Deus sempre tem razão em suas razões

Todo ser possui uma razão de ser, que significa pelo menos duas coisas importantes: a razão de ser algo e não um puro nada e a razão de ser como é e não ser de outro modo.  Um exemplo. Deus, por ser o ser que é, por sua eternidade, sem princípio nem fim, é o princípio e o fim. Assim, ele é sempre o Antecedente de todos os consequentes, que em razão de ser o que são exigem antecedente, como o filho em relação ao pai. Eis o Deus criador não criado, que é desde sempre. Ele, por ser o que é, não faz nada sem motivos em sua Sabedoria, sempre tem razão em suas razões. As decisões divinas trazem sempre a Sabedoria divina que tudo compreende, a Bondade divina que tudo avalia e a Onipotência divina que tudo pode na totalidade do possível.

Deus, por ser o que é, em sua onipotência, é o verdadeiro Senhor da história, e não há ninguém que possa se opor a seu poder, sendo ele mesmo a fonte de todo poder. Em uma só ação divina, de um instante para outro, um poderoso é derrubado de seu trono. Vale para os demônios, que só podem agir com permissão de Deus, como ensina o livro de Jó: “Um dia em que os filhos de Deus se apresentaram diante do Senhor, veio também Satanás entre eles. O Senhor disse-lhe: “De onde vens tu?”. “Andei dando volta pelo mundo – disse Satanás – e passeando por ele”. O Senhor disse-lhe: “Notaste o meu servo Jó? Não há outro igual a ele na terra. É um homem íntegro e reto, temente a Deus e se mantém longe do mal”. Mas o Satanás respondeu ao Senhor: “É a troco de nada que Jó teme a Deus? Não cercaste, qual uma muralha, a sua pessoa, a sua casa e todos os seus bens? Abençoaste tudo quanto ele fez e seus rebanhos cobriram toda a região. Mas estende a tua mão e toca em tudo o que ele possui. Juro-te que te amaldiçoará na tua face”. “Pois bem!”– respondeu o Senhor. “Tudo o que ele possui está em teu poder. Mas não estendas a tua mão contra a sua pessoa.”

Em Provérbios é ensinado que Deus “abomina a balança fraudulenta, mas o peso justo lhe é agradável”. Jó é a figura do servo sábio que tem a virtude comprovada pelo peso justo da fidelidade nas adversidades, sempre recompensada pelo Onipotente no devido tempo, com muito mais do que se perdeu.

O império do Anticristo é o império infernal da idolatria (da falsidade)

Para Moisés Deus disse que seu nome é “Eu sou aquele que sou”. O demônio, em sua insana oposição a Deus, seu criador, diria com sua língua enganadora que “eu sou aquele que não sou”. Como é próprio de Deus a afirmação do ser como ele é, a Verdade, é próprio dos demônios e do pecado a negação do ser como ele é, a falsidade. À santa Catarina de Sena Deus Pai disse: “às vezes, o demônio até faz conhecer exatamente a realidade, mas para conduzir depois ao engano”.

Ao falar sobre a outra vinda de Cristo, que será precedida pelo Anticristo, São Paulo diz em sua carta aos Tessalonicenses “Ninguém de modo algum vos engane. Porque primeiro deve vir a apostasia, e deve manifestar-se o homem da iniquidade, o filho da perdição, o adversário, aquele que se levanta contra tudo o que é divino e sagrado, a ponto de tomar lugar no Templo de Deus, e apresentar-se como se fosse Deus.(…) A manifestação do ímpio será acompanhada, graças ao poder de Satanás, de toda a sorte de portentos, sinais e prodígios enganadores. Ele usará de todas as seduções do mal com aqueles que se perdem, por não terem cultivado o amor à verdade que os teria podido salvar. Por isso, Deus lhes enviará um poder que os enganará e os induzirá a acreditar no erro. Desse modo, serão julgados e condenados todos os que não deram crédito à verdade, mas consentiram no mal.”

O império do Anticristo é o império infernal da idolatria. Ídolos e idolatria são sinônimos de falsidade, pois em parte signfica superestimar a verdadeira realidade de algo, portanto negação do ser, negação ensinada na escola da serpente de língua dupla. Como Deus é a Verdade infinita, ele jamais aprovaria a idolatria, que é como um veneno mortífero para sua amada criatura.   

Sobre a idolatria, diz Salomão no livro da Sabedoria: “Outro, por sua vez, que quer navegar e se prepara para atravessar as impetuosas ondas, invoca um madeiro de pior qualidade que o navio que o leva; porque o desejo do lucro inventou o navio, e o artífice pela sua habilidade o fabricou. Mas sois vós, Pai, que o governais pela vossa Providência (…).  Foi pela idealização dos ídolos que começou a apostasia, e sua invenção foi a perda dos humanos. Eles não existiam no princípio e não durarão para sempre; a vaidade dos homens os introduziu no mundo. E, por causa disso, Deus decidiu a sua destruição para breve. (…).

(…) Como se não bastasse terem errado acerca do conhecimento de Deus, embora passando a vida numa longa luta de ignorância, eles dão o nome de paz a um estado tão infeliz. Com efeito, sacrificando seus filhos, celebrando mistérios ocultos, ou entregando-se a orgias desenfreadas de religiões exóticas, eles já não guardam a honestidade nem na vida nem no casamento, mas um faz desaparecer o outro pelo ardil, ou o ultraja pelo adultério. Tudo está numa confusão completa – sangue, homicídio, furto, fraude, corrupção, deslealdade, revolta, perjúrio, perseguição dos bons, esquecimento dos benefícios, contaminação das almas, perversão dos sexos, instabilidade das uniões, adultérios e impudicícias – porque o culto de inomináveis ídolos é o começo, a causa e o fim de todo o mal. (Seus adeptos) incitam o prazer até a loucura, ou fazem vaticínios falsos, ou vivem na injustiça, ou, sem escrúpulo, juram falso, porque, confiando em ídolos inanimados, esperam não ser punidos por má-fé. Contudo, o castigo os atingirá por duplo motivo: porque eles desconheceram a Deus, afeiçoando-se aos ídolos, e porque são culpados, por desprezo à santidade da religião, de ter feito juramentos enganadores. Pois não é o poder dos ídolos invocados, mas o castigo reservado ao pecador, que sempre persegue as faltas dos maus.”

O ceticismo sem razão e as certezas legítimas da Sabedoria (sempre em Deus)

Há um ceticismo que é negativo, pois superestima a dúvida, que tem o seu valor, mas dentro de certos limites, dado que não faz sentido sempre duvidar de tudo como se na vida só houvesse incertezas. A vida humana concreta exige um mínimo de certeza e qualquer pessoa, até o mais cético dos céticos, possui alguma certeza, pelo menos a certeza da incerteza. Porém, a certeza da incerteza, que é inevitável mesmo para o cético que tudo nega, traz consigo outras certezas, do mesmo modo inevitáveis.

Além disso, a dúvida mesma supõe inúmeras certezas na mente de quem duvida, sem o que seria impossível a dúvida. Duvidar é sempre duvidar de algo e este ato supõe sempre a presença do ser. Há, por exemplo, a coisa contestada e o agente que exerce a duvida. Duvidar de tudo isto seria negar a própria dúvida, o que significaria uma certeza. Só é possível o não se há antes o sim.

Assim, o problema não é a certeza em si, mas a certeza sem razão objetiva, uma certeza enganosa, como no caso do presunçoso que presume saber o que na realidade não sabe. A certeza é um dos valores da sabedoria, porém a certeza legítima, como a “certeza crítica”, a certeza com razão, garantida pelo ser mesmo.

Há realidades que a inteligência humana tem de reconhecer sem poder negá-las com razão, pois são inegáveis, certezas absolutas. Por exemplo. Diz Santo Agostinho que “se alguma coisa é desaprovada, com razão, é porque a menosprezamos, ao compará-la com algo melhor” e que “nada é totalmente bom quando poderia ser melhor”. Deus é o único Ser que é totalmente bom eternamente. Assim, ele não pode ser melhor nem pior do que já é, não pode progredir nem regredir no ser. Se ele é assim, então não há nada que por comparação possa ser melhor que ele. Consequentemente, Deus jamais deveria ser desaprovado, e quem o desaprova jamais tem razão, e sim insensatez.

Neste sentido, o primeiro mandamento com razão manda amar primeiro o que merece ser amado acima de todas as coisas, pois é o ser mais amável de todos. Deus, a Sabedoria, nunca manda algo contra a razão, seus caminhos jamais são caminhos da insensatez. Contra a sabedoria e no caminho da perdição somente os demônios e os homens que os seguem.

“Era Moderna”, queda da “Babilônia” e triunfo do Imaculado Coração de Maria

Em nosso tempo, a queda da “Babilônia” mencionada nas Escrituras significa em parte a queda da “Era Moderna” e das “sociedades modernas”. Quando ela atingir o ápice de suas perversidades ante os olhos de Deus, então entrará em ruínas, como um castelo de areia. A grandeza de suas perversões significa o predomínio do diabólico em grande escala, legião de abominações contra Deus. Apesar de certa ampliação da consciência humana e do progresso tecnológico nela presentes, a “era moderna” traz consigo cruciais oposições à revelação divina contida na verdadeira religião e importantes negações de verdades perceptíveis pela razão humana. Oposição à Revelação e à razão significa oposição à Sabedoria Divina. Assim, seu lema é a insensatez da serpente: “Não servirei”, “farei o que quero”. Por esta razão, a “época moderna” levada às suas últimas consequências coincide com grande degradação humana, que são como os frutos da árvore má, de que fala Cristo.

Sobre os males da sociedade moderna, no século XIX disse o Papa Leão XIII: ““Efetivamente, desde os primeiros instantes do Nosso Pontificado, o que se oferece aos Nossos olhares é o triste espetáculo dos males que de todas as partes acabrunham o gênero humano: é essa subversão geral das verdades supremas que são como que os fundamentos em que se apoia o estado da sociedade humana; é essa audácia dos espíritos que não podem suportar nenhuma autoridade legítima; é essa causa perpétua de dissensões de onde nascem as querelas intestinas e as guerras cruéis e sangrentas; é o desprezo das leis que regulam os costumes e protegem a justiça; é a insaciável cupidez das coisas que passam e o esquecimento das coisas eternas, levados ambos até esse furor insensato que por toda parte induz tantos infelizes a levarem sobre si mesmos, sem tremerem, mãos violentas; é a administração inconsiderada da fortuna pública, o esbanjamento, a malversação, como também a impudência dos que, cometendo as maiores espertezas, se esforçam por dar-se a aparência de defensores da pátria, da liberdade e de todos os direitos; é, enfim, essa espécie de peste mortal que, insinuando-se nos membros da sociedade humana, não deixa a esta repouso e lhe prepara novas revoluções e funestas catástrofes.” (CARTA ENCÍCLICA “INSCRUTABILI DEI CONSILIO”, de  1878)

E sobre alguns males de seu tempo, no século XX disse o Papa Pio XII: “(…) A quantas e quão grandes insídias não vemos, nesses países, expostas as almas de nossos filhos, para fazê-los abjurar da fé de seus maiores, e separá-los, para desventura deles, da união com esta Sé Apostólica! E, finalmente, não podemos deixar, de maneira nenhuma, em silêncio o novo crime que se está a cometer, para o qual, com profunda dor, chamamos não só a vossa atenção, mas a de todo o clero, a de todos os pais e mães de família, e dos próprios governantes. Referimo-nos à iníqua campanha desencadeada, em toda a parte, pelos ímpios, contra a cândida inocência das criancinhas. Infelizmente, nem sequer a idade inocente foi poupada, pois não tem faltado quem temerariamente ouse cortar as flores que ornam os místicos jardins da Igreja, destruindo as mais belas esperanças da religião e da sociedade. Quem pensar bem nisso, não pode já maravilhar-se de que os povos gemam sob o açoite dos flagelos divinos e vivam sob o pesadelo de maiores calamidades.”

O triunfo do Imaculado Coração de Maria, que significa um novo ciclo histórico para a Igreja, é o começo de uma nova era para inúmeras sociedades, com domínio social do entrosamento entre a sabedoria religiosa da verdadeira religião, a sabedoria filosófica da verdadeira filosofia e o saber autêntico das verdadeiras ciências.

Santo Agostinho: onde não buscar a verdadeira religião

Palavras de Santo Agostinho, de valor para todos os tempos, em seu escrito “A Verdadeira Religião”:

“Seja qual for a intenção dos filósofos, qualquer pessoa pode facilmente compreender que não se há de buscar a religião junto dos que, participando dos mesmos mistérios sagrados com o povo, abertamente expõem em suas escolas opiniões diferentes e contraditórias, sobre a natureza de seus deuses e sobre o sumo Bem.

Se não fosse senão por ter extirpado esse mal, ninguém poderia negar à religião cristã o mérito de indiscutíveis louvores.

(E, dirá alguém, não há divergências na Igreja?)

De fato, as inúmeras heresias, uma vez apartadas da norma do cristianismo, atestam que aqueles que sobre Deus Pai, a sua sabedoria e o dom divino, professam e ensinam doutrinas contrárias à verdade não são admitidos à participação dos santos mistérios. Isso porque se crê e se ensina como fundamento da salvação humana que estejam concordes: a filosofia – isto é, a procura da sabedoria, e a religião. De quem não aprovamos a doutrina, tampouco havemos de participar com eles dos sacramentos.

(…)

Desse modo, a verdadeira religião não há de ser buscada na confusão do paganismo, nem nas impurezas do cisma, nem na cegueira do judaísmo, mas somente entre os denominados cristãos católicos ou ortodoxos, isto é, entre os guardiães da integridade e seguidores do que é reto.

Esta Igreja católica – vigorosa e extensivamente espalhada por todo o orbe da terra – serve-se de todos os que erram, para o seu próprio proveito e também para a correção deles – uma vez que se resolvam a despertar de seus erros.

Aproveita-se dos pagãos, para campo de sua transformação; dos hereges, para prova de sua doutrina; dos cismáticos, para documento de sua estabilidade; dos judeus para realce de sua formosura. Convida a uns, a outros elimina; a estes abandona, àqueles se antecipa. Contudo, a todos dá a possibilidade de receber a sua graça, quer tenham de ser formados, reformados, reunidos ou admitidos. E a seus filhos carnais, isto é, aos que vivem ou julgam conforme a carne, ela os tolera como a palha, com a qual o grão na eira está mais protegido, até ser limpo de sua casca. Mas como nesta eira, cada qual é voluntariamente palha ou grão, temos de suportar o pecado ou o erro dos outros. Isso até que alguém se levante para denunciar ou defender sua falsa opinião, com ousada pertinácia.

(…)”

Por que há o ser e não o nada?

O dado mais elementar de todas as experiências humanas é a presença do ser. Negar a presença do ser é negar o inegável, pois quem nega isto mostra que algo há, no caso a pessoa que nega e sua negação.

Uma questão importante é: Por que há o ser e não o nada? Uma resposta é: Porque não pode ser de outro modo, porque o nada, enquanto ausência total, é impossível e o Ser é necessário.

O ser e o nada total se excluem. Se há o ser, não há o nada, e se “há” o nada, não há o ser, nem poderia haver, pois o puro nada é pura impotência, é totalmente sem possibilidades, é a esterilidade absoluta. Assim, se há o ser, ele só pode ser eterno, ser desde sempre, pois não pode ter sua origem no nada. Então, o ser é uma presença eterna, nunca passou a ser, como se não existisse antes, nem deixará de ser, como se pudesse deixar de existir. Neste sentido, ele é sem princípio e sem fim, não há nada que lhe seja anterior e não há nada que lhe seja posterior. Tudo o que há, existe no ser, como modalidade no ser, como diferença no ser, jamais fora do ser, do contrário seria no puro nada, o que não faz sentido.

O ser é o princípio e o fim, que tudo contém, e é sem princípio nem fim, que por nada é contido. Se ele tudo contém e se o poder e o conhecimento existem no ser, então nele está todo poder e todo conhecimento. Assim, o ser necessário, em sua eternidade, é onipotente e onisciente. Um de seus nomes é Deus. Ou como Ele disse a Moisés: “Eu sou aquele que sou”. E como Verbo encarnado, Deus-homem, o Cristo, ele disse novamente: “Antes que Abraão existisse, Eu sou”.

Como ensina São Paulo: “Ele existe antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem nele” e “Ele não está longe de cada um de nós, pois nele vivemos, nos movemos e existimos”. E Salomão diz: “Tudo que está escondido e tudo que está aparente eu conheço: a sabedoria, criadora de todas as coisas, me ensinou. Há nela um espírito inteligente, santo, único, múltiplo, sutil, móvel, penetrante, puro, claro, inofensivo, inclinado ao bem, agudo, livre, benéfico, benévolo, estável, seguro, livre de inquietação, que pode tudo, que cuida de tudo, que penetra em todos os espíritos, os inteligentes, os puros, os mais sutis.”

Porque Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre, todo católico deve permanecer na Tradição

Por experiência, o tempo é vivenciado pelo homem como um misto de duração e sucessão, como uma sequência de anterior e posterior, como passado, presente e futuro. O movimento dos fatos históricos não é necessariamente evolutivo, um contínuo progresso, em que o posterior é sempre superior ao anterior. Assim, é enganoso medir o valor de certas realidades pelo critério do tempo histórico.

Cristo, Deus-homem, certa vez disse que “antes que Abraão existisse, eu sou” e em outro momento disse “quem não está comigo está contra mim”. No verdadeiro cristianismo há a eternidade, que é superior ao tempo, há a realidade espiritual, que é superior à matéria, há o imutável, que é superior ao mutável, há o absoluto, que é superior ao relativo. Quem superestima o tempo e subestima a Eternidade, quem superestima a matéria e subestima o Espírito, quem superestima o mutável e subestima o Imutável, quem superestima o relativo e subestima o Absoluto, não está com Cristo, mas sim contra Ele e contra si mesmo.

Quem reconhece a verdade como valor supremo deseja que em tudo ela prevaleça, o que inclui a religião. Deus é a Verdade Eterna e a verdadeira religião é uma religião de verdades eternas. Tão importante quanto conhecer a verdade é permanecer na verdade conhecida, manter-se fiel a ela.

No livro de Hebreus é dito que Cristo “é o mesmo ontem, hoje e sempre”; no salmo 118 é dito que “a tua palavra, Senhor, permanece para sempre, e a tua verdade, pelos séculos dos séculos”; no livro de Eclesiástico é dito que “o homem virtuoso permanece na sabedoria, estável como o sol, mas o insensato é inconstante como a lua”; e no Apocalipse São João diz: “vi outro anjo que voava pelo meio do céu, tendo um Evangelho eterno para anunciar aos habitantes da terra e a toda a nação, tribo, língua e povo”.

Por estas e por outras, com relação ao Evangelho Eterno, com relação aos valores supremos da religião de Cristo, com relação às verdades católicas de sempre, todo católico deve ser conservador, deve permanecer na Tradição, em oposição a mudanças que em nome do progresso os “progressistas” querem para a Igreja, pois é falso progresso, e na realidade é degradação, perversões da sabedoria divina.

O precursor e o Salvador, amigos que amam as mesma coisas e detestam as mesmas coisas

São João Batista é aquele que vem para “aplainar as estradas”, “endireitar o caminho” do prometido Salvador, é aquele que diz quem de fato é o Cristo, no duplo sentido de saber qual homem concreto é o Cristo e o que significa ser o Cristo. Assim, a respeito do divino Jesus, o príncipe dos profetas ensina que ele é “o filho de Deus”, que batiza com o Espírito e o fogo, e que é o “Cordeiro de Deus”, aquele que tira o pecado do mundo.

João é o profeta da correção, que prepara o caminho, que remove os obstáculos, que dispõe mentes e corações para os tesouros que lhes esperam. Quando ele diz convertei-vos, isto significa transformai-vos, corrigi-vos, para receber a salvação que vem Deus, para ser a terra boa que receberá as sementes da divindade e produzirá frutos de vida eterna.

Ele é o profeta da verdade contra a falsidade, da sabedoria contra a insensatez, da bondade divina contra a maldade diabólica, da virtude contra o vício. Nisto ele se assemelha a Cristo, sem ser o Cristo, do qual não é digno de amarrar as sandálias. Ele é o amigo do Esposo sem ser o esposo, e na comunhão que há na verdadeira amizade, eles essencialmente “amam a mesma coisa e detestam a mesma coisa”. O Espírito que nele habita é o Espírito de Cristo, o Espírito de todos os verdadeiros profetas, o Espírito da Verdade, a Verdade eterna onipotente, Mestre bondosíssimo e exigente.

São João Batista ensina a verdadeira religião e prepara para a verdadeira religião, que é o Cristo e sua verdadeira Igreja, assim como ensina a verdade e prepara para a Verdade. Nele, em oposição ao que é falso, o que é verdadeiro tem máxima importância, ainda mais se diz respeito à religião. Neste sentido, como seus antecessores no Povo de Israel, entre os quais está Elias, ele é o profeta do verdadeiro Deus, o Deus Uno e Trino, e da verdadeira religião.

Como voz de verdades eternas, daquilo que vale sempre, a voz do precursor ecoa por todos os tempos, e assim como o profeta Eliseu recebeu o Espírito do profeta Elias, o Espirito de João Batista é concedido a quem Deus quiser, no passado, no presente e no futuro.

Há apenas um verdadeiro Evangelho, assim como há apenas um verdadeiro Cristo

Como ensina São Paulo, há apenas um Evangelho de Cristo, o que significa que há uma multiplicidade ilegítima, consequentemente inaceitável. Porém, há uma multiplicidade legítima, que é a multiplicidade das verdades nele contidas, em razão de sua inesgotabilidade para a mente humana limitada em seu poder, dado que não é uma mente onipotente como a mente divina.

A multiplicidade é ilegítima quando, pelas contradições e confusões, há falsidade, o contrário de Cristo e suas palavras de vida eterna. São Paulo diz que seja “excomungado” qualquer um que ensinar outro evangelho, oposto ao único e verdadeiro evangelho que ele mesmo ensinava, em total comunhão com Cristo. Qualquer um é qualquer um, e nem mesmo um Papa pode tentar mudar o evangelho imutável, e caso tentasse fazê-lo se comportaria não como Pedro e sim como Judas, como o mau pastor que conduz as ovelhas para o abismo. Isto foi dito nos primórdios da Igreja, mas vale para todos os tempos até o “fim do mundo”.

Inegavelmente, o Cristo mostrado na Sagrada Escritura é o Mestre que instrui com verdades importantes e é ele mesmo a Verdade Vivente, a Sabedoria encarnada. Parte importante de seu vivo ensinamento é: permaneçam na verdade, permaneçam em mim. Como Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre, o Evangelho é essencialmente o mesmo ontem, hoje e sempre, a verdadeira Igreja é essencialmente a mesma ontem, hoje e sempre, e as verdades de vida eterna são essencialmente as mesmas ontem, hoje e sempre. Assim, diz o Salmo 118: “A tua palavra, Senhor, permanece para sempre, e a tua verdade, pelos séculos dos séculos”.

As inúmeras contradições quanto aos ensinos do Evangelho dizem que vivemos uma época com falsos evangelhos ensinados contrariamente ao verdadeiro evangelho. Por exemplo: ou o evangelho é o evangelho da Sagrada Eucaristia, da presença real de Cristo no Pão Consagrado, o Pão da vida, como a Igreja Católica ensina desde sempre, ou é como dizem os protestantes. Seja como for, nesta oposição há algo de máxima importância: um dos lados perverteu o Evangelho.

Foi dito: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus”.

O homem: pouco menor que os anjos e maior que o universo

Na cosmovisão materialista, o homem é insignificante ante a grandeza do universo. Como mostra o dilúvio de água na época de Noé e a chuva de fogo em Sodoma, o que pode o homem quando gigantes da natureza lhe atingem? Terremotos, tempestades, astros celestes, bomba nuclear: inúmeras mortes e grande destruição.  

Porém, na cosmovisão cristã, o homem é superior ao universo material. Primeiro, cada pessoa humana, enquanto criatura, é uma palavra dita pela Mente Divina, e assim o profeta Isaías diz que “antes de eu nascer, desde o ventre de minha mãe, Deus tinha na mente o meu nome”. Segundo, quando se diz que o homem é “imagem e semelhança de Deus” isto significa que ele é superior ao resto da criação. Terceiro, quando Deus, com sua palavra onipotente, diz o ser do homem, ele diz um ser composto de corpo e alma espiritual, e assim, visto além da matéria, o homem, como modo de ser, faz parte do universo material porém está acima dele.

A este respeito diz a sabedoria do salmo 8:“Porque eu hei de ver os teus céus, obra dos teus dedos: A lua e as estrelas que tu estabeleceste. Que é o homem, para tu te lembrares dele? ou que é o filho do homem para tu o visitares? Pouco menor o fizeste que os anjos, de glória e de honra o coroaste: E tu o puseste sobre as obras das tuas mãos.”

Uma das dádivas de Deus para o homem é a alma, realidade imaterial com poder, portadora de imortalidade, que não deixa de existir quando o corpo morre. Isto significa uma existência consciente eterna, pois a vida imortal do homem, para ter sentido, deve ser uma vida consciente. Assim, o eu consciente de cada homem é imortal, por decisão divina. Porém, a imortalidade não é sinônimo de felicidade, pois o homem pode ser, por razões eternas, eternamente feliz ou eternamente infeliz. No caso, a razão eterna é a posse de Deus, que é a vida feliz da alma, conforme Davi no salmo 15: “fora de vós não há felicidade para mim… Vós me ensinareis o caminho da vida, há abundância de alegria junto de vós e delícias eternas à vossa direita”.

Assim, Cristo ensina: “Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo no inferno”.