“Quem me dera que meu povo me escutasse!”

O profeta Oséias diz: “Assim fala o Senhor Deus: “Volta, Israel, para o Senhor, teu Deus, porque estavas caído em teu pecado. Vós todos, encontrai palavras e voltai para o Senhor; dizei-lhe: ‘Livra-nos de todo o mal e aceita este bem que oferecemos; o fruto de nossos lábios. A Assíria não nos salvará; não queremos montar nossos cavalos, não chamaremos mais ‘deuses nossos’ a produtos de nossas mãos; em ti encontrará o órfão misericórdia. Hei de curar sua perversidade e me será fácil amá-los, deles afastou-se a minha cólera. Serei como orvalho para Israel; ele florescerá como o lírio e lançará raízes como plantas do Líbano. Seus ramos hão de estender-se; será seu esplendor como o da oliveira, e seu perfume como o do Líbano. Voltarão a sentar-se à minha sombra e a cultivar o trigo, e florescerão como a videira, cuja fama se iguala à do vinho do Líbano. Que tem ainda Efraim a ver com ídolos? Sou eu que o atendo e que olho por ele. Sou como o cipreste sempre verde: de mim procede o teu fruto.  Compreenda estas palavras o homem sábio, reflita sobre elas o bom entendedor! São retos os caminhos do Senhor e, por eles, andarão os justos, enquanto os maus ali tropeçam e caem””. (Os 14,2-10)

Para o povo caído no pecado, Deus dirige seu apelo de conversão, sua convocação para voltarem para Ele, e diz palavras de esperança. Parte dos pecados de povo de Israel era confiar sua salvação em um povo pagão, em vez de confiar em Deus, e sua infidelidade adúltera com falsos deuses, produtos de suas mãos. A volta sincera para Deus está cheia de bondades, como promessas do próprio Senhor onipotente.

A tentação da idolatria, com a invenção de falsos deuses, recebedores de culto e o apego nos corações iludidos, como substitutos do verdadeiro Deus, que é Deus desde sempre e para sempre, é frequente na história do povo da antiga aliança e na história dos homens, que frequentemente caem nesse pecado e nele permanecem.

O povo de Israel por diversas vezes não quis ouvir nem prestar atenção, não quis ver nem compreender as verdades que seu Deus lhes comunicava, e nisso se privava de muitos bens que o coração divino era desejoso de lhe conceder. Ao desprezarem a verdade e a virtude, ficavam com as privações da ilusão e de pecado. Assim, por exemplo, Deus diz no salmo 80:  “Quem me dera que meu povo me escutasse! Que Israel andasse sempre em meus caminhos. Eu lhe daria de comer a flor do trigo, e com o mel que sai da rocha o fartaria”.

“Mas eles não ouviram e não prestaram atenção”

No livro do profeta Jeremias é dito: “Assim fala o Senhor: “Dei esta ordem ao povo dizendo: Ouvi a minha voz, assim serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo; e segui adiante por todo o caminho que eu vos indicar para serdes felizes. Mas eles não ouviram e não prestaram atenção; ao contrário, seguindo as más inclinações do coração, andaram para trás e não para a frente, desde o dia em que seus pais saíram do Egito até ao dia de hoje. A todos enviei meus servos, os profetas, e enviei-os cada dia, começando bem cedo; mas não ouviram e não prestaram atenção; ao contrário, obstinaram-se no erro, procedendo ainda pior que seus pais. Se falares todas essas coisas, eles não te escutarão, e, se os chamares, não te darão resposta. Dirás, então: ‘Esta é a nação que não escutou a voz do Senhor, seu Deus, e não aceitou correção. Sua fé morreu, foi arrancada de sua boca’ “. (Jr 7,23-28)

Por meio de seus mensageiros, Deus sempre ensinou o povo e os homens a ouvir sua voz, que em tudo e para tudo é sempre a voz da Sabedoria, da Ciência criadora de todas as coisas, da qual tudo depende absolutamente. Assim, no livro do profeta Jeremias é dito: “Ouvi a minha voz, assim serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo”. E no salmo 94 é dito: “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz: “Não fecheis os corações como em Meriba…”.

Pelas palavras de Jeremias, pode-se dizer que os verdadeiros profetas são como que a voz de Deus entre os homens, que dizem suas palavras de verdade, instrumentos da Sabedoria amorosa para benéfica instrução do povo e dos homens. A Bondade divina é sempre o motivo da Vontade divina. Em seu modo de agir, tudo o que Deus faz tem finalidade, é dirigido para um fim. Assim, Deus fez suas alianças, fez o povo, fez os profetas, e fez o céu e a terra. Quando se fala nos desígnios de Deus, isto significa as finalidades de suas decisões e ações desde toda a eternidade, enquanto Governante supremo de toda a realidade criada. A este respeito, o salmo 32 é dito: “Da bondade do Senhor está cheia a terra. Pela palavra do Senhor foram feitos os céus (…) Só os desígnios do Senhor permanecem eternamente e os pensamentos de seu coração por todas as gerações”.

Por diversas vezes na história o povo escolhido, povo agraciado, em seus homens de cabeça dura e coração insensível, que não queriam saber nem compreender, não deu ouvidos nem prestou atenção à voz de Deus e não aceitou sua correção amorosa, feita para seu bem. Isto é dito do povo da antiga aliança e de certo modo vale para o povo da nova aliança, nos seus membros que dessa maneira se comportam.

Anunciação angélica e Encarnação redentora: “Com prazer faço a vossa vontade”

Como diz o teólogo Garrigou-Lagrange, “a profecia, em sentido próprio, é o dom de conhecer e prever seguramente o futuro por inspiração divina”. E Santo Tomás de Aquino ensina que a mente do profeta é antes de tudo iluminada. Desse modo, o verdadeiro profeta recebe certos conhecimentos superiores comunicados pela consciência Divina onipotente que tudo sabe de modo todo simultâneo. Isaías, um profeta, homem de Deus escolhido, portador desse dom, recebeu a profecia sobre a virgem e seu Filho santo, o verdadeiro e único Messias, o Emanuel, Deus conosco pela Encarnação redentora. Em geral, nas profecias não é dito tudo em todos os detalhes, mas é dito algo importante e seu significado essencial. O fato da profecia em questão é um sinal para o povo de Israel e para a casa de Davi, algo que mostrará a presença de Deus e sua Providência onipotente cheia de bondade para o povo escolhido e para toda a humanidade. 

Enquanto realizada, na profecia de Isaías a Virgem certamente é Maria, a escolhida por Deus desde toda a eternidade, e o Filho é Jesus Cristo, o Emanuel, porque é o Filho eterno de Deus, que é Deus com o Pai eterno, que se encarnou, entrando na história humana como homem-Deus para a salvação de sua criatura muito amada, necessitada de amparo em sua miséria. A profecia não diz isto deste modo, mas é o que significa em seus fatos realizados. Neste duplo aspecto, há mistérios nas palavras da profecia e há mistério nos fatos realizados da profecia. Ante tais mistérios, a mente humana, sempre por si mesma limitada, permanece como que num claro-escuro pela abundância de luz, como os olhos ante o sol. Por isso, somente de Deus, enquanto fonte primeira necessária, provém a profecia, a compreensão da profecia e a compreensão dos fatos da profecia. Do mesmo modo que é o Bem fonte de todo bem, Deus é a Luz fonte de toda luz, a Sabedoria fonte de toda sabedoria verdadeira. 

O salmo 39 é um salmo de Cristo, e nesse sentido é um salmo profético, que antecipa certas palavras, certas ações e o espírito de Jesus, o Messias verdadeiro. Aqui, espírito significa aquilo que move, com os movimentos próprios da vida humana. No caso do divino Jesus, o que lhe movia fundamentalmente era fazer a vontade do Pai, como ele mesmo disse, quando fala da vontade do pai como seu alimento. Assim, neste salmo profético é dito: “com prazer faço a vossa vontade” (9).

A nova e eterna aliança, a partir do segundo sacrifício, que é a entrega amorosa do santo corpo de Cristo, de sua sagrada Humanidade, é uma aliança na verdade e na vontade, e assim é essencialmente espiritual, nascida do Espírito e voltada para o Espírito como seu fim último. É próprio dessa aliança o amor pela verdade, e nisso o amor pela verdadeira religião, e o interesse pela vontade de Deus, reconhecida como a melhor Vontade. Assim, por exemplo, é dito por Jesus, o divino Mestre: “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus”. (Mt 7,21)

O espírito de Maria era o mesmo de Cristo, porque a vontade de Deus antes de tudo em tudo era o que a movia. Assim, como resposta amorosa a vontade de Deus, ela disse ao anjo: “eis a escrava do Senhor, faça-se em mim conforme a tua palavra”. A primeira Eva, esposa de Adão, consentiu com sua vontade às palavras enganosas da serpente diabólica, e a nova Eva, a Divina Mãe do novo Adão, consentiu com sua vontade imaculada às palavras de verdade do santo anjo Gabriel, o mensageiro luminoso de Deus, a força da misericórdia e da justiça divinas. Assim, Maria Santíssima, que é a Rainha dos profetas, profetizou sobre si mesma: “desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é onipotente e cujo nome é Santo”. (Lc 1, 48-49)

Desse modo, como diz a profecia, que só pode vir do Espírito da Verdade, podemos dizer: “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus”.

“Eu Sou aquele que sou”

Na Sagrada Escritura é dito: “Moisés disse a Deus: “Sim, eu irei aos filhos de Israel e lhes direi: ‘O Deus de vossos pais enviou-me a vós'”. Mas, se eles perguntarem: ‘Qual é o seu nome?’ o que lhes devo responder?” Deus disse a Moisés: “Eu Sou aquele que sou”. E acrescentou: “Assim responderás aos filhos de Israel: ‘Eu sou’ enviou-me a vós”. E Deus disse ainda a Moisés: “Assim dirás aos filhos de Israel: ‘O Senhor, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó, enviou-me a vós’. Este é o meu nome para sempre, e assim serei lembrado de geração em geração”.” (Ex 3,13-15)

Deus revelou a Moisés que seu nome, pelo qual seria lembrado de geração em geração, é “Eu Sou aquele que sou”. Nessa revelação, pode-se dizer que Deus é o próprio Ser, o Ser Puríssimo, o Ser Necessário, o Ser subsistente por si mesmo, totalmente perfeito, o primeiro princípio de todas as coisas, causa total do ser e da bondade nas coisas. O primeiro nome de Deus é “Aquele que é”, o Ser. A este respeito, São Boaventura diz: “O primeiro nome destes nomes – o Ser – refere-se particularmente ao Antigo Testamento, que proclama sobretudo a unidade da essência divina. Por isso, foi dito a Moisés: “Eu sou aquele que sou”.”

Eis a metafísica do Êxodo, unidade entre a verdadeira sabedoria filosófica e a verdadeira religião, enquanto religião revelada, entre a autêntica razão e a verdadeira fé, que principiam em Deus. Santo Tomás diz: “(…) Ora, o conhecimento dos princípios naturais evidentes é infundido em nós por Deus, pois Deus é o autor da natureza. Por conseguinte, esses princípios estão também contidos na sabedoria divina. Assim também, tudo que é contrário a eles contraria a sabedoria divina e não pode estar em Deus. Logo, as verdades recebidas pela revelação divina não podem ser contrárias ao conhecimento natural”.

Transfiguração é revelação e revelação é conhecimento

No Evangelho é dito: “Naquele tempo, Jesus levou consigo Pedro, João e Tiago, e subiu à montanha para rezar. Enquanto rezava, seu rosto mudou de aparência e sua roupa ficou muito branca e brilhante. Eis que dois homens estavam conversando com Jesus: eram Moisés e Elias. Eles apareceram revestidos de glória e conversavam sobre a morte, que Jesus iria sofrer em Jerusalém. Pedro e os companheiros estavam com muito sono. Ao despertarem, viram a glória de Jesus e os dois homens que estavam com ele. E quando estes homens se iam afastando, Pedro disse a Jesus: “Mestre, é bom estarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias”. Pedro não sabia o que estava dizendo. Ele estava ainda falando, quando apareceu uma nuvem que os cobriu com sua sombra. Os discípulos ficaram com medo ao entrarem dentro da nuvem. Da nuvem, porém, saiu uma voz que dizia: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!” Enquanto a voz ressoava, Jesus encontrou-se sozinho. Os discípulos ficaram calados e naqueles dias não contaram a ninguém nada do que tinham visto”. (Lc 9,28b-36)

Transfiguração é revelação, e revelação é conhecimento. Na transfiguração ante os três apóstolos, Cristo se mostra como Ele realmente é e sempre será: humano-divino, o homem-Deus, o Verbo encarnado ensinado pelo Apóstolo São João no Evangelho sagrado. Cristo concedeu aos três essa experiência mística, como havia concedido experiências místicas a Moisés e Elias em seus tempos, porque assim foi destinado, para, entre outras coisas, serem testemunhas fidedignas da verdadeira fé, que sempre diz algo real, fora de todo engano. Se Cristo se transfigura para alguns e não para todos os homens é devido às razões de sua sabedoria e aos motivos de sua bondade. Porém, para todos aqueles que permanecerem na obediência fé verdadeira, para todos aqueles que morrerem sem inimizade mortal com Deus, é prometida a visão face a face e a habitação desejada por Pedro, a paz perpétua, o descanso eterno.

“Naquele dia o Senhor fez aliança com Abrão”

No livro do Gênesis é dito: “ Naqueles dias, o Senhor conduziu Abrão para fora e disse-lhe: “Olha para o céu e conta as estrelas, se fores capaz!” E acrescentou: “Assim será a tua descendência”. Abrão teve fé no Senhor, que considerou isso como justiça. E lhe disse: “Eu sou o Senhor que te fez sair de Ur dos Caldeus, para te dar em possessão esta terra”. (…) Naquele dia o Senhor fez aliança com Abrão, dizendo: “Aos teus descendentes darei esta terra, desde o rio do Egito até o grande rio, o Eufrates”. (Gn 15,5-12.17-18)

Em seu modo de atuar, é comum Deus fazer alianças com os homens. Na aliança, Ele se compromete a fazer algo e pede ao homem que faça algo em troca, não porque precisa, mas para o bem do próprio homem. Nas alianças que propõe, Deus trato o homem como ele o criou, como ser dotado de livre-arbítrio. Na aliança há união consentida e compromisso, como num matrimônio. Deus escolhe as alianças e os homens da aliança.  Em tudo isso há a liberdade de Deus e liberdade da criatura humana. Em sua infinita bondade, Deus trato o homem com a dignidade que lhe concedeu e lhe destina inúmeras bondades, Ele que é o Bem fonte de todo bem.

Na ordem própria das coisas, há antes os direitos de Deus, o Senhor de todas as coisas, e nas alianças de sua Misericórdia passa a haver de certo de modo certos deveres de Deus, que se compromete e cumpre o que prometeu. De Deus, que é totalmente perfeito, não sai palavras vãs e todas as suas palavras, tal como decretado, realizam-se com sua Vontade onipotente eficaz. Exemplo de tudo isso é a aliança abraâmica e tudo que pela onipotência de Deus se realizou.

O novo povo de Deus, a Santa Igreja Católica, é descendência de Abraão. Povo numero que se tornará ainda mais, espalhando-se até os confins da terra, conforme profecia.  

“Feliz o homem sem pecado em seu caminho, que na lei do Senhor Deus vai progredindo!”

Como sabedoria da Sagrada Escritura, há uma relação entre a felicidade e a vivência da lei da Deus, entre a felicidade e o caminho das virtudes. Se a felicidade é o que o homem mais deseja, sendo o fim de seus atos, e se a palavra da Escritura é verdadeira, como de fato é, então esse ensinamento tem importância para todos os homens e merece ser difundido até os confins do universo. Santo Agostinho diz que o homem é infeliz pelos seus pecados, e no salmo 118 é dito: “Feliz o homem sem pecado em seu caminho, que na lei do Senhor Deus vai progredindo!” (2-3).

É certo que a felicidade do homem está em Deus, mas não no deus de nossas ilusões e invenções, nos ídolos fabricados por mãos humanas ou sugeridos por demônios, e sim está no verdadeiro Deus da divina revelação, por exemplo o Deus dos milagres e profecias, o Deus dos profetas e santos, o Deus dos mandamentos e sacramentos da salvação, o Deus de Jesus Cristo e da Imaculada Virgem Maria.

Ídolos e idolatria são falsidades, coisas vãs e inúteis, obstáculos para o bem do homem. Por isso são ensinados e difundidos por demônios, que têm o DNA da mentira enganadora e da inveja destruidora. A este respeito, por exemplo, São Pedro Apóstolo diz: “Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar”. (1Pe 5,8)

Com o divino auxílio o homem é vitorioso e sem o seu auxílio o homem é vencido

Na Sagrada Escritura é dito: “Naquele tempo, Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão, e, no deserto, ele era guiado pelo Espírito. Ali foi tentado pelo diabo durante quarenta dias. Não comeu nada naqueles dias e depois disso, sentiu fome. O diabo disse, então, a Jesus: “Se és Filho de Deus, manda que esta pedra se mude em pão”. Jesus respondeu: “A Escritura diz: ‘Não só de pão vive o homem'”. (…) Terminada toda a tentação, o diabo afastou-se de Jesus, para retornar no tempo oportuno”. (Lc 4,1-13)

Enquanto verdadeiro homem, Cristo foi tentado pelo diabo durante quarenta dias no deserto, com intensas tentações e sem consolações na alma ou prazeres corporais, ou seja, em elevada aridez. Porém, como a mente na verdade da sabedoria divina e a vontade firme no bem verdadeiro, Ele permaneceu na virtude, sem consentir em mal algum, sem cometer qualquer pecado.

No caminho da verdadeira religião, os períodos de deserto, com suas tentações e seus dissabores, são períodos de combate espiritual contra os inimigos da alma e da salvação eterna, combate para fazer o bem e evitar o mal.  É espiritual porque diz respeito à mente espiritual, que tem como seu bem a verdade e como mal a falsidade, e diz respeito à vontade espiritual, que decide, e assim pode pecar, fazendo o mal, e pode exercer a virtude, fazendo o bem.

Nesse combate, com o auxílio necessário da graça divina, tudo depende da vontade, do querer eficaz. Cristo venceu o diabo, o mundo e a carne, e com seu divino auxílio o homem é vitorioso e sem o seu auxílio o homem é vencido. Semelhante ao Cristo obediente, o homem obediente, que combateu ou bom combate, guardando a fé, cantará vitória, e receberá a coroa da glória eterna.

“As graças da Minha misericórdia colhem-se com um único vaso, que é a confiança”

A verdadeira confiança, como a de uma criança para com sua mãe, atinge o coração divino, que como se abre com suas bondades para aquele que confia e está aberto para a divina vontade. A este respeito, o Salmo 90 diz: “Porque a mim se confiou, hei de livrá-lo e protegê-lo, pois meu nome ele conhece. Ao invocar-me hei de ouvi-lo e atendê-lo, e a seu lado eu estarei em suas dores”.

E como está escrito no Diário de Santa Faustina: “As graças da Minha misericórdia colhem-se com um único vaso, que é a confiança. Quanto mais a alma confiar, tanto mais receberá. Grande consolo Me dão as almas de ilimitada confiança, porque, em almas assim derramo todos os tesouros das Minhas graças”. (1578)

“É o bem o que quero para vós, meus amados, porque eu sou o Bem fonte de todos os bens”.

No livro do Profeta Isaías é dito: “Assim fala o Senhor: “Se destruíres teus instrumentos de opressão, e deixares os hábitos autoritários e a linguagem maldosa; se acolheres de coração aberto o indigente e prestares todo socorro ao necessitado, nascerá nas trevas a tua luz e tua vida obscura será como o meio-dia. O Senhor te conduzirá sempre e saciará tua sede na aridez da vida, e renovará o vigor do teu corpo; serás como um jardim bem regado, como uma fonte de águas que jamais secarão (…). Se não puseres o pé fora de casa no sábado, nem tratares de negócios em meu dia santo, se considerares o sábado teu dia favorito, o dia glorioso, consagrado ao Senhor, se o honrares, pondo de lado atividades, negócios e conversações, então te deleitarás no Senhor…”. (58,9b-14)

Com palavra de Deus, o profeta Isaías diz o que há de mau no povo e o bem que o povo receberá se houver mudança, se houver conversão. Assim, de certo modo é ensinado: se fizerem tal bondade, então receberão tal bem, e se evitarem tal maldade, então receberão tal bem. Em tudo isso, é como se Deus dissesse: “É o bem o que quero para vós, meus amados, porque eu sou o Bem fonte de todos os bens”.

Descumprir um mandamento é um mal e cumpri-lo corretamente é um bem. Deus quer que sua criatura humana evite o mal e faça o bem, porque isso é algo bom por si mesmo com bondades para ela.  Em tudo Deus quer sua bondade e é o bem o que Ele quer para o homem, e por isso lhe ensina o bom caminho e lhe adverte do mal caminho, que, enquanto contrários, conduzem a fins opostos, de um lado o bem e o melhor e do outro lado o mal e o pior.

Nas bondades prometidas por Deus para aqueles que evitam o mal e fazem o bem por Ele ensinados, haverá deleite e desfrute.

Deus, em sua infinita Misericórdia, é clemente, é perdão para quem o invoca. Ele conhece os corações, o interior de cada pessoa, e sabe quando há sinceridade ou engano, quando há malícia ou reta intenção. Deus não se engana nem se deixa enganar, porque é a própria Verdade que tudo conhece.