Em essência a verdadeira religião é Católica, conforme toda a verdade, sem as marcas da serpente

O oitavo mandamento proíbe o falso testemunho e ensina não ir pelo caminho da mentira.  Quem aceita que a mentira existe mas nega que a verdade existe não tem razão, está nas trevas do engano, simplesmente porque se não há verdade, não há mentira. Sem a noção de verdade, a noção de mentira não faz sentido, porque a mentira, enquanto afirmação consciente de uma falsidade, supõe que algo é verdadeiro. Se não há verdade, ninguém mente nem jamais mentiu. Porém, por experiência podemos dizer que é inegável que existe mentira. Como degradados filhos de Eva, é comum que os homens mintam uns para os outros. Quando uma pessoa diz que nunca mentiu, a tendência é não acreditar em suas palavras, pois o senso comum nos diz que é quase impossível alguém que nunca mentiu. Assim, se posso dizer com razão que é inegável a existência da mentira, então é inegável a existência da verdade.  

Na mentira uma pessoa prefere “dizer que é o que não é” ou “dizer que não é o que é”. Assim, pertence à essência da mentira a negação da verdade, a inversão e a contradição. Negação, contradição e inversão: eis marcas importantes da mentira e do satanismo. Consequentemente, a mentira é uma negação de Deus, a Verdade Eterna, que tudo conhece totalmente e intimamente, do qual nada pode ser escondido.

A decadência humana começou com a aceitação de uma mentira dita pela serpente, “o pai da mentira”, conforme diz Cristo, a Verdade Encarnada. A serpente como “pai da mentira” é pai de negações e de perversões do que é verdade, consequentemente do que é bondade. Como nas tentações de Cristo, diz meias-verdades misturadas com falsidades importantes. Não é possível haver uma mentira absoluta, sem nada da realidade, sem nada do ser, porque isto significaria abolição da verdade, o que é impossível.

Os inimigos da descendência da serpente são os descendentes da mulher, um dos modos de dizer a batalha secular da do Espírito da verdade contra o espírito da falsidade. Em um de seus significados, esta mulher dita no Gênesis é a Nova Eva, a Imaculada, a Mãe da Verdade Encarnada, da verdadeira religião. A Encarnação redentora, fruto da bondade onipotente de Deus, começa com a anunciação do Arcanjo São Gabriel. O Arcanjo Gabriel é o anjo da verdade, aquele que diz toda a verdade em nome de Deus e Maria, a Virgem Santíssima, é aquela que acolhe integralmente a verdade recebida. Em ambos há o interesse pela verdade, o interesse em conhecê-la e o interesse de que seja conhecida. A relação do anjo e Maria gira em torno da encarnação da Verdade Vivente. Assim, toda a verdade no anjo, toda a verdade em Maria, toda a verdade em Cristo e toda a verdade no Espírito Santo. Contra as meias-verdades exige-se toda a verdade. E como Ele mesmo disse, toda a verdade é Cristo, está em Cristo. Neste sentido, em essência a verdadeira religião é Católica, conforme a totalidade, conforme toda a verdade, sem impurezas da falsidade, sem as marcas da serpente. É a religião do Espírito Santo, o Espírito da Verdade, vitorioso Senhor dos Exércitos.

Certa vez, em comentários sobre a vida de São Paulo Apóstolo, o Papa Bento XVI disse: “Num mundo no qual a mentira é poderosa, a verdade paga-se com o sofrimento. Quem quer evitar o sofrimento, mantê-lo distante de si, mantém distante a própria vida e a sua grandeza; não pode ser servo da verdade nem pode servir a fé”.

De todas as heresias e erros, livrai-nos, Espírito Santo!

A verdade não pode contradizer a verdade, não pode negar a si mesma; é uma lei do ser, de toda a realidade, neste sentido uma lei divina. Assim, o Salvador não veio abolir a Lei nem os Profetas, mas dar-lhes pleno cumprimento. Todo “autêntico mensageiro de Cristo”, possuidor de seu Espírito, o Espírito da Verdade, tem que ter no coração o amor pela verdade e na mente a voz da verdade, para que de sua boca saiam palavras frutuosas, conforme o Evangelho Eterno. O Deus-homem disse que nasceu e veio ao mundo para dar testemunho da verdade e que todo aquele que é da verdade ouve sua voz. Suas palavras são palavras da Verdade, sempre verdadeiras, dignas de crédito, com promessa de vida eterna, a Boa Nova do Reino de Deus. Em retribuição pelos seus esforços, por perseverarem na virtude e permanecerem na verdade, os amigos de Cristo serão conduzidos ao descanso eterno e experimentarão para sempre o “prazer santo”.

Na religião também há a batalha dos dois espíritos – o espirito da falsidade e o espirito da verdade. Como profetizado pelo profeta Isaías, Cristo é o Servo que veio trazer aos homens a verdadeira religião. O protestantismo, contra a Sabedoria Eterna, em oposição ao Logos Divino, é fragmentação, é confusão, é contradição, é multiplicidade ilegítima, é em essência o cristianismo como “um reino dividido contra si mesmo”. Nada disso pode vir do Logos Encarnado, que ensina que pelos frutos se conhece a árvore. O mesmo vale para o “ecumenismo” em sentido negativo ou para uma “fraternidade universal de religiões”. 

É dever dos mensageiros de Cristo, daqueles de quem se espera o ensinamento, como os seus apóstolos, sacerdotes e profetas, ensinar o que o Divino Mestre ensinou para a salvação de todos que queiram entrar no céu. Nenhuma perversão é permitida, pois já não seria o caminho da verdade e sim o caminho da falsidade. Heresia é engano. As heresias são negativas em si mesmas, enquanto falsidades, e também o são pelos seus frutos, o mais grave o inferno sem fim.

Na Ladainha do Espírito Santo é pedido: “De todas as heresias e erros, livrai-nos, Senhor”. E na oração a Nossa Senhora Auxiliadora é dito: “Só vós destruístes todas as heresias no mundo inteiro”.

Natividade de Maria, a Imaculada: grandeza da criação do Grande Criador

Deus, em sua majestosa infinitude, sem princípio nem fim, é aquele que tudo contém sem por nada ser contido, pois do contrário teria limites e não poderia ser infinito. Deus é o Ser Necessário, plenitude do Ser, de modo imutável, sem possibilidade de mudança, em certo sentido oposto ao puro nada, ao nada absoluto, que jamais houve e jamais haverá, porque é pura impossibilidade, o que significa indestrutivelmente a eternidade do ser. Deus é o puro Espírito Vivente, como um fogo puríssimo, eterno e vivificante. Deus é a pura Potência, a pura Sabedoria, a pura Bondade, o puro Amor. A bondade de Deus é eterna, sempre o acompanha.  Tudo o que Ele faz é bom, seu Ser é Bom, o Supremo Bem. Tudo o que é bom, em sua relativa bondade, é bom por participação na bondade de Deus. É a bondade de Deus que a todo instante me mantém na existência, ela envolve todo o meu ser, cada uma de minhas células.

Por ser sempre impossível, nada existe fora de Deus, sem a presença divina, o que não significa, como no engano panteísta, que tudo é em si mesmo divino. Corretamente compreendido, em essência eu sou o que sou na Mente Divina. O Deus que me criou é o Deus que disse meu nome, que significa dizer minha essência, um eu na humanidade. O Onipotente não cria por necessidade, como se fosse forçado a criar, e sim por liberdade, porque decide criar. Assim, em sua criação há decisão, e nela, como em todas as decisões possíveis, há preferência entre possibilidades. E se há preferência, há valor, consequentemente ausência de indiferença. Se Deus criou homem e mulher enquanto tais, então há neles, em essência, o valor de ser homem e o valor de ser mulher, o que vale para tudo o mais na ordem da criação.

A grandeza da criatura diz a grandeza do Criador, o que vale para Maria, a Imaculada. Ela, na Mente Divina desde a eternidade, é criada na bondade e pela bondade, em benefício da humanidade, pois dela nasceu o Salvador. “Minha alma engrandece ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua humilde serva. Por isso, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele é Onipotente e cujo nome é Santo”.

“O Caminho, a Verdade e a Vida”

Cristo disse ser ele mesmo “o Caminho, a Verdade e a Vida” e que nasceu e veio ao mundo para dar testemunho da verdade. Isto significa que em seu adorável ser e em sua missão salvadora da humanidade decaída, escrava do diabólico, a pura verdade possui máxima importância. Se ele é o que diz ser, então a verdade é o caminho e o caminho é verdadeiro. No tempo, a vida verdadeira começa, permanece e atinge seu fim com a verdade, Verdade onipotente, Verdade onisciente, plenitude da luz, aniquilação das trevas. Em sua Carta São João Evangelista diz: “Não vos escrevi como se ignorásseis a verdade, mas porque a conheceis, e porque nenhuma mentira vem da verdade. Quem é mentiroso senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Esse é o Anticristo, que nega o Pai e o Filho. Todo aquele que nega o Filho não tem o Pai. Todo aquele que proclama o Filho tem também o Pai”.

Parte importantíssima da verdadeira religião são as verdades em que devemos crer com razão, no sentido em que diz são Pedro sobre o “estai preparados para dar a razão de vossa fé”. São verdades reveladas, especialmente por Cristo – aquele que é a plenitude da Revelação, que não veio abolir a Lei nem os Profetas – ensinadas pela Igreja Una e resumidas, em essência, no Credo Católico. Na mesma Carta, São João, o discípulo amado, diz: “Nisto se reconhece o Espírito de Deus: todo espírito que proclama que Jesus Cristo se encarnou é de Deus; todo espírito que não proclama Jesus esse não é de Deus, mas é o espírito do Anticristo de cuja vinda tendes ouvido, e já está agora no mundo”.

Outra parte importante é o que podemos esperar, como promessa divina para aqueles que acreditaram e mantiveram a obediência à verdade, perseveraram virtuosamente até o fim da jornada. Assim, o ungido Davi diz no Salmo 26 (27): “Ao Senhor eu peço apenas uma coisa, e é só isto que eu desejo: habitar no santuário do Senhor por toda a minha vida; saborear a suavidade do Senhor e contemplá-lo no seu templo. Sei que a bondade do Senhor eu hei de ver, na terra dos viventes. Espera no Senhor e tem coragem, espera no Senhor!”.

“Quem não quiser passar pela porta da Misericórdia, terá que passar pela porta da minha justiça” (Diário, 1146)

O Divino Cristo, com sua verdadeira Igreja, e a Sagrada Escritura, quando corretamente compreendida, ensinam duas coisas importantes sobre Deus, decisivas para a vida e o destino eterno de cada homem e para as sociedades: a Misericórdia Divina e a Justiça Divina, diferentes mas jamais contraditórias. Elas sempre significam a imutável Bondade de Deus, que não deixa de ser justo quando é misericordioso nem deixa de ser misericordioso quando é justo. A harmonia das perfeições de Deus é imutável, permanece sempre, sem possibilidade de mudança.

Em Cristo há tanto a face da Misericórdia como a face da Justiça. Ele é Salvador Misericordioso, no tempo da compaixão a todos concedido, e Justo Juiz, no dia da justiça, em que o peso da maldade culposa e o da bondade meritória serão pesados na balança da Verdade. Ele disse: “de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por ele. Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não crê no nome do Filho único de Deus. Ora, este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz, pois as suas obras eram más”. Em outra parte, disse: “porque o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um de acordo com a sua conduta”.

Em nosso tempo, ensinamentos valiosos sobre esses dois importantes atributos divinos são aqueles contidos no Diário de Santa Faustina. Por exemplo: 

(1) “Meu Coração está repleto de grande misericórdia para com as almas, e especialmente para com os pobres pecadores. Oh! se pudessem compreender que Eu sou para eles o melhor Pai, que por eles jorrou do Meu Coração o Sangue e a Água como de uma fonte transbordante de misericórdia”.

(2) “Então, vi Nossa Senhora, que me disse:… Eu dei o Salvador ao mundo e, quanto a ti, deves falar ao mundo da Sua grande misericórdia, preparando-o para a Sua Segunda vinda, quando virá não como Salvador misericordioso, mas como Justo Juiz. Oh! Quão terrível será esse dia! Está decidido o dia da justiça, o dia da ira de Deus; os próprios Anjos tremem diante dele. Fala às almas dessa grande misericórdia, enquanto é tempo de compaixão…”.

A importância de vigiar e permanecer em “estado de graça”, na amizade divina

Cristo fala por meio de comparações como modo de compreendermos as realidades espirituais e as verdades do Evangelho Eterno que Ele deseja ensinar. Neste caso vale aquilo que certa vez Ele disse: “compreendei, pois, o que isto significa”. Ao contar a parábola das virgens previdentes e das imprevidentes, o Divino Mestre ensina a importância de vigiar.

A vigilância tem a ver com a consciência e com a atenção da consciência. Vigiar, em seus múltiplos significados, significa não deixar cair no esquecimento aquelas verdades importantes do Evangelho Eterno e não se deixar dominar pela dispersão na vida espiritual. Na medida do possível, com o auxílio divino, deve ser uma vigilância permanente, própria da pessoa prudente, que sabe o que passa e sabe o que permanece, que sabe o futuro certo da morte que a visitará e do Senhor que chegará, como Aquele que tudo conhece, sempre Misericordioso e sempre Justo em suas avaliações. Assim, diz São Paulo: “Aprendestes de nós como deveis viver para agradar a Deus, e já estais vivendo assim”; e diz o Salmo 96 que “o Senhor ama os que detestam a maldade, ele protege seus fiéis e suas vidas”.

Catolicamente, em seus múltiplos significados, a vigilância significa um combate para permanecer em “estado de graça”, na amizade divina, em oposição contínua aos pecados graves que posso cometer, com frutos mortíferos para a vida da alma. Cristo ensina: “Vigiai e orai, para não cairdes em tentação”. Porém, caso haja quedas nessa luta virtuosa, não deve haver desespero no combatente, pois no tempo da compaixão divina permanece a possibilidade de ir ao tribunal da Misericórdia, como é a Confissão sacramental, que de certo modo sempre antecede o tribunal da Justiça Divina, na imutável harmonia do verdadeiro Deus.

Assim, à Santa Faustina disse Cristo: “Meu Coração está repleto de grande misericórdia para com as almas, e especialmente para com os pobres pecadores. Oh! se pudessem compreender que Eu sou para eles o melhor Pai, que por eles jorrou do Meu Coração o Sangue e a Água como de uma fonte transbordante de misericórdia”. Disse também: “Quem não quiser passar pela porta da Misericórdia, terá que passar pela porta da minha justiça”.

“As palavras do Senhor são palavras sinceras, puras como a prata acrisolada”

São Paulo fala dos efeitos produzidos pela Palavra Divina naqueles que de fato abraçaram a fé, efeitos que são como sinais de reconhecimento, no sentido do “pelos seus frutos os reconhecereis” ensinado por Cristo. Como a Palavra de Deus é espírito e vida e como o Espírito é o Espírito da Verdade, então naquele que a abraçou ela vivifica a devida estima pela verdade e o devido desprezo pela falsidade, um dos significados do Primeiro Mandamento.   

Cristo, que é a Verdade e a Vida, fala contra a duplicidade dos mestres da Lei e dos fariseus, duplicidade que é um dos nomes da falsidade, pois contém contradição, negação. “Por fora pareceis justo… mas por dentro estais cheios de injustiça”. É como a duplicidade da língua da serpente, do pai da mentira, do espírito da falsidade.

Isto quer dizer que nos mestres da Lei, por não caminharem interiormente na verdade e na virtude, falta o domínio do Espírito, que é o domínio da verdade e da virtude. O Deus que ama a sinceridade no homem, pois ela é um dos nomes da verdade. Assim, diz o Salmo 9: “As palavras do Senhor são palavras sinceras, puras como a prata acrisolada, isenta de ganga, sete vezes depurada”. O Deus que ama o homem quer habitar nele como Espírito da Verdade, quer exercer em sua alma seu domínio frutuoso. Não há falsidade totalmente escondida, pois Deus, que é a Verdade Onipotente, tudo vê. Assim, diz Davi no Salmo 138: “Em que lugar me ocultarei de vosso espírito?… Se eu subir até os céus, ali estais; se eu descer até o abismo, estais presente”.

Como filhos daqueles que mataram os profetas, não acolheram a Cristo porque ele é a Verdade, foram cumplices na morte de Cristo porque ele é a Verdade. Para a falsidade, a verdade é como uma inimiga mortal. Para a verdade, a falsidade é como uma mancha horrenda em sua pureza. No homem, o trono é de uma ou da outra. Em toda a realidade, o trono é sempre da Verdade onipotente, pois o trono de Deus não é perecível como o trono dos homens, o domínio de Deus não é passageiro como o domínio dos homens. Assim, diz o Salmo 9: “O Senhor, porém, domina eternamente; num trono sólido, ele pronuncia seus julgamentos”.

Martírio de São João Batista: Num mundo em que a mentira é poderosa, a verdade paga-se com o sofrimento

Hoje a Igreja faz memória do martírio de São João Batista. Para este grandioso profeta vale aquilo que o Papa Bento XVI disse, em comentários sobre a vida de São Paulo Apóstolo: “Num mundo no qual a mentira é poderosa, a verdade paga-se com o sofrimento. Quem quer evitar o sofrimento, mantê-lo distante de si, mantém distante a própria vida e a sua grandeza; não pode ser servo da verdade nem pode servir a fé”.

São João Batista é o maior dos profetas abaixo de Cristo, que é antes de todos o verdadeiro profeta, o que não significa dizer que os demais profetas merecedores deste nome sejam falsos. Assim, de certo modo, todo verdadeiro profeta é subordinado a Cristo e participante de seu Espírito profético. O precursor, com sua vida exemplar e suas palavras cheias do fogo da divina Sabedoria, prepara as consciências para o Deus-homem, a Verdade encarnada, e ambos, ao seu modo, mostram à mente dos homens o que ela deve escolher e o que ela deve evitar se deseja ser realmente feliz e evitar a infelicidade eterna. Mostram que os homens devem escolher a verdade e evitar a falsidade, devem escolher a virtude e evitar o vício, devem escolher a vontade divina, sempre com máxima sabedoria, e evitar a vontade própria cheia de insensatez, e devem preferir a grandeza eterna que perdura para sempre às grandezas mundanas que se desfazem totalmente na morte, deixando para a alma tão-somente um vazio sem fim. 

São João Batista é o profeta da verdade contra a falsidade, da Sabedoria eterna contra a insensatez humana, da Bondade divina contra a maldade diabólica, da virtude amiga do homem contra o vício destruidor das almas. Nisto ele se assemelha a Cristo, sem ser o Cristo, do qual não é digno de sequer amarrar as sandálias. Ele é o amigo do Esposo, sem ser o esposo, e naquela comunhão que há na verdadeira amizade, eles essencialmente “amam a mesma coisa e detestam a mesma coisa”. O Espírito que nele habita é o Espírito de Cristo, o Espírito de todos os verdadeiros profetas, o Espírito da Verdade, a Verdade eterna e onipotente.

São João Batista é, por vontade divina, o profeta da correção, que remove os obstáculos, que prepara o caminho, que dispõe mentes e corações para os tesouros que lhes esperam. Quando ele diz convertei-vos, isto significa “transformai-vos no que é benéfico se transformar”, “corrigi-vos no que é preciso se corrigir”, para receberem a salvação que vem Deus, para que sejam como a terra boa que receberá as sementes da divindade e dará frutos de vida eterna.

São João Batista ensina a verdadeira religião e prepara para a verdadeira religião, que é o Cristo e sua autêntica Igreja, assim como ensina a verdade e prepara para a Verdade. Nele, em oposição ao que é falso, o que é verdadeiro tem máxima importância, ante de tudo se diz respeito à religião, ao caminho de salvação eterna revelado pelo Criador. Neste sentido, como seus antecessores no Povo de Israel, entre os quais está o profeta Jeremias, ele é o profeta do verdadeiro Deus e da verdadeira religião.

Assim, sem se comportarem como Deus, dando sentenças de condenação das almas que cabem apenas à Consciência divina, sem contradizer aquilo que o Divino Jesus ensina a este respeito, como verdadeiros porta-vozes do Criador, como verdadeiros profetas e apóstolos, com o poder que lhes foi concedido, dizem os julgamentos divinos, comunicam as avaliações divinas que o próprio Deus quis. Assim, disse a Jeremias: “Levanta-te e comunica-lhes tudo que eu te mandar dizer”. Antes de Cristo, com Cristo e depois de Cristo, por bondade dizem o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, o correto e o incorreto, com a marca do sofrimento em suas vidas. Como diz Davi no Salmo 70: “Minha boca anunciará vossa justiça!”

Todo ser, todo poder, todo conhecimento e toda felicidade é em Deus: “Vossa Bondade é para sempre!”

Santo Agostinho

Deus em sua eternidade é sem princípio nem fim, não há nada que possa ser anterior ou posterior a ele. Deus é aquele que tudo conhece totalmente e intimamente, pois nada escapa de sua Consciência onisciente, e todas as criaturas capazes de conhecer conhecem em Deus, de modo que minha consciência e os conhecimentos que nela há são dons do Criador. Assim, diz São Paulo: “Ó profundidade da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus!”

Deus é aquele que tudo contém e por nada é contido, é o Criador de tudo o que existe, e tudo lhe pertence por direito. Do mesmo modo que todo conhecer é conhecer em Deus, todo ser é ser em Deus. Assim, diz São Paulo: “Na verdade, tudo é dele, por ele e para ele. A ele a glória para sempre”.

Deus é aquele que tudo pode, possui poder Onipotente. Sempre cumpre o que promete, sempre pode terminar uma obra começada e pode distribuir o seu Poder. Assim diz o salmista: “Completai em mim a obra começada!… fizestes muito mais que prometestes”. E Cristo diz para São Pedro, o Apóstolo, sobre sua Igreja: “…E o poder do inferno nunca poderá vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”.  

Deus o Ser Infinito, a plenitude do ser, então nele há necessariamente felicidade em máximo grau, felicidade eterna. A presença de Deus, como presença percebida, é a presença da felicidade, assim a visão imediata da Essência Divina Vivente, a experiência imediata de Deus, como que absorve totalmente o ser da pessoa, num oceano de felicidade. Assim como é próprio do sol aquecer e iluminar, é próprio de Deus irradiar felicidade: a luz de Deus é a luz da felicidade. Diz Santo Agostinho: “A felicidade da vida é a posse da verdade, ou seja, a posse de Ti que és a Verdade”.

Todo ser, todo poder, todo conhecimento e toda felicidade é em Deus. Assim, se sou, só sou em Deus, e se posso, só posso em Deus, e se conheço, só conheço em Deus, e se sou feliz, só sou feliz em Deus, sempre por pura bondade do Criador, da Trindade Eterna. Diz o Salmo 137: “Eu agradeço vosso amor, vossa verdade”, “ó Senhor, vossa bondade é para sempre!”.

Compreensão das Escrituras: amar na verdade e jamais crer contra a razão

Para aquele que crê, o Espírito da Verdade nos ensina por meio da Sagrada Escritura, que contém palavras divinas transmitas aos homens em linguagem humana. Por esta razão, ela não deve ser pervertida em seus verdadeiros significados e sim ser corretamente compreendida. Assim, ao ler algo das Escrituras devemos considerar a seguinte questão: que verdades estão aqui contidas?

A Bíblia nasce na vida da Igreja, que para alguns escritos disse sim e para outros disse não. Quem desconfia da Igreja deveria desconfiar das Escrituras escolhidas. Assim, diz Santo Agostinho: “Eu não acreditaria no Evangelho se não me movesse a isso a autoridade da Igreja Católica”.  

Um método de apreensão de significados das Sagradas Escrituras tem de ser catolicamente aceitável, do contrário é um falso método, com o qual nada se compreende e sim tudo se perverte. Quanto mais importante algo é, mais grave é a sua perversão. Se nas Escrituras há palavras divinas, palavras de vida eterna, pervertê-las tem elevada importância negativa.

Alguns propõem “métodos críticos” na consideração das Escrituras. Humanamente, todo método apropriado tem seu valor e seus limites. A importância crítica de um método está antes de tudo em duas coisas: fazer prevalecer a verdade e escapar da falsidade, ampliar a verdadeira consciência e evitar o engano.  Porém, em um método nominalmente crítico, a parte de “palavra divina” pode ser negada ou subestimada, se não explicitamente ao menos como consequência. Um exemplo: ao considerar “sociologicamente” algo descrito na Escritura, falam de “mentalidade da época”, e ao falar disto negam algum milagre sempre acreditado pelos cristãos. Neste caso, os pães multiplicados por Cristo na realidade seria um símbolo da partilha que ele queria ensinar, e não pães milagrosamente multiplicados. Nisto negam que pães possam ser multiplicados de modo extraordinário, que Deus possa fazê-lo e que Cristo seja Deus, no qual habita a plenitude da Onipotência, ele mesmo que disse ser Um com o Pai.  

No exemplo, há sociologia e há o “sociologismo”. A sociologia, com seus limites e valor, contêm suas verdades e é uma consideração possível. Porém, o sociologismo, um dos ídolos modernos, que reduz tudo ao social e conforme for a versão tudo relativiza ou politiza, é um engano que engana, uma perversão que perverte.

Opor-se a estas perversões não significa oposição à verdade nem à razão humana, pois é parte importante da sabedoria católica, sabedoria da verdadeira religião, “amar na verdade” e “jamais crer contra a razão”, potências que o próprio Deus concedeu ao homem desde os tempos de Adão e Eva.