A morte pela visão da fé verdadeira

“O aspecto natural da morte experimenta, pela fé, duas modificações: em primeiro lugar, a morte contém um sentido enquanto castigo pelo pecado original. A segunda modificação é, no entanto, incomparavelmente mais profunda: após a morte ocorre a grande decisão sobre nosso destino eterno.

Se o ter que morrer, como destino universal do homem, é um castigo pela culpa de Adão, então o Juízo que espera cada um após a morte se refere a se esta pessoa concreta está ou não vestida com a veste de festa, ou seja, se morreu em estado de graça, na atitude fundamental de buscar a Deus e de amar a Deus. Este Juízo tem como resultado a condenação eterna ou a bem-aventurança eterna. Aguardamo-lo com temor e esperança.

Neste aspecto, a morte não é de modo algum o que parece ser do ponto de vista natural e ingênuo. Não tem nada a ver com o instante em que desaparece tudo o que nos movia profundamente em nossa vida, tudo o que fizemos ou deixamos de fazer. Precisamente neste momento adquire a maior importância o modo como vivemos. É verdade que se perdem na insignificância as coisas que careciam de valor e que só nos atraíam enquanto agradáveis, especialmente todos os interesses mundanos em que nos ocupávamos. Mas se demos a resposta que devíamos dar aos mandamentos de Deus, se seguimos ou não o chamado de Jesus, se ansiamos por alcançar a transformação em Cristo e vivemos toda a nossa vida sob este ponto de vista, nossa vida adquire uma significação extraordinária, a verdadeira, a significação autenticamente válida.

(…) Esta insondável grandeza de Deus expressa-se no tomar a sério o homem criado à sua imagem. Culmina, por assim dizer, na importância eterna e absoluta que Ele atribui ao comportamento do homem — ao qual concedeu uma vontade livre — e, por isso, à antítese do bem e do mal, que representa o eixo do universo espiritual.

(…)

Como já foi dito, o ponto a que se chega na conquista deste aspecto glorioso da morte depende da robustez da nossa fé. Aqui há muitos graus: desde uma fé mais convencional, sustentada pelo ambiente e por pura tradição, até uma fé pessoal e viva e, desta, até à fé inabalável que encontramos nos santos. Esta fé vitoriosa que move montanhas supõe a plena aplicação do nosso espírito, a absoluta segurança da nossa convicção.

(…)

A fé é uma graça outorgada por Deus; no entanto, exige da nossa parte uma grande cooperação. A nossa alma tem de estar preparada para receber a Revelação e responder a ela livremente. Quando Jesus disse ao apóstolo Tomé: «Bem-aventurados os que não viram e creram» (Jo 20, 29), é porque «ver» significa precisamente a comprovação natural de um fato (…). Na base da resposta à epifania de Deus encontra-se uma livre tomada de posição. Muitas pessoas fogem da fé, fecham as suas almas quando a graça de Deus chama. Outras entregam-se livremente, abrem as suas almas ao dom de Deus e rogam pelo crescimento da sua fé. Das palavras de Cristo: «Quem crer e for batizado será salvo; quem não crer será condenado» (Mc 16, 16), depreende-se claramente que na fé se encontra também implícita uma plena cooperação da nossa parte, que também ao crente se aplica o dito de Santo Agostinho: «Qui ergo fecit te sine te, non te justificat sine te» («Pois quem te fez sem ti, não te salvará sem ti»).

(…)

Tudo o que é terrível no aspeto natural da morte, a temível decomposição do corpo, a transição para algo totalmente desconhecido, o desaparecimento diante do nosso espírito de toda a realidade que nos rodeia, passa para segundo plano diante da esperada união bem-aventurada com o infinitamente Santo, com a Fonte da nossa bem-aventurança, com o Amado acima de todas as coisas. O que é horrível fica reposto em segundo plano na medida em que o nosso amor é incondicional, ilimitado, impaciente; mas não desaparece por completo”. (Dietrich von Hildebrand, em “Sobre la Muerte”)

Cristo: Redentor no qual devem confiar e Legislador o qual devem obedecer

Conforme a profecia de Isaías, Cristo é o Servo sofredor, coberto de dores e cheio de sofrimentos, mas que seria bem sucedido e teria uma ascensão ao mais alto grau, o que significa os fatos de sua Paixão redentora e de sua Ressureição gloriosa. “Ei-lo, o meu Servo será bem sucedido; sua ascensão será ao mais alto grau. Assim como muitos ficaram pasmados ao vê-lo – tão desfigurado ele estava que não parecia ser um homem ou ter aspecto humano -, do mesmo modo ele espalhará sua fama entre os povos. Diante dele os reis se manterão em silêncio, vendo algo que nunca lhes foi narrado e conhecendo coisas que jamais ouviram”. (Is 52,13-53)

São Paulo ensina que Cristo “tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (Hb 5,9). Quer dizer, é certo que a salvação vem pela fé, mas pela fé entendida como obediência da fé, que significa fazer algo, portanto, uma fé viva pelas obras. A obediência a Cristo inclui o cumprimento dos mandamentos, como Ele ensinou ao jovem rico, e inclui, por exemplo, as obras de misericórdia, como Ele ensinou ao falar do Reino dos Céus e os benditos que lá estarão pela misericórdia exercida e do castigo eterno para os malditos que deixaram de exercer a misericórdia. Nessa parábola, o decisivo para o destino de cada um é o fez e ou deixou de fazer.

Cristo foi dado por Deus aos homens como redentor no qual devem confiar e como legislador o qual devem obedecer. Para a salvação e a santificação, as duas coisas são importantes. O Cristo salvador é o Cristo obediente até a morte na Cruz. Obedecer é fazer a vontade de Deus, pela qual o homem se une a Ele. Se o homem se une a Deus pela vontade, também se afasta dele pela vontade.

Como o caminho de Cristo é o caminho da obediência à verdade, é importante que todos saibam não apenas o que devem crer e seguir mas também o que devem evitar e do que devem fugir. Isto corresponde ao faça o bem e evite o mal ensinado pela palavra da Escritura, como por exemplo é dito em Isaías: “Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem” (1,17).   

“Se eu não te lavar, não terás parte comigo”

Como Mestre e Senhor, como causa exemplar, Jesus lavou os pés de seus discípulos para ser imitado verdadeiro significado desse ato. Cristo é o Servo do Pai eterno, do qual deve surgir novos servos, participantes de sua servidão virtuosa e frutuosa, que glorifica a Deus, como Ele merece. O servo serve algo a alguém, por meio dele são distribuídas bondades do Bem que é a fonte de todos os bens. Os sacerdotes de Cristo, como membros da ordem sacerdotal eucarística, são servos para ensinar a verdadeira fé, para governar como bons pastores e para santificar com os sacramentos, sobretudo com a Sagrada Eucaristia.

Cristo disse para seus discípulos comerem o pão consagrado e beberem o vinho consagrado, que no ato divino de consagração sacramental se tornam o corpo e o sangue da Sagrada Humanidade de Cristo unida hipostaticamente à sua Divindade eterna. Para o homem que é união de corpo e alma espiritual e necessitado de Deus para uma vida feliz, o Pão celeste é o alimento divino e espiritual, cheio de força e sabor, com frutos de virtude e vida eterna. É o Corpo e o Sangue do sacrifício do calvário e o Pão e o Vinho da santa ceia, como graça superabundante do excesso de bondade da Misericórdia divina onipotente.

O “fazei isto em minha memória”, corretamente entendido, é a Santa Missa da verdadeira Igreja de Cristo realizada por seus verdadeiros sacerdotes, que pelo sacramento receberam o poder e a dignidade sacerdotal da nova aliança, participantes do sacerdócio de Jesus, servos com o Servo.

Cristo, entregue em sacrifício como dádiva da Misericórdia do Pai Onipotente, para livrar o homem miserável do domínio do opressor maligno e da morte tenebrosa, é o Cordeiro de Deus, sem defeito, servido como alimento na Sagrada Eucaristia, como fruto da Páscoa da Ressureição ao terceiro dia, no dia do Senhor, o oitavo dia da criação.  

Judas não estava predestinado à condenação, como não está nenhum homem

No Evangelho é dito: “Então, falou Judas Iscariotes, um dos seus discípulos, aquele que o havia de entregar: “Por que não se vendeu este perfume por trezentas moedas de prata, para as dar aos pobres?” Judas falou assim não porque se preocupasse com os pobres, mas porque era ladrão; ele tomava conta da bolsa comum e roubava o que se depositava nela. Jesus, porém, disse: “Deixa-a; ela fez isto em vista do dia de minha sepultura. Pobres, sempre os tereis convosco, enquanto a mim, nem sempre me tereis”.” (Jo 12,1-11)

O discurso de Judas Iscariotes a favor dos pobres, de aparente bondade, estava acompanhado de motivação maliciosa. O apóstolo desviante via naquilo um modo de satisfazer seu interesse egoísta, contra a verdadeira caridade, e para isso estava disposto a enganar, contra os conselhos do Divino Mestre. Judas era um escolhido, destinado a grande glória como Apóstolo; andava com Cristo, mas sua mente e seu coração estavam distantes de Cristo. Era terreno, afeito a coisas terrenas, cheio de ideias próprias, contrárias à Sabedoria divina, e de vontade própria, contrária à Vontade divina, que é sempre a vontade da Bondade, a melhor vontade.

Judas não estava predestinado à condenação, como não está nenhum homem, porque Deus quer que todos se salvem a cheguem ao conhecimento da verdade. Desse modo, ele poderia não ter feito o que livremente fez, embora instigado pelo demônio, o pai da mentira, a serpente maliciosa. O coração soberbo e a vontade perversa de Judas foram sua perdição; poderia não ter traído, e depois de trair Cristo poderia ter se arrependido, como Pedro se arrependeu, e ao receber o perdão começou um novo momento em sua vida, como o Salmista do Salmo 50, pela Misericórdia de Deus, que não impôs limite numérico aos seus perdões, embora a imensidão da misericórdia de Deus não deva ser vista como motivo para pecar à vontade e o caminho prudente seja o homem arrependido se esforçar para não cair novamente no pecado, como foi dito a mulher adúltera: “Vai e não peques mais”.

O mau caminho de Judas inclui a desconfiança da Sabedoria divina, que não pensa o mesmo que os homens, e nisso ele traiu Jesus, e inclui o desespero da Bondade divina, e nisso se enforcou, movido pelo desespero do remorso destruidor, pelos tormentos em que a serpente homicida o envolveu.       

“O ‘hosana’ ressoava no Coração de Jesus como um eco do ‘crucifica-O!'”

“Via Nosso Senhor montado no burrinho, os discípulos e as grandes multidões que O acompanhavam, cheias de júbilo, com ramos nas mãos. Uns os jogavam aos pés de Jesus, que passava, outros os agitavam no ar, pulando e saltando diante do Senhor, sem saber o que fazer de alegria. E vi uma outra multidão, e pequenas crianças, que saiam ao encontro de Jesus da mesma forma, com rostos radiantes de alegria e com ramos nas mãos, que incessantemente gritavam de alegria — mas Jesus estava muito sério. O Senhor deu-me a conhecer como sofreu nessa hora. Nesse momento, eu nada mais via, a não ser Jesus, que tinha o Coração saturado de ingratidão (D. 642). Jesus deu-me a conhecer quanto sofreu nesse cortejo triunfal. O “hosana” ressoava no Coração de Jesus como um eco do “crucifica-O!” Jesus permitiu que eu o sentisse de maneira especial (Santa Faustina, em seu “Diário”, nº 1028).

“Eu também não te condeno…E de agora em diante não peques mais”

No Evangelho é dito: “Naquele tempo, 1 Jesus foi para o monte das Oliveiras. 2 De madrugada, voltou de novo ao Templo. Todo o povo se reuniu em volta dele. Sentando-se, começou a ensiná-los. 3 Entretanto, os mestres da Lei e os fariseus trouxeram uma mulher surpreendida em adultério. Colocando-a no meio deles, 4 disseram a Jesus: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. 5 Moisés na Lei mandou apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?” 6 Perguntavam isso para experimentar Jesus e para terem motivo de o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, começou a escrever com o dedo no chão. 7 Como persistissem em interrogá-lo, Jesus ergueu-se e disse: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. 8 E tornando a inclinar-se, continuou a escrever no chão. 9 E eles, ouvindo o que Jesus falou, foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos; e Jesus ficou sozinho, com a mulher que estava lá, no meio do povo. 10 Então Jesus se levantou e disse: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?” 11 Ela respondeu: “Ninguém, Senhor”. Então Jesus lhe disse: “Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”. (Jo 8,1-11)

Cristo não aprovou o adultério, porque ele é Deus, que jamais aprova o pecado, mas tratou com misericórdia viva e vivificante a mulher pega em adultério com misericórdia, dando-lhe uma nova chance e uma nova vida, conforme o que é dito na Escritura: Deus não quer a morte do pecador mas que ele se converte e viva. O homem já tem a doença do pecado, mas por si mesmo não tem a cura. Cristo veio trazer a cura para quem quer ser curado. Como médico, a cura é do jeito que Ele disser e não conforme as ideias próprias do doente, que nada sabe e nada pode. A humildade do doente miserável permite a ação eficaz do médico em sua misericórdia sábia e poderosa.

O que a mulher adúltera fez era condenável, pois, caso não fosse, Cristo não teria dito “não peques mais”. Porém, ele não a condenou, o que significa que não lhe deu uma sentença de morte mas sim o perdão. A misericórdia de Deus, como todos os seus atributos divinos, deve ser corretamente entendida, sem confusões. Ela, por exemplo, jamais significa aprovação do pecado, que é odiável por si mesmo e sempre odiado por Deus como negação de sua Bondade, mas significa um excesso de bondade para com o pecador, no sentido de tirá-lo da miséria do pecado e de suas consequências. Daí que é próprio da misericórdia o perdão e com Cristo a reparação que abre as portas da liberdade e da vida eterna feliz. Porém, não há perdão efetivo sem efetivo arrependimento e conversão, assim como não há glória sem verdadeiro mérito. A obra da salvação é obra da misericórdia divina onipotente na qual está contida a justiça, na simplicidade e imutabilidade do Ser Divino infinito.  

“Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria”

No livro do profeta Isaías é dito: “Isto diz o Senhor, que abriu uma passagem no mar e um caminho entre águas impetuosas; 17 que pôs a perder carros e cavalos, tropas e homens corajosos; pois estão todos mortos e não ressuscitarão, foram abafados como mecha de pano e apagaram-se: 18 “Não relembreis coisas passadas, não olheis para fatos antigos. 19 Eis que eu farei coisas novas, e que já estão surgindo: acaso não as reconheceis? Pois abrirei uma estrada no deserto e farei correr rios na terra seca. 20 Hão de glorificar-me os animais selvagens, os dragões e os avestruzes, porque fiz brotar água no deserto e rios na terra seca para dar de beber a meu povo, a meus escolhidos. 21 Este povo, eu o criei para mim e ele cantará meus louvores””. (Is 43,16-21)

O poder onipotente de Deus, que sempre o acompanha, é capaz de fazer maravilhas. Esse poder está sempre a disposição de sua bondade infinita, exercida como misericórdia ou justiça, com relação às criaturas. Deus possui total domínio sobre a matéria e o espírito, sobre o mundo material e o mundo espiritual por Ele criados do nada e mantidos em sua existência. Deus é a Causa total do ser, de modo onipresente, como Sabedoria onisciente, Bondade infinita e Poder onipotente. Como tal, governa todas as coisas, até as mais ínfimas. É o Deus providente, desde a eternidade que lhe é própria. Como diz a Escritura, em seu poder é capaz de “abrir passagem no mar e um caminho entre as águas impetuosas”, é capaz de “criar um povo para si e fazer cantar seus louvores”. A este respeito, no Salmo 125 é dito: “Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria” (3).

“Ninguém jamais falou como este homem”

“Naquele tempo, ao ouvirem as palavras de Jesus, algumas pessoas da multidão diziam: “Este é, verdadeiramente, o Profeta”. Outros diziam: “Ele é o Messias”. Mas alguns objetavam: “Porventura o Messias virá da Galileia? Não diz a Escritura que o Messias será da descendência de Davi e virá de Belém, povoado de onde era Davi?” Assim, houve divisão no meio do povo por causa de Jesus. Alguns queriam prendê-lo, mas ninguém pôs as mãos nele. Então, os guardas do Templo voltaram para os sumos sacerdotes e os fariseus, e estes lhes perguntaram: “Por que não o trouxestes?” Os guardas responderam: “Ninguém jamais falou como este homem”. Então os fariseus disseram-lhes: “Também vós vos deixastes enganar? Por acaso algum dos chefes ou dos fariseus acreditou nele? Mas esta gente que não conhece a Lei, é maldita!”(…)”. (Jo 7,40-49)

Para os sumos sacerdotes e certos fariseus aceitar as palavras de Cristo era se deixar enganar, e acreditar nele era coisa de quem não conhecia a Lei. Porém, como a Sabedoria já tinha dito como profecia, eles estavam cegos por sua malícia, não queriam saber nem compreender, não andavam no caminho da verdade, eram homens de cabeça dura, com a inteligência fechada para a verdade vivente que lhes falava.

“Houve divisão no meio do povo por causa de Jesus”, entre aqueles que diziam ser Ele “o Profeta”, “o Messias” e aqueles que negavam. Entre aqueles que negavam que Cristo é o Messias há os que negavam por alguma ignorância e outros por malícia, como cegos que não querem ver. Sem incluir a “ignorância invencível”, ambas são culpáveis, embora em graus diferentes de gravidade e pena merecida. O que é dito sobre a negação de Cristo vale também para a negação de sua verdadeira Igreja, Católica, fora da qual não há salvação.

Cristo é a Verdade encarnada e tudo o que disse é verdadeiro, é a Sabedoria encarnada e tudo o que disse é foi dito com sabedoria, e por isso alguns afirmaram “Ninguém jamais falou como este homem”. A divisão é causada pela vontade humana, por aqueles que não acreditavam. Na divisão, se há culpados, culpa têm aqueles que estão do lado da falsidade e da maldade. O filósofo Dietrich von Hildebrand diz: “Na realidade existiram apenas duas frentes no mundo nos últimos dois mil anos: a frente por Cristo e aquela contra Cristo. Ela é a pedra-de-toque que separa todos os espíritos. Quaisquer outras antíteses desviam da questão decisiva e, portanto, permanecem superficiais”.

“A oração do justo tem grande eficácia”

Deus, como justo juiz, em seu pleno direito, manifestou a Moisés a ideia de exterminar o povo idólatra e ingrato, o que significa que Ele poderia fazê-lo e o povo merecia. Porém, por excesso de bondade de sua misericórdia e pela intercessão de Moisés, homem de predileção, Deus não executou o extermínio e lhes deu nova oportunidade. Vale para a intercessão de Moisés o que é dito por São Tiago Apóstolo: “A oração do justo tem grande eficácia” (Tg 5,16). Por causa dos justos, que lhes são agradáveis, como amigos, Deus deixa de executar muitos castigos merecidos pelo povo e pela humanidade.

Os castigos de Deus não são males que o criador faz, porque em Deus não há maldade e Ele jamais quer o mal. Tais males são males para os homens enquanto privados de certos bens por merecimento ante a justiça divina, pelos males morais cometidos nas escolhas de seu livre-arbítrio. Neste sentido deve ser entendido o que é dito na Escritura: “E o Senhor desistiu do mal que havia ameaçado fazer ao seu povo”. (Ex 32,14)

Quando fala de Deus, é próprio da linguagem da divina revelação a analogia, que é uma síntese de semelhança e diferença. Assim, por exemplo, quando a Escritura fala de “desistência”, “arrependimento” ou “ira” de Deus, deve ser entendido pela semelhança, analogicamente. Deus “desistiu” significa que, ante as diferentes possibilidades, prevaleceu uma na decisão divina, aquela pedida por Moisés, e assim, pelos efeitos, Deus decidiu não punir o povo com a aniquilação merecida. No caso, o desistir não significa uma imperfeição de Deus, como se fosse um homem, mas sim serve para enfatizar a sua Misericórdia e a intercessão de Moisés. Assim, diz o salmo 105: “Até pensava em acabar com sua raça, não se tivesse Moisés, o seu eleito, interposto, intercedendo junto a ele, para impedir que sua ira os destruísse”. (23)   

As duas medidas de Deus: a Misericórdia e a Justiça

Diz a sabedoria católica que a Misericórdia divina está para a miséria humana, que Deus é dito misericordioso porque tira o homem da miséria. A misericórdia é uma virtude divina, um poder onipotente totalmente eficaz ante qualquer miséria humana; é um tipo de amor, no qual o miserável recebe, não como recompensa da justiça, sem merecimento, alguma bondade que atinge sua miséria.

Em Deus não há contradição nem desarmonia, e assim a misericórdia divina não contraria a justiça divina, outro atributo imutável de Deus, mas sim a supera por certo excesso de bondade. A medida da justiça é o merecimento, com o qual se recebe conforme a obra realizada, seja boa ou má, enquanto a medida da misericórdia, pelo excesso de bondade, ultrapassa essa medida, sem ser injustiça. A este respeito no salmo 129 é dito: “Se tiverdes em conta nossos pecados, Senhor, Senhor, quem poderá subsistir diante de vós? Mas em vós se encontra o perdão dos pecados, para que, reverentes, vos sirvamos”. (3-4)

A misericórdia é ressaltada no perdão e acolhimento do pecador arrependido, como é o caso do pai misericordioso da parábola do filho pródigo. Deus é misericordioso porque também perdoa os pecados daqueles que se arrependem, e esse perdão tem seu efeito, pois quem peca e permanece em seus pecados mortais perde muitos bens, sobretudo o bem da vida eterna, sem a qual o que há é a miséria eterna do inferno de sofrimentos sem fim, sem alguém ou algum remédio que possa ajudar.

Assim, porque é misericordioso Deus ensina a misericórdia, e nisso perdoa e ensina o perdão, como está na oração do Pai Nosso. Pertence aos ensinamentos do Evangelho que aquele que não perdoar não será perdoado e com a mesma medida que alguém julgar será ele mesmo julgado. Para Deus há duas medidas: a da misericórdia e a da justiça. Quem rejeita as graças da primeira, ficará com o julgamento severo da segunda.

Cristo misericordioso disse a Santa Faustina: “Que toda a humanidade conheça a Minha insondável misericórdia. Este é o sinal para os últimos tempos; depois dele virá o dia da justiça”. (848); “Quem não quiser passar pela porta da Misericórdia, terá que passar pela porta da minha justiça…”. (1146); “Feliz a alma que, durante a vida, mergulhou na fonte da misericórdia, porque não será atingida pela justiça” (1075).