“Adquire (a todo custo) a verdade, e não a vendas, adquire sabedoria”

Em Provérbios (23,23) é dito: “Adquire (a todo custo) a verdade, e não a vendas, adquire sabedoria, instrução, inteligência”.

Certamente, alguém só pode adquirir algo que é adquirível e se não o possui. Sem essas duas coisas não há aquisição possível. Quem já possui a verdade não pode obter a verdade já possuída, porque do contrário possuiria e não possuiria a mesma coisa ao mesmo tempo, o que é contradição, portanto impossível. Assim, por exemplo, é impossível que Deus adquira um bem, pois Ele já possui todos os bens, e por isso lhe é próprio comunicar o que possui para aqueles que não possuem.

Quanto ao adquirível, uma árvore não pode adquirir sabedoria, porque não é um ser dotado de intelecto, capaz de entendimento, de compreensão dos significados e razões que há nas coisas. Ela não possui sabedoria e não pode obtê-la, devido ao seu não-ser que equivale a um não-poder. Para fazer e para sofrer (receber) é necessário ser, antes de tudo ser possível, ser em potência. No caso de Deus, Ele não pode sofrer nada, porque é totalmente perfeito, ato puro, e pode fazer tudo, porque é onipotente.     

Se a verdade deve ser adquirida a todo custo, isto quer dizer que pode ser custoso obtê-la, mas que vale a pena pelo seu valor, pelo bem objetivo que é possui-la. E tão valiosa ela é, que não deve ser vendida, isto é, trocada por outra coisa, como se essa valesse mais, o que é ilusão. Nas verdades da sabedoria, na inteligência das coisas, está o bom caminho do homem, que conduz a muitos bens de uma vida frutuosa, conforme a ordem divina do ser.  

Motivos de credibilidade, argumentos exteriores da revelação católica

Na verdadeira religião, os conteúdos da fé são realidades reveladas por Deus ao homem. Com relação a elas, o Deus Onisciente é aquele que sabe e o homem é aquele que não sabe, e por isso Deus é aquele que ensina e o homem é aquele que aprende. A este respeito, deve ser considerado o que Santa Edith Stein diz: “Aceitando a fé segundo o testemunho de Deus, adquirimos conhecimento sem compreendê-los; não podemos aceitar as verdades da fé como evidentes, como verdades necessárias da razão ou como fatos da percepção dos sentidos: não podemos, tampouco, deduzi-las de verdades imediatamente evidentes segundos as leis da lógica. Eis porque a fé se chama “luz escura”.”

No entanto, São Pedro Apóstolo: estais sempre preparados pra dar as razões de sua fé (1 Pd 3,15). E a isto correspondem os motivos de credibilidade da fé católica, entre os quais estão múltiplos indícios externos, que dão a certeza da origem divina da religião cristã. Como razões de credibilidade, pelas legítimas exigências da razão, e assim sem fideísmo nem racionalismo, devem ser considerados os milagres, entre eles os milagres eucarístico e os milagres de aparições marianas, cientificamente averiguados como fatos reais, além das profecias cumpridas, a vida extraordinária dos santos, a coerência e luminosidade da doutrina, a grandeza da moral, como moralidade sobrenatural, a perduração histórica da Igreja perante inúmeros ventos destruidores, as  grandes mentes a seu favor, e assim por diante.

Catolicamente, como ensinam os mestres da religião revelada, a adesão da fé não é um movimento cego do espírito, num puro fideísmo, imprudente, contrário à razão, a qual dentro de certos limites naturais permite ao homem discernir o verdadeiro e o falso. Se há a certeza da fé, por causa da autoridade de Deus revelador e pelo auxílio do Espírito Santo, também há a certeza da razão, dentro dos princípios universais do ser, verdades absolutas, entre eles o princípio de não contradição, e há a certeza da experiência, pelos sinais exteriores dados por Deus, como que argumentos externos da revelação, e pelas experiências pessoais discernidas corretamente, a exemplo das experiências da Providência divina, que governa todas as coisas.    

“Vós, porém, Senhor, permaneceis eternamente”

A verdade contra a falsidade e a certeza contra a incerteza são dois valores importantes para a consciência humana, que nelas tem sua perfeição, como conhecimento em ato de uma potência cognoscitiva, feita para conhecer. A Revelação divina é para a mente humana, porque é conhecimento divino comunicado, para ser acreditado. Ela procede de Deus, contém verdades religiosas naturalmente inacessíveis para a razão humana, como a Trindade de Pessoas na Unidade da natureza e a união hipostática em Cristo; e também contém de certo modo verdades religiosas naturalmente acessíveis para a razão, como certos atributos de Deus, a exemplo da imutabilidade, da eternidade e da simplicidade. Por exemplo, se Deus é imutável, como certamente é, então necessariamente é eterno, com seu Ser todo simultâneo, sem princípio nem fim, em oposição à sucessão, que é mudança.

A respeito da eternidade de Deus, que a mente humana pode vislumbrar, diz a Sagrada Escritura: “Vós, porém, Senhor, permaneceis eternamente”. (Salmo 101)

“Deus vê a mais perfeita entre as criaturas, a Imaculada (plena de graça), ama-a e assim nasce Jesus, Homem-Deus”

Na Sagrada Escritura é dito: “No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi e o nome da virgem era Maria. Entrando, o anjo disse-lhe: “Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo””. (Lucas 1, 26-28)

Sobre a Santíssima Virgem, São Maximiliano Kolbe diz: “Deus conhece a si mesmo, ama, e assim o Pai gera o Filho e o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Deus conhece as suas próprias semelhanças finitas nos mais diferentes graus, ama-as; algumas, chamou-as à existência e assim tiveram origem as criaturas. Deus vê a mais perfeita entre as criaturas, a Imaculada (plena de graça), ama-a e assim nasce Jesus, Homem-Deus, Filho de Deus e Filho do homem. Nela têm origem todos os graus de semelhança dos filhos de Deus e dos homens, dos membros de Jesus”. (em “Escritos de São Maximiliano Kolbe”)

A fé verdadeira é a certeza de realidades objetivas que não se vê

São Paulo Apóstolo diz que a fé é a certeza daquilo que não se vê (Hebreus 11,1). Assim, de certo modo a fé é certeza e há a certeza da fé. Naturalmente, quanto ao mesmo, a certeza e dúvida se excluem, enquanto opostos contraditórios que se negam mutuamente, como sim e não.

O Papa Pio XII diz que “a fé consiste em ter por verdadeiro o que Deus revelou e por meio da Igreja mandar crer”. Verdadeiro é o que corresponde à realidade objetiva. Na certeza da fé é dito sim à verdade revelada, aceita como tal sem temor de erro, enquanto na dúvida este sim é negado como única opção e o não é aceito como possibilidade, e assim aquele de duvida oscila entre os dois, sem adesão a nenhum. Desse modo, a dúvida é negação da fé, quem dúvida não crê realmente. E se a fé é ato da vontade livre, crer é querer crer e não crer é não querer crer. Por isso, como ato da liberdade, no crer há responsabilidade pelo bem ou mal feito, com as devidas retribuições da justiça divina distributiva, não sem antes ter Deus oferecido as bondades de sua Misericórdia.  A este respeito, por exemplo, o Divino Jesus disse a certos fariseus de sua época: “Por isso, vos disse: morrereis no vosso pecado; porque, se não crerdes o que eu sou, morrereis no vosso pecado. “Quem és tu?” – perguntaram-lhe eles então. Jesus respondeu: “Exatamente o que eu vos declaro”.” (Jo 8,24-25)

Como estado da mente, ante algo há uma dupla negação possível, uma das quais é a negação dúvida, na qual se diz que pode não ser verdadeiro aquilo que é afirmado como tal. Assim, é uma negação da certeza da verdade, pela aceitação da possiblidade da falsidade, e vice-versa. A outra negação é negar a verdade de algo pela afirmação da certeza da falsidade, e vice-versa. Nas duas há o não, e por isso negação, porém de modos distintos e excludentes. No caso, os dois se opõem à certeza da verdade da fé, aos dogmas da verdadeira religião, e são modos de incredulidade, com privações dos bens da fé verdadeira, que conduz ao Sumo Bem.   

“Examina os caminhos onde colocas os pés e que sejam sempre retos!”

Em Provérbios é dito: “Que teus olhos vejam de frente e que tua vista perceba o que há diante de ti! Examina os caminhos onde colocas os pés e que sejam sempre retos! Não te desvies nem para a direita nem para a esquerda, e retira teu pé do mal.” (4,25-27)

Neste trecho são dados conselhos sobre o caminho e a caminhada da vida. Nem todo caminho é bom e nem todo modo de caminhar é correto. Assim, é prudente, no sentido de fazer o bem e evitar o mal, olhar o que há no caminho, examinar onde se coloca os pés e não se desviar para direções que não conduzem ao bom fim. Os bons frutos exigem o devido caminho e a caminhada frutuosa exige continuidade e prudência, que contém a consideração da inteligência e os conselhos da sabedoria. Como diz São Boaventura: “Antes de andar o homem deve abrir os olhos. De modo similar, antes de por em prática os mandamentos, o homem deve primeiro conhece-los pela fé”.

O erro pernicioso de pensar que “nada tem a ver com a salvação do homem o conteúdo da fé com o qual ele serve a Deus”

Santo Tomás de Aquino ensina que é um erro pernicioso pensar que “nada tem a ver com a salvação do homem o conteúdo da fé com o qual ele serve a Deus”. O serviço divino deve ser feito na verdadeira fé, porque deve ser feito na verdade, como é próprio das obras de Deus. Há uma verdadeira religião e nela as coisas devem ser feitas conforme a sabedoria divina e não conforma as opiniões humanas, devem ser conforme a vontade divina e não conforme a vontade humana.

Há inúmeras razões objetivas, razões necessárias, para afirmar como realidade objetiva que, pela lei divina, os homens têm o dever de aceitar a verdadeira fé, se querem ser conduzidos ao fim para o qual foram criados. A verdadeira fé é um bem fonte de muitos bens para o homem, e por isso deve ser preservada integralmente e difundida amplamente.

A este respeito, como algo catolicamente correto, como objetivamente verdadeiro, o filósofo Dietrich von Hildebrand diz que a meta a Igreja é que “todos os homens conheçam o caminho para a verdade e para a felicidade eterna”. E disse o Papa Pio XII: “A fé em Jesus Cristo não permanecerá pura e incontaminada se não estiver sustentada e defendida pela fé na Igreja, coluna e fundamento da verdade (1Tm 3,15). (…) A fé consiste em ter por verdadeiro aquilo que Deus revelou e que, por meio da Igreja, ordena crer (…).”

“Não te é permitido ficar com a mulher do teu irmão”

O verdadeiro profeta é um homem de Deus que fala em nome de Deus por vontade do próprio Deus, de modo que, neste ofício de divino mensageiro, suas palavras são sempre verdadeiras e cheias de bondade. Assim, por exemplo, é dito ao profeta Jeremias: “Vamos, põe a roupa e o cinto, levanta-te e comunica-lhes tudo que eu te mandar dizer: não tenhas medo, senão, eu te farei tremer na presença deles” (Jr 1,17).

Como ensina Santo Tomás, justiça é fazer o bem e evitar o mal. Isto inclui afirmar a verdade e negar a falsidade. Cristo, o Justo dos justos, o Profeta dos profetas, disse: “É para dar testemunho da verdade que nasci e vim ao mundo. Todo o que é da verdade ouve a minha voz” (Jo 18,37).

Na luta entre a luz e as trevas, o profeta é um homem de combate pela verdade e pela verdadeira religião, tal como querida e ensinada por Deus. Isto vale para Jeremias, pois é dito: “Com efeito, eu te transformarei hoje numa cidade fortificada, numa coluna de ferro, num muro de bronze contra todo o mundo, frente aos reis de Judá e seus príncipes, aos sacerdotes e ao povo da terra; eles farão guerra contra ti, mas não prevalecerão, porque eu estou contigo para defender-te” (Jr 1,18-19). E vale para São João Batista, que, como glória do martírio, foi degolado por causa do ódio à suas palavras, segundo está escrito: “João dizia a Herodes: “Não te é permitido ficar com a mulher do teu irmão”. Por isso Herodíades o odiava e queria matá-lo, mas não podia. (…) Ela saiu e perguntou à mãe: “O que vou pedir?” A mãe respondeu: “A cabeça de João Batista” (…) Imediatamente, o rei mandou que um soldado fosse buscar a cabeça de João. O soldado saiu, degolou-o na prisão, trouxe a cabeça num prato e a deu à moça. Ela a entregou à sua mãe.” (Mc 6,17-29)

“Enquanto em outros lugares não existe a fé, ou existe misturada com muitos erros, a Igreja de Pedro permanece na fé”

Quanto à quarta característica, sabemos que a Igreja é firme. Uma casa é chamada de firme quando, antes de tudo, está sobre bons alicerces. Ora, o principal fundamento da Igreja é Cristo, conforme afirma o Apóstolo: “Ninguém poderá por outro fundamento senão o que já foi posto, que é Jesus Cristo” (1 Cor 3, 11). O fundamento secundário são os Apóstolos e a doutrina deles. Por esse motivo ela é também firme. Está escrito no livro dos Apocalipse que a cidade tem doze fundamentos, e que neles estavam escritos os nomes dos doze Apóstolos (cf. Ap 21, 14). Eis porque também se diz que a Igreja é apostólica. Para mais bem significar a firmeza da Igreja, S. Pedro foi chamado o seu chefe.

Verifica-se, em segundo lugar, a firmeza da Igreja, porque se ela for abalada, não poderá ser destruída. A Igreja jamais poderá ser destruída. Não a destruíram os perseguidores. Pelo contrário, ela cresceu ainda mais durante as perseguições, e os que a perseguiram, bem como os que ela combatia é que tombaram. Lê-se: “O que cair sobre esta pedra, quebrar-se-á; sobre quem ela cair, será esmagado” (Mt 21, 44).

Os erros não a destruíram. Pelo contrário: quanto mais os erros proliferavam, tanto mais era a verdade manifestada. Lê-se: “Os homens de espírito corrompido, pervertidos na fé, mas não irão além” (2 Tm 2, 8).

Nem as tentações do demônio a destruíram. A Igreja é como uma torre na qual se refugia todo o que luta contra o diabo. Lê-se: “É uma torre fortíssima, a casa do Senhor” (Pr 18, 10). Por isso, acima de tudo, o diabo se esforça para destruí-la, mas não prevalecerá, porque está escrito: “E as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 8). É a repetição do que já foi falado por Jeremias: “Lutarão contra si, mas não prevalecerão” (Jr 15, 20).

Eis porque só a Igreja de Pedro (a quem couber pregar o Evangelho por toda a Itália) sempre foi firme na fé. Enquanto em outros lugares não existe a fé, ou existe misturada com muitos erros, a Igreja de Pedro permanece na fé, e está purificada dos erros. Isso não pode ser motivo de admiração, porque o Senhor mesmo disse a Pedro: “Roguei por ti, para que tua fé não desfaleça” (Lc 22, 32) 6.” (Santo Tomás de Aquino, sobre o Credo Apostólico)

“Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita”

Na Sagrada Escritura é dito: “Naquele tempo, Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo o caminho para Jerusalém. Alguém lhe perguntou: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?” Jesus respondeu: “Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita. Porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão. Uma vez que o dono da casa se levantar e fechar a porta, vós, do lado de fora, começareis a bater, dizendo: ‘Senhor, abre-nos a porta!’ Ele responderá: ‘Não sei de onde sois.’ Então começareis a dizer: ‘Nós comemos e bebemos diante de ti, e tu ensinaste em nossas praças!’ Ele, porém, responderá: ‘Não sei de onde sois. Afastai-vos de mim todos vós que praticais a injustiça!’ Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac e Jacó, junto com todos os profetas no Reino de Deus, e vós, porém, sendo lançados fora. Virão homens do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus. E assim há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos”.” (Lc 13,22-30)

O divino Jesus, o Homem-Deus, diz isto a respeito da salvação, dos que serão salvos e, consequentemente, dos que serão condenados. Isto quer dizer que o caminho da salvação é exigente, e sob certo aspecto, que não exclui a graça, deve ser trilhado com a meta do melhor bem a ser conquistado. A este respeito, Santa Edith Stein diz: ““Tratávamos de entender qual parte tem a liberdade na obra da redenção. (…) A graça é o espírito de Deus que se abaixa à alma do homem. Não pode encontrar morada nela se não for acolhida livremente. Esta é uma dura verdade. Significa – além da mencionada barreira à onipotência divina – a possibilidade de autoexclusão, por princípio, da redenção e do reino da graça. (…) Cada um é responsável por sua própria salvação, uma vez que pode alcançá-la mediante a colaboração de sua liberdade, e não sem ela.”

E Santo Tomás de Aquino diz: “O prêmio da virtude é a felicidade, que é dado ao homem pela liberdade divina. Pertence pois a Deus não dar a felicidade a felicidade aos que age contra a virtude, mas dar-lhes em pena o contrário, ou seja, a miséria eterna”. (“Compêndio de Teologia”)