O Verbo Encarnado, o verdadeiro cristianismo e a religião da Imaculada

O anjo Gabriel é o anjo da verdade, aquele que diz toda a verdade em nome de Deus Uno e Trino. Maria Santíssima é aquela que acolhe integralmente a verdade recebida. Ambos possuem o interesse pela verdade, o interesse em conhecê-la e o interesse de que seja conhecida. A relação do anjo e Maria gira em torno da encarnação do Verbo Divino, que é a Sabedoria encarnada, a Verdade Vivente. Assim, toda a verdade no anjo, toda a verdade em Maria, toda a verdade em Cristo e toda a verdade no Espírito Santo, o Espírito da Verdade. Este é um entre vários exemplos inegáveis da importância suprema que a verdade tem no verdadeiro cristianismo e é ela mesmo um importante critério, absoluto, para distinguir o verdadeiro cristianismo, a verdadeira religião, no sentido de religião querida por Deus, do falso cristianismo, da falsa religião, a religião inventada pela criatura (humana ou não), conforme os interesses do amor próprio em oposição a Deus, que até pode ser uma “religião” de meias-verdades.

Reconhecer a grandeza do ser de Maria não significa negar o ser de Deus enquanto Deus, o que seria idolatria, portanto ilusão, falsidade. Significa o contrário: neste reconhecimento afirmamos o Ser de Deus, aquilo que Ele é em sua onipotência, infinita sabedoria e bondade sem fim. A grandeza da criatura diz algo da grandeza do Criador. Maria é o que é, recebeu o que recebeu de Deus, em razão de sua humildade, uma virtude, a maior das virtudes de uma criatura, que diz respeito à relação entre criatura e Criador. Assim, venerá-la, como catolicamente se faz, é estimá-la também em sua humildade, que significa sua relação com a verdade. Onde há humildade não há idolatria. Onda há humildade, Deus não é negado e sim reconhecido.

Na vida humana como um todo, o que inclui a vida religiosa, é importante possuir na medida do possível a consciência do que é verdadeiro e do que é falso. Alguns exemplos podem ser encontrados nas Sagradas Escrituras. Cristo fala de verdadeiros adoradores, que são aqueles que o Pai deseja, o que supõe haver falsos adoradores que, por oposição, o Pai não deseja, consequentemente algo negativo. São Tiago fala de verdadeira sabedoria divina, no sentido de vir do alto, o que supõe existir uma falsa sabedoria (diabólica, nas palavras do apóstolo). São Pedro fala de falsos doutores, São Paulo de falsos apóstolos e Cristo fala de falsos profetas, o que supõe haver verdadeiros doutores, apóstolos e profetas, que merecem ser ouvidos, ser levados a sério como porta-vozes da verdade. O próprio Cristo e São João Apóstolo fala de falsos cristos, o que supõe haver um e apenas um verdadeiro Cristo.

O verdadeiro e o falso, a verdade e a falsidade, têm por essência relação com o ser, de modo que no sentido aqui considerado, um sentido inegável, é verdade o que é realmente assim e é falsidade o que não é realmente assim. Neste caso, quanto mais importante é em si mesmo e para o homem um ser, uma realidade, então mais importante é o verdadeiro e o falso. É mais importante a verdade e a falsidade em religião, por ter que ver com o destino eterno da pessoa (felicidade ou perdição eterna, céu ou inferno definitivos), do que em história do futebol.

Se me engano quanto a não existir demônios e inferno, isto é mais grave do que me enganar na quantidade de copas do mundo que o Brasil tem. Isto significa que há diferenças no ser e diferenças em importância, em valor, portanto uma escala, uma hierarquia que é por si mesma, independente da minha vontade, que não é algo que eu crio, como se fosse Deus, e sim apreendo.

A verdadeira consciência crítica, que é antes de tudo a que diz respeito ao verdadeiro e ao falso, é em certa medida parte importante da verdadeira religião, da religião do Cristo, católica, conforme toda a verdade, do Cristo mostrado nas Sagradas Escrituras como o Cristo mestre, que instrui com verdades importantes e é ele mesmo a Verdade Vivente, o Logos Eterno encarnado.

Tão importante quanto conhecer a verdade é permanecer na verdade conhecida, manter-se fiel a ela. O sábio em parte é aquele que sabe o que passa e sabe o que permanece e, por esta razão, mantém suas convicções, sua verdadeira consciência. Um dos significados disto em linguagem filosófica é: sabe o que é contingente e sabe o que é necessário (sempre o mesmo, e neste sentido eterno). O quadrado, enquanto essência-logos, é sempre o mesmo, sempre uma figura geométrica com quatro lados iguais e quatro ângulos de 90º. Isto é essencialmente necessário no ser do quadrado, algo sem o qual ele não seria o que é, mas seria outra coisa (se alguma coisa for). Se é assim, então não é verdade que tudo muda: há a realidade das coisas imutáveis, a primeira delas a própria Essência Divina Vivente.

A este respeito diz o filósofo Leibniz: “O conhecimento das coisas eternas e necessárias nos distingue dos simples animais e nos põe na posse da razão e das ciências, elevando-nos ao conhecimento de nós mesmos e de Deus”. Assim, parte importante da sabedoria humanamente alcançável é o senso de eternidade. Isto com relação ao homem, pois em si mesma a sabedoria é a eternidade, dois nomes para Deus. Sobre isto diz São Boaventura que todos os atributos de Deus “podem reduzir-se a três, a saber: a eternidade, a sabedoria e a felicidade; e estas três a uma: a sabedoria, na qual se incluem a mente que gera, o Verbo gerado e o amor que une a ambos, e nos quais a fé ensina que consiste a Santíssima Trindade”.

Inegavelmente, o Cristo mostrado nas Sagradas Escrituras é o Cristo mestre, que instrui com verdades importantes e é ele mesmo a Verdade Vivente. Parte importante de seu vivo ensinamento é: permaneçam na verdade, permaneçam em mim. Assim, é da essência da imitação de Cristo o reconhecimento do valor de toda e qualquer verdade, sobretudo daquelas que são mais importantes, pois há uma escala nas verdades. Por relação, opor-se virtuosamente à falsidade conhecida em nome da verdade conhecida é algo que agrada a Deus, no qual não há trevas alguma, nenhuma falsidade.  
 
Isto considerado, um ponto importante que mostra a diferença essencial entre o verdadeiro catolicismo e seitas que se dizem cristãs, sobretudo as do protestantismo, é a Santa Eucaristia. Cristo disse: quem é da verdade ouve a minha voz. Cristo não pode estar contra Cristo. Ou Ele disse que há Eucaristia tal como é ensinado pela Igreja Católica de sempre, ou não disse e, neste caso, seus atos e suas palavras a este respeito possuem outro significado. Seja como for, há aqui algo de máxima importância: um dos lados perverteu as palavras de Cristo, perverteu o caminho do Senhor, em algo que tem valor para a salvação das almas, para a vida eterna. Em algum dos lados a falsidade prevaleceu e se vive no engano

O indiferentismo religioso que não considera as religiões do ponto de vista da verdade-falsidade, que significa assim uma negação da suprema importância que a verdade possui por si mesma, é um daqueles importantes enganos que enganam, uma perversão que perverte, pois não é possível que todas as “religiões” sejam, cada uma em sua totalidade, verdadeiras, já que inegavelmente há entre elas oposições vitais, isto é, uma é a negação da outra.

Para dar um só exemplo, em múltiplos exemplos existentes: não é possível ser ao mesmo tempo verdadeiro católico e espírita, uma vez que a “reencarnação” é inconciliável com a Ressureição, o “Jesus dos espíritas” inconciliável com o Cristo Verbo encarnado e eucarístico, e assim por diante.

Se é assim, pelo menos em grande parte das inúmeras religiões essencialmente contraditórias há falsidade, engano, ilusão, consequentemente algo que não provém de Deus. Diz as Sagradas Escrituras que os caminhos do Senhor são verdade e amor. Neste sentido, a verdadeira religião, aquela que agrada a Deus, que tem realmente a presença divina, é a religião da verdade, de toda a verdade, a religião da Imaculada, sem a mancha da falsidade, sem as impurezas da ilusão. Onde há falsas religiões ou religiões que tem em parte de sua essência falsidades, há doses de idolatria, ídolos, e pelo menos em alguns casos demônios.

Um exemplo das Escrituras: o profeta Elias e os falsos profetas de Baal. Em certa circunstância, disse Elias para o povo de Israel: “Até quando claudicareis dos dois pés? Se o Senhor é Deus, segui-o, mas se é Baal, segui a Baal”. E para mostrar ao povo o verdadeiro Deus, Elias desafiou os profetas de Baal: “Invocareis o nome de vosso deus, e eu invocarei o nome do Senhor. Aquele que responder pelo fogo, esse será reconhecido como o verdadeiro Deus”. Resultado: como os falsos deuses, os ídolos, não têm por si mesmos poder nenhum, o Deus de Elias mandou fogo, enquanto o falso deus dos profetas de Baal não acendeu nem mesmo um fósforo.

Diz o Cristo: “Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz”.