, católica, caminham pelo caminho verdadeiro, e tendem fielmente a Deus segundo o ensinamento da Igreja, têm a garantia de alcançar a felicidade eterna e até a paz e a alegria sobre esta terra.

O mesmo vale também para outros pontos das verdades religiosas, por exemplo: se é verdade que em Lourdes a Imaculada apareceu realmente a Bernadete, é certo que ela vive e ama os homens como uma verdadeira Mãe. Mas se esta aparição não tivesse acontecido, nós não teríamos a possibilidade de saber o que tal fonte nos disse da Imaculada; contudo, poderíamos basear-nos em outras fontes.

O reconhecimento da verdade. Ninguém pode mudar nenhuma verdade, pode-se somente buscar a verdade, encontra-la, reconhecê-la, conformar a ela a própria vida, caminhar na estrada da verdade em toda questão, sobretudo naquelas que se referem ao objetivo último da vida, o relacionamento com Deus, ou seja, nos problemas relativos à religião.

A felicidade duradoura. Não existe homem no mundo que não vá em busca da felicidade; antes, em todas as nossas ações a felicidade se apresenta a nós, de uma forma ou de outra, como o objetivo ao qual tendemos por natureza. Entretanto, uma felicidade que não estiver edificada sobre a verdade não pode ser duradoura, como não o é a própria mentira. Unicamente a verdade pode ser e é o fundamento inquebrantável da felicidade, tanto para o indivíduo como para a humanidade inteira.

(São Maximiliano Kolbe, dezembro de 1940 – janeiro de 1941)

** Do livro “Escritos de São Maximiliano Kolbe”, Editora PAULUS, pág. 1878-1880.

“Tudo o que existe o criou a Bondade divina para fazê-lo participar do ser divino”

“Deus é o lugar de onde nasce todo ente: as criaturas naturais, assim como os dons de graça e glória que se difundem nas criaturas. Tudo o que existe o criou a Bondade divina para fazê-lo participar do ser divino”. (Santa Edith Stein, em comentário sobre a angeologia de “Dionísio-Areopagita”).

A grandeza da criatura, pela dependência absoluta, diz de certo modo a grandeza do Criador, que necessariamente é superior a ela, por exemplo como Aquele que a fez, porque o que faz é superior ao que é feito. Como Ele a criou do nada, portanto a partir de si mesmo, como Ser Puríssimo onipotente, necessariamente toda inteligência que há na criação pertence ao Criador, assim como todo poder, perfeição e bondade. A criatura nada possui que seja seu e não pertença antes a Criador. Assim, pode-se dizer com razão que tudo o que existe em seu verdadeiro ser o criou a Bondade Divina, como participante do ser divino sem que seja com isso essencialmente divino, porque só pode haver um verdadeiro Deus.

Neste sentido, Cristo Misericordioso disse a Santa Faustina: “Tudo que existe, está encerrado nas entranhas da Minha misericórdia, e de forma mais profunda que a criança no ventre da mãe. Quanta dor Me causa a falta de confiança em Minha bondade. Os pecados que Me ferem mais dolorosamente são os de desconfiança”(1076).

São José, depois de Maria, foi mais próximo que qualquer outra pessoa do autor da graça

“Quando Deus escolhe, pela graça, alguém para uma missão tão elevada, concede-lhe todos os dons para esta missão. É o que se verificou eminentemente em São José, pai nutrício de Nosso Senhor Jesus Cristo, e esposo de Maria (…)”. (São Bernardino de Sena)

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“Este ponto é admiravelmente exposto por Bossuet em seu primeiro panegírico deste grande santo (3º ponto), quando nos diz: ‘Entre todas as vocações, aponto duas, nas Escrituras, que parecem diretamente opostas: a primeira, dos apóstolos, a segunda, de José. Jesus se revela aos apóstolos, para que o anunciem a todos os povos; e se revela a José para que silenciasse e o ocultasse. Os apóstolos são luzes, para fazer Jesus Cristo ser visto pelo mundo; José é um véu para cobrir, e sob este véu misterioso oculta-nos a virgindade de Maria e a grandeza do Salvador das almas (…). Aquele que glorifica os apóstolos pela honra da pregação, glorifica José pela humildade do silêncio’. A hora da manifestação do mistério da Encarnação não tinha ainda chegado; esta hora devia ser preparada por trinta anos de vida oculta.

A perfeição consiste em fazer o que Deus quer, cada qual segundo a sua vocação; mas, no silêncio e na obscuridade, a vocação de José ultrapassa a dos apóstolos, porque toca mais de perto a ministério da Encarnação redentora. José, depois de Maria, foi mais próximo que qualquer outra pessoa do autor da graça, e, no silêncio de Belém, durante a permanência no Egito e na pequena cada de Nazaré, ele recebeu mais graças que jamais receberá qualquer outro santo. Sua missão foi dupla”. (Garrigou-Lagrange, no livro “A Mãe do Salvador e nossa vida interior”)

Valei-nos, São José!

Com Cristo novas bondades e perfeições são comunicadas aos homens abertos a recebê-las pela obediência da fé e confiança filial

“(…) A cada ente é comunicado por parte de Deus o que cada ente é, seu modo de ser, sua essência e sua existência. Conforme sua essência e existência dá-se também a medida e o modo do seu conhecer e querer, a verdade e a perfeição que estão ao seu alcance”. (Edith Stein – Santa Teresa Benedita da Cruz)

Como imutavelmente o Primeiro e Supremo Ser é Deus, causa total de tudo o que há, na ordem divina do ser, na qual existimos, o ser da criatura é um ser recebido e participante, em razão da Bondade Onipotente. Desde si, de sua Onipotência que pode tudo na totalidade do possível, que exclui o sem-sentido dos absurdos, como “o círculo quadrado”, Ele comunica a essência e a existência de cada coisa, a perfeição e a bondade de cada coisa. Com Cristo, o Verbo Encarnado, o Filho Eterno que assumiu a natureza humana, novas bondades e perfeições são comunicadas aos homens abertos a recebê-las pela obediência da fé e confiança filial, destinadas a permanecerem por toda a eternidade, como um posse imutável, uma herança imperecível, um novo modo de existência, sobrenaturalmente divino.

Não de modo absoluto, porém em grau elevado, além do natural para a humanidade, perfeições divinas passam a estar ao alcance dos homens, como fruto duradouro da vida exemplar de Cristo, o Cordeiro de Deus, o Divino Salvador. Assim, o mesmo Jesus Cristo diz: “Sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito” e “Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu; depois vem e segue-me”.

Na criação o Criador concede ao homem, como parte de sua natureza humana, a perfeição da inteligência, potência espiritual capaz, por exemplo, de vislumbras verdades eternas. Na Encarnação Redentora, o mesmo Criador concede ao homem participar sobrenaturalmente do conhecimento divino. Assim, na Transfiguração: “Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e conduziu-os à parte a uma alta montanha.Lá se transfigurou na presença deles: seu rosto brilhou como o sol, suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que apareceram Moisés e Elias conversando com ele”.

“Louvai o Senhor, porque ele é bom; porque eterna é a sua misericórdia”. (Salmo 117)

O caminho na verdade de Deus é o caminho do Imutável nas verdades imutáveis, Daquele que é o mesmo ontem, hoje e sempre

No salmo 85 é dito: “Ensinai-me vosso caminho, Senhor, para que eu ande na vossa verdade (11)”. Porque Deus é a Verdade Eterna que tudo criou, seus caminhos só podem ser o caminho da verdade, jamais contra a verdade, pois em Deus não há contradição, que é um dos nomes da falsidade, repugnada pelo Ser Divino. Necessariamente, a verdade não pode contradizer a verdade e sempre exclui a falsidade. Os contraditórios, como a verdade e a falsidade, se excluem, são como que inimigos mortais. Assim, não pertence a Deus ensinar um caminho como verdadeiro e depois ensinar o seu oposto como verdadeiro, negando nisto o anterior. Neste sentido, se Cristo, como Ele ensina sobre si mesmo, é o verdadeiro caminho para a salvação eterna, pela razão que domina o ser, tudo que aquilo que se opõe a Cristo só pode ser sempre falso.

O caminho na verdade de Deus é o caminho do Imutável nas verdades imutáveis, Daquele que é o mesmo ontem, hoje e sempre, na superioridade da eternidade, sempre superior a tudo o que é passageiro.  

Assim, como na realidade, em que domina a Sabedoria Divina, a verdade não pode contradizer a verdade e sempre exclui a falsidade, São João Apóstolo diz: “Não vos escrevi como se ignorásseis a verdade, mas porque a conheceis, e porque nenhuma mentira vem da verdade” (1Jo 2,21); e São Paulo Apóstolo diz: “De fato, não há dois (evangelhos): há apenas pessoas que semeiam a confusão entre vós e querem perturbar o Evangelho de Cristo. Mas, ainda que alguém – nós ou um anjo baixado do céu – vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema. Repito aqui o que acabamos de dizer: se alguém pregar doutrina diferente da que recebestes, seja ele excomungado!” (Gl 1,8-11).

O governo divino do mundo: a Providência Divina

“(…) Para que seja manifesto que nenhuma coisa foge da sujeição à providencia divina, e que a ordem da providência divina é absolutamente imutável, e que as coisas provenientes dela acontecem todas necessariamente.

Deve-se primeiramente saber que, sendo Deus a causa de todas as coisas existentes, porque dá o ser a todas elas, é necessário que a ordem da sua providência abranja todas as coisas. Pois, às coisas, às quais Deus dá o ser, necessariamente lhe dá a conservação e lhes confere a perfeição no fim último.

(…)

É necessário, pois, que a providência divina manifeste-se em suma perfeição, porque Deus é absoluta e universalmente perfeito, como acima foi demonstrado. Ao usar a providência, Deus ordena todas as coisas por mínimas que sejam, segundo a consideração da sua eterna sabedoria, e quaisquer coisas que operam são instrumentos movidos por Deus. Submetidas que estão a Deus, servem para desenvolver a ordem ideada pela providência como que desde toda a eternidade.

Se, porém, todas as coisas em tudo que podem fazer servem necessariamente a Deus nas suas ações, é impossível que algum agente impeça a execução da providência divina, fazendo algo que a contrarie. E também não é possível que a providência divina seja impedida por um defeito de algum agente ou paciente dela, porque toda potência, ativa ou passiva, está nas coisas causadas segundo disposição divina. É, ainda, impossível, que a execução da providência divina seja impedida por qualquer mudança no providente, pois Deus é absolutamente imutável, como acima foi demonstrado. Resta, pois, afirmar que a provisão divina não pode ser absolutamente excluída.

(…)

Manifesta-se, outrossim, como inócua a objeção de Túlio, segundo acima se relatou. Ora, estando sujeitos à providência divina não só os efeitos, como também as causas e os modos de ser, como se depreende do que foi dito, não resulta que, se tudo é efetuado pela providência divina, nenhuma coisa venha de nós. Pois elas são providenciadas por Deus para que sejam livremente realizadas por nós”.  (Trechos da “Suma contra os gentios”, de Santo Tomás de Aquino, sobre a providência divina)

“Deixa-te conduzir pela Divina Providência. A Imaculada fará tudo, não te preocupes com nada!” (São Maximiliano Kolbe)