“Na verdade, o que existe de mais admirável, o que de mais belo do que a própria verdade?

Em Provérbios é dito sobre a sabedoria: “Na mão direita ela sustenta uma longa vida; na esquerda, riqueza e glória” (3,16). Em sentido espiritual, com Cristo, Sabedoria encarnada, vida longa é a vida eterna, riqueza é a dos bens celestes e glória é a participação sobrenatural no Ser Divino todo glorioso. A mão, por semelhança, é símbolo da força, porque com as mãos o homem move as coisas, e como ela pode construir e destruir. Sem as mãos a vida corporal do homem seria mais limitada, pois suas possibilidades seriam diminuídas e sua dependência do outro aumentada. Como a Sabedoria é o próprio Deus, Espírito Onipotente, fonte de todo bem, Ela sustenta, no homem que a possui, todos esses bens que são a longa vida, a riqueza e a glória. 

“Seus caminhos estão semeados de delícias. Suas veredas são pacíficas” (3,16). Assim como a sabedoria é espiritual, espirituais são suas delícias. Na sabedoria há sabor e odor, há o ver e o ouvir, e em tudo isso os seus deleites. Os deleites da sabedoria são os deleites do ser e da bondade possuídos pela alma inteligente. Os caminhos da sabedoria possuem o que lhe é próprio, como os prazeres da verdade contemplada amorosamente.

Ao falar do deleite de descobrir a verdade, Santo Agostinho diz: “Em relação aos espetáculos e a toda aquela paixão denominada curiosidade, o que buscam nela os homens, senão o deleite produzido pela descoberta das coisas como elas são? Na verdade, o que existe de mais admirável, o que de mais belo do que a própria verdade?” (“A Verdadeira Religião”)

Sobre os sentidos das Sagradas Escrituras e suas supostas contradições

Certos adversários da Sagrada Escritura, para desacreditá-la como “Palavra de Deus enquanto foi escrita por inspiração do Espírito divino”, alegam haver nela contradições.

Para falar em contradições na Sagrada Escritura é necessário saber o que é contradição. Contradição é afirmar a ausência e a presença do mesmo simultaneamente e sob o mesmo aspecto, é afirmar o ser e o não-ser de algo ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Se alguém diz que Sócrates morreu e depois diz que o mesmo Sócrates não morreu, isso pode ser uma contradição, mas também pode não ser, pois depende do sentido das afirmações. Contradição é caso a morte seja a mesma nas duas afirmações, como a morte do corpo, por exemplo. Porém, se a morte é dita em sentidos diferentes, como morte corporal e morte na memória histórica, então não há contradição. Assim, a primeira afirmação pode ser entendida como Sócrates morreu corporalmente e a segunda pode ser entendida como a memória histórica da figura de Sócrates permanece entre as gerações após sua morte corporal, e neste sentido ele ainda é um personagem vivo em certas consciências.

Essa consideração vale para as Escrituras divinas, pois, em todos os casos, antes de se falar em contradições é necessário saber em que sentido suas afirmações devem ser entendidas.

Exemplo de suposta contradição. No livro Deuteronômio (24,16) é dito por Deus que “não morrerão os pais pelos filhos, nem os filhos pelos pais. Cada um morrerá pelo seu próprio pecado”; porém no livro de Isaías (14,21) Deus diz que “Nunca, jamais se falará da raça dos ímpios. Preparai o massacre dos filhos por causa da iniquidade dos pais. Que eles não se levantem para conquistar o mundo, e invadir toda a face da terra”.

A suposta contradição entre as passagens em questão é aparente, pois aqui a palavra da Escritura é considerada em apenas em sua veste literária, sem verdadeira inteligência de seu sentido, sem a visão intelectual da palavra divina comunicada. O trecho de Isaías não contradiz o trecho de Deuteronômio, porque não deve ser entendido como Deus que castiga filhos inocentes pelas culpas dos pecados cometidos pelos pais, e sim deve ser entendido da seguinte maneira. Como anteriormente é falado da “raça dos ímpios”, todos os que pertencem a essa raça têm em comum a impiedade, um dos nomes do pecado, pois é próprio do ímpio ir contra as leis de Deus. Neste caso, os pais são ímpios e os filhos também, e os pecados dos pais estão nos filhos pela semelhança, que desse modo são pecadores pela impiedade.  Assim, os filhos não são inocentes, e enquanto iníquos são merecedores de castigo perante a justiça divina, do Deus que tem todo direito de fazê-lo, porque é dono do ser e da existência, governante de todo o universo, Aquele que tira a vida e faz viver (1Sm 2,6).   Em poucas palavras: o “por causa da iniquidade” significa que os filhos são iníquos como os pais por causa dos pais, que pelo exemplo ou palavra fizeram os filhos semelhantes em certos pecados. Assim, permanece o que é dito em Deuteronômio: cada um morrerá, isto é, pagará a justiça divina, pelo seu próprio pecado.

A Imaculada é para a maior glória de Deus e glorifica a Deus de vários modos

Como sabedoria da Sagrada Escritura, o verdadeiro Deus, em suas perfeições invisíveis, como Aquele que é totalmente perfeito, fonte de todas as perfeições, também é glorificado em suas criaturas, que recebem dele todas as bondades que possuem.

Maria, a Santa Mãe de Deus, é toda de Deus em vários sentidos, por exemplo em suas perfeições e em sua vontade. Por isso, quem é todo de Maria é necessariamente todo de Deus e quem faz a vontade de Maria faz a vontade de Deus. Na consagração total à Imaculada, a exemplo daquelas ensinadas por São Luís de Montfort e São Maximiliano Kolbe, não há relação de oposição entre Cristo e Maria, e sim relação de meio e fim, pois o destino é Cristo através de Maria, para alcançar o verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, o único caminho para participar da Vida Divina por toda a eternidade, em superabundante felicidade.

Maria Santíssima fará sempre como fez nas “Bodas de Caná”, quer dizer, conduzirá a seu Filho, o Salvador, e dirá com toda a sabedoria: “fazei o que ele vos disser”. A Imaculada é para a maior glória de Deus e glorifica a Deus de vários modos, e assim dela se pode dizer como está escrito no profeta Isaías: “Serei glorificado em ti, meu Servo Jacó” (49,3). A este respeito, na Anunciação Ela disse diante do anjo Gabriel: “eis a serva do Senhor” (Lc 1,38); e no Magnificat disse: “Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo” (Lc 1,48-49)

Santa Teresinha do Menino Jesus ensina: “Não tenhas receio de amar demais a Santíssima Virgem Maria, pois jamais conseguirás amá-la o suficiente e Jesus ficará muito feliz, porque a Virgem Santíssima é sua Mãe.”

Protestantismo: terreno fértil para os demônios, os mestres da mentira sedutora

Como ensina Santo Tomás, Deus faz todas as coisas por um fim, e o fim último das coisas feitas por Deus é a bondade divina. Deus quer o fim e quer aquilo que é para o fim, seus meios ou instrumentos. O querer de Deus é eficaz, de modo que os fins decididos por Ele se realizam como realidades feitas. Se a Sagrada Escritura, como ensina São Paulo Apóstolo, é para a instrução, então se pode dizer que ela é da Verdade para a verdade entre os homens, criaturas inteligentes. Como a Escritura tem a Verdade puríssima como princípio e a verdade como fim, ela deve ter corretamente entendida, para que a verdade prevaleça contra a falsidade, que é treva que a obscurece. Para este fim, Deus providenciou os meios dentro de sua Santa Igreja, geradora da Escritura como união de Antigo e Novo testamento, e entre esses meios antes de tudo o auxílio da inteligência divina que tudo ilumina.  

Entre as várias razões negativas contra o protestantismo, que o mostram como algo que não pertence ao Logos Encarnado, está a seguinte: nascido de uma divisão e oposição, pelos seus próprios princípios tende multiplicá-las, gerando cada vez mais confusão, fragmentação e mistura da verdade com a falsidade. Por isso, como Deus quer para sua Igreja a verdade e a unidade como fim, o protestantismo não pode ser querido por Ele, pois prejudica o fim. A verdade jamais contradiz a verdade, Deus jamais se contradiz, pois ele é a Sabedoria fonte de toda sabedoria, o Ser fonte de todo ser, a Verdade fonte de toda verdade.

O protestantismo tende a multiplicar na religião o “cada cabeça uma sentença” e o “cada comunidade o seu próprio magistério”, e não encontra solução para isso em si mesmo. Assim, é um terreno fértil para os demônios, mestres da mentira sedutora, mestres em travestir-se de anjos de luz. O sacerdote jesuíta Cornélio A. Lápide diz: “O demônio é o autor de todos os crimes, de todas as mentiras e de todos os erros: por isto é o pai dos hereges e das heresias. Sem ele jamais teria existido o pecado; e sem ele, por conseguinte, jamais teria havido misérias, enfermidades, morte e inferno; porque todas estas coisas terríveis são a pena do pecado… Nenhum ser é tão culpável, criminoso, depravado e infame como o é Satanás…”.

“Será condenada apenas a alma que quiser, porque Deus não condena ninguém”

Como ensinamento contido em certas parábolas de Cristo, Deus concede a graça e há frutos dela que dependem do homem. A graça significa alguma bondade concedida gratuitamente, e não como dever de justiça. Neste sentido, a Criação e a Redenção são graças da Misericórdia divina. Como é certo, segundo ensina São Paulo, que Deus quer que todos se salvem e conheçam a verdade, sem predestinar ninguém ao inferno, e se a fé é necessária para a salvação, no sentido de quem crer com a obediência da fé será salvo, então de um modo ou de outro Deus concede a todos o dom da fé, ou concede a graça suficiente para a salvação. E se entre aqueles que receberam o dom da fé há os que caem no abismo do inferno é porque não deram frutos dessa graça, o que dependia de sua vontade livre. Assim, sem excluir a graça, o decisivo na salvação eterna e na condenação eterna é a vontade do homem.

A este respeito, por exemplo, Santo Tomás fala da vontade imutável no bem para os bem-aventurados e da vontade imutável no mal para os condenados. Assim, o destino eterno da pessoa é uma espécie de perpetuação de sua vontade na vida terrena, após a alma se separar do corpo no fato da morte. E como coisas opostas têm efeitos opostos, isto vale para o bem e para o mal escolhidos. Quem escolheu a Deus como fim último terá os efeitos eternos dessa escolha e quem rejeitou a Deus e sua graça terá os efeitos eternos de sua escolha, que não podem ser os mesmos que os efeitos do bem, e sim os efeitos próprios do mal, infelicidade sem fim, o vazio perpétuo do “único necessário”. Diz o Santo doutor: “Assim como os bons, vivendo na carne, colocam em Deus o fim de todas as suas obras e desejos, também os maus os colocam em algum bem indevido que os afasta de Deus. Porém, as almas dos bons, quando separadas, aderem imutavelmente ao fim que nesta vida presente preestabeleceram, isto é, a Deus. Logo, também as almas dos maus imutavelmente  aderirão ao fim que para si escolheram”. (Suma contra os Gentios)    

E Santa Faustina diz em seu Diário: “Após essas palavras, tive uma compreensão mais profunda da misericórdia de Deus. Será condenada apenas a alma que quiser; porque Deus não condena ninguém”. (1452)

Para “libertar os oprimidos”: 6º era da história da Santa Igreja Católica

No Evangelho de São Lucas (Lc 4,14-22) é dito: “Naquele tempo, Jesus voltou para a Galileia, com a força do Espírito, e sua fama espalhou-se por toda a redondeza. Ele ensinava nas suas sinagogas e todos o elogiavam. E veio à cidade de Nazaré, onde se tinha criado. Conforme seu costume, entrou na sinagoga no sábado, e levantou-se para fazer a leitura. Deram-lhe o livro do profeta Isaías. Abrindo o livro, Jesus achou a passagem em que está escrito: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor”. Depois fechou o livro, entregou-o ao ajudante, e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Então começou a dizer-lhes: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir”. Todos davam testemunho a seu respeito, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca”.

A respeito dessa passagem, Dolindo Ruotollo, sacerdote com dons místicos, “Servo de Deus” candidato à beatificação, disse:

“Nas palavras de Isaías estava o anúncio profético da obra do Redentor e do desenvolvimento desta imensa misericórdia para os séculos futuros, até o fim do mundo. Ele também teria beneficiado o povo, e teria verdadeiramente consolado os aflitos, curado os enfermos, dado vista aos cegos, etc.; mas esses benefícios eram uma figura de benefícios maiores que ele espalharia pela sua Igreja ao longo dos séculos.

Sete grandes anúncios que podem ser considerados profecias dos sete períodos da história da Igreja:

1° A evangelização dos pobres.

2° A renovação da sociedade humana, degradada pelo paganismo através do sacrifício dos mártires, das grandes contrições da iniquidade humana.

3° O triunfo da Igreja, primeiro reduzida à servidão sangrenta pelos Césares.

4° A iluminação da verdade ao mundo inteiro, através dos doutores da Igreja.

5° A libertação das novas perseguições, no período da apostasia das nações, e o triunfo da Igreja oprimida pelas tiranias.

6º O ano da graça, ou seja, um período de grandes graças, e de grande triunfo da Igreja no reino de Deus.

7º Por fim, a última prevaricação e o juízo final.”

Pode-se dizer que estamos no 5º período, aproximando-se do 6º, significado, por exemplo, pelo “triunfo do Imaculado Coração de Maria” e pelo “Reino Eucarístico”.

A verdade está para a inteligência assim como a luz esta para os olhos

Ao falar sobre o filósofo Platão, Santo Agostinho diz: “(…) A verdade não é captada com os olhos do corpo, mas com a mente purificada. Toda alma, tendo-a encontrado, pode ser tornar feliz e perfeita” (A Verdadeira Religião).

A verdade está para a inteligência assim como a luz esta para os olhos. A verdade é a vida da inteligência, e não somente a vida, mas a vida feliz, onde ela se realiza, onde encontra o seu sentido.

A mente purificada, a alma purificada, pode ver a Verdade, e nela a felicidade. Não há felicidade sem a verdade, e o contrário é ilusão. Para a mente, manchas de impureza são a falsidade e a maldade, ambas negações e inversões do ser. Isto significa que há uma ordem objetiva do ser, na qual a mente humana está, da qual ela participa e a qual deve se conformar para possuir suas bondades, que trazem verdadeira felicidade.

Os olhos do corpo veem o que é visível assim como os sentidos percebem o que é sensível. A sensibilidade é a vida dos sentidos, que vivem de sentir. Os animais não captam a verdade, porque não possuem a consciência exigida pela verdade, a consciência intelectiva, a mente inteligente, própria do espírito, da alma espiritual. O inteligível, o sentido, o significado, a palavra, é a vida do espírito humano, porque é a vida da inteligência, das substâncias intelectuais.

No “sermão da montanha”, Cristo disse: “Felizes os puros de coração, pois verão Deus” (Mt 5,8). Deus é a Verdade Eterna onipotente, a plenitude do Ser, que contém toda a Felicidade. A maldade exclui a bondade, porque é sua negação. Assim, não podem coexistir, são como dois corpos que não podem ocupar o mesmo lugar o espaço. A verdade é bondade, a felicidade é bondade, e pureza é bondade, a perfeição é bondade, e tudo o que é bom é de Deus, o Bem fonte de todo bem.

O Pai das Misericórdias, a Imaculada e o Anjo da primeira Ave Maria

A misericórdia de Deus é para as criaturas, porque somente essa é miserável por si mesma e possui alguma miséria, já que o ser não lhe pertence por essência, mas é dado e mantido pela Vontade de Deus. Para mostrar o tamanho de sua Misericórdia benevolente, Deus concedeu ao homem tudo o que lhe pode ser concedido enquanto criatura finita que não pode ser igual a Deus, pois por natureza Deus só pode ser Uno. Como diz o jesuíta Cornélio a Lápide: “Deus é o Pai das Misericórdias. Nossas misérias são tão grandes e multiplicadas, que o real profeta Davi não pede a Deus que nos trate segundo sua misericórdia, senão segundo a multidão de suas misericórdias” (Sl 4, 3).

Nisso, Cristo e sua Mãe Imaculada são os maiores exemplares. No Evangelho de Cristo, que revela o Amor onipotente de Deus, Maria Santíssima, enquanto cheia de graça, com todos os seus privilégios, faz todo sentido, não retira glória alguma de Deus, e sim faz com a glória divina seja reconhecida e louvada, porque Maria também é para a maior glória de Deus. O mesmo Cornélio diz: “Quanto à sua substância, à sua essência, Deus é invisível; aos olhos do corpo, Ele somente pode ser visto por suas obras”.

A primeira “Ave Maria” foi dita pelo Anjo São Gabriel, um dos setes espíritos puros que assistem diante de Deus, que são vistos por Deus e veem Deus, em contínua adoração. “Entrando, o anjo disse-lhe: “Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo” (Lc 1,28).

Porque o homem pode ser dito espiritual

O homem pode ser dito espiritual pelas suas potências, que são sempre potências com relação ao ser, porque, do contrário, seriam com relação ao puro nada, o que é sem sentido. Tais potências permitem ao homem uma relação de presença, participação e posse com coisas imateriais, incorpóreas e espirituais. Entre essas potências estão sua inteligência, que conhece; sua vontade, que quer; e seu coração, que sente.

O homem pode ser dito espiritual porque é capaz de consciência de si, exigida pelo ser “eu”, e é capaz de crescer nesse conhecimento próprio e de transcender a si mesmo pela inteligência, que o leva além de si por um modo de participação e de presença em outro ser. É espiritual porque é capaz de relação inteligente com a realidade, capaz de atingir o logos de um ser, de apreender sua essência, de entender os significados objetivos das coisas e de viver os fatos da realidade em perspectiva, com consideração de seus verdadeiros sentidos. É espiritual porque é capaz de perceber coisas universais, necessárias e eternas — coisas imateriais e incorpóreas — e relações imperceptíveis pelos órgãos corporais. É espiritual porque é capaz de apreender a verdade, e verdades eternas, com posse contínua do ser conhecido para além do instante que passa, como mostra a memória. É espiritual porque é capaz de perceber ilusões dos sentidos, de detectar mentiras, confusões e contradições, e de corrigir e ser corrigido quanto à consciência. É espiritual porque é capaz de verdade e certeza apodítica, pela evidência percebida e pelas demonstrações de sua inteligência raciocinante.

O homem pode ser dito espiritual porque é capaz de querer livremente e, nesse querer, pode fazer o bem e evitar o mal entendidos como tais; pode intencionalmente realizar valores, como a justiça e a misericórdia, e exercer as virtudes, como a prudência e a temperança. É espiritual porque é capaz de comunicação consciente com outra pessoa — por exemplo, por meio da linguagem e no ato de aprender e ensinar. É espiritual porque, na relação com o outro, é capaz de vínculos dotados de significado e valor, como o vínculo do matrimônio, com o valor da fidelidade, e o vínculo de amizade, com o valor do auxílio mútuo.

E é dito espiritual porque, feito à imagem e semelhança de Deus (Gn 1, 26), possui imortalidade em sua alma imaterial, criada como algo indestrutível (Suma Teológica, I, q. 75, a. 6), porque é capaz de Deus, de possuí-lo, unir-se a Ele e contemplá-lo como Suprema Verdade e Sumo Bem, conforme a graça divina concedida em Cristo e distribuída ordinariamente em sua Igreja Católica — Nele que é “o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14, 6). É espiritual porque é capaz de sentimentos espirituais e consolações na alma cuja fonte não pode ser corpórea nem material, como a alegria, a paz, o êxtase e a felicidade propriamente dita: aquele sentimento interior de plenitude pela posse do Bem, que a tem como fonte inesgotável e duradoura (Dietrich von Hildebrand, O Coração).

Assim, o homem é espiritual pelo desejo interior de felicidade duradoura, pela inquietude do coração — insatisfeito com os bens limitados, passageiros e destrutíveis desta vida terrena, nos quais não encontra repouso (cf. Sto. Agostinho, Confissões, I, 1) —, a paz na tranquilidade, a tenda de São Pedro na Transfiguração (cf. Mt 17, 4). Cristo disse: “O espírito é que vivifica, a carne de nada serve. As palavras que vos tenho dito são espírito e vida” (Jo 6, 63).

O homem espiritual e a verdadeira espiritualidade

São Paulo Apóstolo diz: “Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar. O homem espiritual, ao contrário, julga todas as coisas e não é julgado por ninguém”. (1Cor 2, 14-15)

Quanto mais espiritual um homem é, mais próximo está de Deus, porque Deus é Espírito. Porém, espiritual na verdadeira espiritualidade, que é sempre espiritualidade da verdade e das virtudes, antes de tudo a humildade acima de todas a caridade, pois Deus é Amor. Por isso, a vida espiritual frutuosa exclui o egoísmo, ou lhe afasta como algo prejudicial. Santa Faustina ensina que aquele que cumpre a Vontade de Deus exerce todas as virtudes. Assim, quanto mais espiritual o homem é na verdadeira espiritualidade, mais se conforma ou cumpre a vontade de Deus.

Os demônios, embora sejam puramente espirituais, com o poder que lhes é próprio, são decaídos no ser espiritual porque com vontade imutável se afastaram da verdade e da virtude, quer dizer, da Vontade de Deus. Também por essa razão a verdadeira religião, a religião de Cristo e da Imaculada, é a religião da obediência a Deus, e as falsas religiões são religiões da vontade e ideias próprias, humanas e diabólicas.

Na alma humana, o amor divino e o egoísmo, aquele amor de si com o desprezo de Deus, são como inimigos mortais, e como contrários produzem efeitos contrários para a vida espiritual, bens para a vida feliz e males para a vida infeliz, antecipações do Céu e do inferno.

Deus Pai disse para Santa Catarina de Sena: “Não vive o homem sem o amor; ele sempre procura algo para amar. Criei por amor, criei-o no amor. Assim, a vontade move a inteligência, quase dizendo-lhe: “Quero amar; o amor é meu sustento”. Desperta-se então a inteligência e responde: “Se queres amar, vou dar-te o bem para que ames”! (…) Em sentido inverso, se o apetite sensível procura os bens materiais, a eles orienta-se a inteligência; e quando esta toma como objeto os bens passageiros, surgem o egoísmo, o desprezo pelas virtudes, o apego ao vício e, como consequência, o orgulho e a impaciência”. (“Diálogo”)