“Preserva tua boca da malignidade, longe de teus lábios a falsidade”

Em Provérbios (4,24) é dito: “Preserva tua boca da malignidade, longe de teus lábios a falsidade”.

A malignidade é própria do maligno, que é o pai da mentira, o que inclui a blasfêmia e a heresia. Assim, a boca herética e a boca blasfema são de certo modo boca maligna, que é fonte de males. Preservar a boca da malignidade significa que o homem deve fazer o bem e evitar o mal também quanto ao falar. A sua boca deve ser verdadeira e prudente, com bondade fonte de bens. Os lábios devem ser amigos da verdade e inimigos da falsidade, devem estar próximos da primeira e afastados da segunda. 

Como algo da serpente diabólica, a malignidade do falar e a falsidade das palavras trouxeram para os homens a queda original e seus inúmeros males.

São Pedro Apóstolo, em sua segunda Carta, diz: “Assim como houve entre o povo falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos doutores, que introduzirão disfarçadamente seitas perniciosas. Eles, renegando assim o Senhor que os resgatou, atrairão sobre si uma ruína repentina. Muitos os seguirão nas suas desordens e serão desse modo a causa de o caminho da verdade ser caluniado. Movidos por cobiça, eles vos hão de explorar por palavras cheias de astúcia. Há muito tempo a condenação os ameaça, e a sua ruína não dorme.” (2,1-3).

“A importância é tão fundamental quanto o ser”

Em Provérbios (4,20-22) é dito: “Meu filho, ouve as minhas palavras, inclina teu ouvido aos meus discursos. Que eles não se afastem dos teus olhos, conserva-os no íntimo do teu coração, pois são vida para aqueles que os encontram, saúde para todo corpo.”

O provérbio ensina a devida atenção para aprender e a devida memória para guardar verdades importantes, como um tesouro para o coração, no caso palavras divinas para uma vida bem vivida, fonte de muitas bondades, próxima do bem e longe do mal.

Não prestar atenção ou não dar ouvidos significa não dar importância. Se o homem deve fazer o bem e evitar o mal, não vai por este caminho quando não reconhece devidamente o que realmente importa, como é o caso das palavras ditas por Deus, que são sempre verdadeiras em si mesmas e benéficas para o homem, com fonte em sua puríssima Bondade.

Sobre a importância, o filósofo Dietrich von Hildebrand diz: “Não poderíamos sustentar por um momento sequer a ficção de um mundo absolutamente neutro e indiferente. A importância é tão fundamental quanto o ser. (…) Se tentarmos imaginar um mundo que seja completamente neutro – uma ficção essencialmente impossível – percebemos que tudo perderia toda a relevância. (…) Seria impossível até mesmo dizer que a sabedoria é preferível à tolice. ”

As palavras de Deus são sempre objetivamente importantes, possuem sempre valor objetivo, e são sempre bem objetivo para a pessoa. E tudo isto sempre independente das considerações dos homens.  

Conselhos de São Maximiliano Kolbe

Conselhos de São Maximiliano Kolbe

– “Faze o que estás fazendo e não te preocupes com nenhuma outra coisa (pensamentos bons ou ruins): se te dás conta que te distraístes, volta com serenidade ao que estavas fazendo. Confia o resto aos prodígios de misericórdia da Providência Divina: a Imaculada”.

– “Faze bem cada coisa por amor, para a glória de Deus”.

– “Cumpre bem teus deveres; tudo com reta intenção de agradar unicamente a Deus”.

– “O critério infalível do amor a Deus é cumprir a Vontade de Deus e abandonar-se a ela”.

– “Deixa de lado o que não é útil e terás tempo para tudo”.

“Quem quer que sejas, qualquer coisa que possua ou possas fazer, tudo o recebes a cada instante das mãos da misericórdia de Deus”

Certamente, o verdadeiro Deus é providente e tudo está submetido à sua Providencia onipotente. Enquanto tal, Deus sempre age por um fim, e em tudo o motivo de sua vontade é sua Bondade. Simultânea à sua providência é sua Sabedoria, de modo que em tudo o que Ela faz há razão e importância.

Como está na Sagrada Escritura, através de Josué Deus disse ao então povo eleito certas coisas relevantes que lhes havia feito, como bens objetivos de sua divina generosidade, desde o tempo de seus primeiros pais. A este respeito, por exemplo, está escrito: “Eu vos dei uma terra que não lavrastes, cidades que não edificastes, e nelas habitais, vinhas e olivais que não plantastes, e comeis de seus frutos” (Js 24,13)

Deus encheu o povo hebreu de benefícios e dele esperava, como bondade devida, o reconhecimento de sua Majestade e Benevolência, ante a qual é virtude a gratidão, como nas palavras do Salmo 135: “Demos graças ao Senhor, porque ele é bom: Porque eterno é seu amor!”. A este respeito, como um ensinamento da verdadeira religião, São Maximiliano Kolbe diz: “Quem quer que sejas, qualquer coisa que possua ou possas fazer, tudo o recebes a cada instante das mãos da misericórdia de Deus. Gratidão”.

“Ela destrói as heresias, não os hereges, já que os ama, deseja a conversão deles”

Cristo disse a Pilatos: “Sim, eu sou rei. É para dar testemunho da verdade que nasci e vim ao mundo. Todo o que é da verdade ouve a minha voz”. (Jo 18,37)

Na oração a Nossa Senhora Auxiliadora é dito: “Tu sozinha destruístes todas as heresias no mundo inteiro”.  Sobre esta afirmação, são Maximiliano Kolbe diz: “Ela destrói ‘as heresias’, não os hereges, já que os ama, deseja a conversão deles; e precisamente pelo amor que nutre por eles livra-os das heresias, destros neles as opiniões e convicções erradas”.

Em seu comentário sobre o oitavo mandamento, Santo Tomás de Aquino diz: “É um pecado mortal, por exemplo, mentir em assuntos de fé. Isso diz respeito aos professores, prelados e pregadores, e é o mais grave de todos os outros tipos de mentira: “Haverá entre vós professores mentirosos, que introduzirão seitas de perdição” (2Pd 2,1)”.  

No livro do profeta Isaías é dito: “Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem, mal, que mudam as trevas em luz e a luz em trevas, que tornam doce o que é amargo, e amargo o que é doce! Ai daqueles que são sábios aos próprios olhos, e prudentes em seu próprio juízo!” (5,20-21)

Em sua carta aos Gálatas, São Paulo Apóstolo diz: “De fato, não há dois (evangelhos): há apenas pessoas que semeiam a confusão entre vós e querem perturbar o Evangelho de Cristo. Mas, ainda que alguém – nós ou um anjo baixado do céu – vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema. Repito aqui o que acabamos de dizer: se alguém pregar doutrina diferente da que recebestes, seja ele excomungado!” (1,8-9).

No livro dos Provérbios é dito: “Vindo o orgulho, vira a ignomínia, mas a sabedoria mora com os humildes (…). Por falta de direção cai um povo, onde há muitos conselheiros, ali haverá salvação”.  (11,2;14)

“Aferra-te a instrução, não a soltes, guarda-a porque ela é tua vida”

Em Provérbios é dito: “Aferra-te a instrução, não a soltes, guarda-a porque ela é tua vida” (4,13).

A instrução, enquanto instrui na verdade, é algo valioso. E se quanto mais importante a realidade mais importante a verdade, então quanto mais importante a verdade mais importante a instrução. Na vida humana, a realidade das coisas divinas, a realidade do bem e do mal e a realidade da vida boa e feliz, possui grande importância, e desse modo grande valor possui a instrução sobre elas. Assim, é dito que a instrução “é tua vida”. Como exemplo, a este respeito é dito em Oséias: “Porque meu povo se perde por falta de conhecimento; por terdes rejeitado a instrução, te excluirei de meu sacerdócio” (4,6). Pelo que vale, a instrução deve ser entendida pela inteligência, conservada na memória e vivida pela vontade.

Pelas realidades e bens que envolvem, a instrução religiosa na verdadeira religião possui importância vital para o homem e, abaixo dela, a instrução filosófica na verdadeira filosofia tem grande valor. A este respeito, por exemplo, Santa Edith Stein diz sobre Santo Tomás de Aquino: “Uma ‘filosofia cristã’ considerará como sua mais nobre tarefa preparar o caminho da fé. Por essa razão, santo Tomás colocava tanto empenho em construir uma filosofia pura fundada na razão natural: porque somente dessa maneira se dá um trajeto do caminho comum com os incrédulos; se eles aceitam caminhar conosco esse trajeto do caminho, talvez se deixassem guiar mais longe do que teriam pensado no começo”.

São instruções que trazem sentido e compreensão para espíritos com potência de conhecer. Para estes, naturalmente a instrução é adquirida no tempo e, no que depende de sua vontade, deve permanecer no tempo.  

Eis porque a fé se chama “luz escura”

Santa Edith Stein diz: “Aceitando a fé segundo o testemunho de Deus, adquirimos conhecimento sem compreendê-los; não podemos aceitar as verdades da fé como evidentes, como verdades necessárias da razão ou como fatos da percepção dos sentidos: não podemos, tampouco, deduzi-las de verdades imediatamente evidentes segundos as leis da lógica. Eis porque a fé se chama “luz escura”.”

Na verdadeira religião, os conteúdos da fé são realidades reveladas por Deus ao homem. Com relação a elas, o Deus Onisciente é aquele que sabe e o homem é aquele que não sabe, e por isso Deus é aquele que ensina e o homem é aquele que aprende.

As realidades reveladas excedem a capacidade natural da razão humana, que possui poder limitado. A verdadeira fé é conhecimento e o que nela se aprende é verdade. A Santíssima Trindade em Deus, a realidade de haver três Pessoas divinas na única natureza divina, e a transubstanciação na Sagrada Eucaristia, o pão e o vinho que se tornam o Corpo e o Sangue de Cristo, dois mistérios da fé, são exemplos da fé como “luz escura”.  Assim, Santa Edith diz: “Aceitando a fé segundo o testemunho de Deus, adquirimos conhecimento sem compreendê-los”. Compreendê-los é o mesmo que vê-los cristalinamente, e isto será dado no Céu, de modo que: “Existe a plena verdade (…). Não só o que sabemos agora, mas também o que cremos agora, conheceremos de outra maneira quando chegarmos à pátria celestial”.

Mesmo as verdades evidentes, enquanto verdades necessárias da razão, como o princípio de que nada pode causar a si mesmo, ou enquanto percepções dos sentidos, como as palavras aqui vistas, mesmo elas “conheceremos de outra maneira quando chegarmos à pátria celestial”, porque serão vistas com luz divina, com participação no ser divino, o melhor dos bens para o homem.

São Tiago Apóstolo diz: “Toda dádiva boa e todo dom perfeito vêm de cima: descem do Pai das luzes, no qual não há mudança, nem mesmo aparência de instabilidade” (1,17). E Cristo diz: “Eu sou a luz do mundo; aquele que me segue não andará em trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12).

“Eis o principio da sabedoria: adquire a sabedoria”

Em Provérbios é dito: “Eis o principio da sabedoria: adquire a sabedoria. Adquire a inteligência em troca de tudo o que possuis” (4,7). Em outra parte é dito: “Adquire a verdade e não a vendas. Adquire sabedoria, instrução, inteligência” (23,23).

A sabedoria necessariamente é um bem superior, sem mistura com o mal. Por isso, quanto mais sabedoria melhor. A sabedoria é um valor absoluto, no sentido de que é importante em si mesma, e é para o homem um bem objetivo de primeira grandeza, uma perfeição pura que é absolutamente melhor possuir do que não possuir, de modo que o homem deve viver, nos atos que constituem sua vida no tempo, para adquirir a sabedoria.

A sabedoria ensina o dever de trabalhar para adquiri-la, o deve de obter inteligência custe o que custar, porque isto vale a pena, pelos frutos da sabedoria recebida, pelos bens que sua posse contém.

Cristo, Sabedoria Divina encarnada, disse: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).

Da coroação de espinhos e da crucificação do Divino Jesus

O terceiro mistério do santo terço mariano é a coroação de espinhos do Divino Jesus.

Objetivamente, Jesus é Rei, possui dignidade real. Deram-lhe uma coroa de espinhos com intenção humilhante, como negação de sua realeza e desprezo por sua vida. Da parte dos algozes, esse é um dos significados da coroa dada. Da parte de Cristo, a coroa recebida significa, entre outras coisas, a bondade de seu amor misericordioso, porque mostra até que ponto o Rei dos reis se rebaixou, ao máximo que podia, com imensa humilhação, para elevar o homem até onde poderia ser elevado, na máxima divinização, pela participação sobrenatural na natureza divina. Considerar o Cristo em sua Paixão e Ressureição é ver, como realidade objetiva, nas coisas como elas realmente são, o quanto Deus ama a criatura humana.

O quinto mistério do terço é a cruficação de Jesus puríssimo.

Na circunstância romana, a cruz valia por sua utilidade como instrumento para um fim, e foi dada a Cristo como instrumento para o sofrimento de punição, sem que Ele, o Homem-Deus, merecesse qualquer castigo. Ele assim a experimentou, porém fez dela um instrumento para outro fim, como fonte de bondades, sobretudo a salvação eterna das almas de boa vontade. Aqui está a Sabedoria divina criadora, que faz a “cruz maldita”, porque dos sofrimentos dos malfeitores, tornar-se a Cruz bendita, porque da salvação conseguida pelo supremo benfeitor. Em tudo isto se vê a verdade de que Deus, em sua Sabedoria onipotente, sabe tirar o bem do mal, e essa é uma das razões de Ele permiti-lo entre os homens, até mesmo entre os justos, que com o Cristo sofrem um sofrimento valioso.

“Moisés voltou do cume da montanha, trazendo nas mãos as duas tábuas da aliança”

Na Escritura divina é dito: “Naqueles dias, Moisés voltou do cume da montanha, trazendo nas mãos as duas tábuas da aliança, que estavam escritas de ambos os lados. Elas eram obra de Deus e a escritura nelas gravada era a escritura mesma de Deus”. (Êxodo 32,15-16)

A montanha é uma elevação em relação às demais porções de terra e o cume é seu ponto mais alto, o mais próximo do céu atmosférico. Deus é Logos, é Sentido, é Mestre, que fala por meio de palavras e acontecimento, de modo que em todos eles há razão e significado. Isto vale para a montanha, que, pelos exemplos da Sagrada Escritura, pode ser entendida como lugar de encontro com Deus e de revelação divina, ou seja, um lugar de dádivas especiais para pessoas agraciadas. Este é o caso de Moisés, o profeta, que no monte Horeb conversou com Deus, como dois amigos, e recebeu as tábuas da Lei, como benefício para o povo da aliança.

Deus é providente e não faz nada em vão. Para o povo eleito Ele providenciou um líder poderoso e virtuoso, providenciou uma libertação prodigiosa contra um rei hostil, providenciou uma terra cheia de bens para uma vida duradoura e agradável, providenciou um tempo no deserto para purificação aperfeiçoadora e provação meritória, e providenciou as leis da Sabedoria divina para discernimento do bem e do mal e para fazer o bem e evitar o mal, caminho de uma vida frutuosa e abençoada e caminho como do bem comum.