A boa notícia do anjo do Senhor: “hoje vos nasceu, na Cidade de Davi, um Salvador, que é o Cristo Senhor”

O tema do testemunho é o tema do conhecimento. Todo testemunho é testemunho de algo e significa saber por percepção direta, por certa presença mesma da coisa conhecida. Assim, se vi algo, sou testemunha do que vi; e, se digo isso a alguém, meu testemunho é verdadeiro enquanto a coisa testemunhada é real e realmente sabida por mim.

Como ensina Santo Tomás, uma mesma coisa não pode ser simultaneamente sabida e crida, pois, se é vista com evidência, não requer fé; e, se é objeto de fé, não é evidente para a mente do que crê. Ele diz: “A fé implica o assentimento do intelecto àquilo em que cremos. Ora, a inteligência pode assentir a alguma coisa de dois modos. — De um modo, quando movida pelo objeto mesmo, conhecido em si, como é claro no caso dos primeiros princípios, objeto do intelecto; ou mediatamente, como é claro no caso das conclusões, objeto da ciência. — De outro modo, o assentimento da inteligência não se funda em ser ela suficientemente movida pelo seu objeto próprio, mas por uma certa eleição, inclinada voluntariamente mais para um lado do que para outro. E então, se isso se der com dúvida e temor de uma parte, haverá opinião. Se, porém, houver certeza, sem qualquer temor, existirá a fé. Ora, vistas são as coisas que, por si mesmas, movem o nosso intelecto ou os sentidos ao conhecimento delas. Por onde, é manifesto que nem a fé nem a opinião podem ter por objeto o visível, seja este sensível ou intelectual” (Suma Teológica).

O saber imediato é anterior à fé verdadeira e se destina a ela, pois a fé deseja saber desse modo, e foi prometido que assim será para os que nela perseverarem. A fé é um certo modo de conhecimento, um conhecer por participação.

No tema do Natal de Cristo, pode-se dizer que o anjo Gabriel é testemunha do Verbo Eterno, enquanto um dos anjos que “assistem diante de Deus”. Maria Santíssima era testemunha de Gabriel, que lhe apareceu, e ambos eram testemunhas do Verbo encarnado, que nasceu em Belém, também com o testemunho de São José.

E, como testemunha direta, um anjo do Senhor que apareceu a certos pastores na noite do nascimento lhes disse: “Não temais, eis que vos anuncio uma Boa-Nova que será alegria para todo o povo: hoje vos nasceu, na Cidade de Davi, um Salvador, que é o Cristo Senhor” (Lc 2,10-11).

São João Batista era um homem de Deus e o divino Jesus é o homem-Deus

Jesus, assim como João Batista, quis ter discípulos e batizar pessoas. Por quê? Se a vontade está para o bem, que é seu objeto próprio, como diz Santo Tomás, então há algo de bom no “ser discípulo” e no “ser batizado”. Todo discípulo é discípulo de algum mestre, ou é aprendiz de algum professor, de modo que aqui o tema central é o ensino e a aprendizagem e, por relação, o tema da verdade.

A verdade é o bem da inteligência e a falsidade, o seu mal. Sendo assim, ela é o bem do homem enquanto “animal racional”, um ser vivente dotado de inteligência espiritual. Ao ter discípulos, Jesus e João querem para eles o bem da verdade conhecida e obedecida, o que é fonte de outros bens, especialmente da felicidade, que é o bem em razão do qual o homem quer ou deseja todos os bens. O mesmo vale para o batismo, enquanto faz passar do mal para o bem, ou do bem inferior para o bem superior.

Sobre o amor no homem, Santo Tomás diz que nosso amor para com a pessoa amada “nos faz querer que tal se conserve o bem que possui e se lhe acrescente o que não possui; e para isso cooperamos”. João devia ser ouvido pelo que era — um profeta enviado pelos céus — e pelo que falava: palavras verdadeiras de sua pregação inspirada, palavras divinas benéficas para aqueles que as escutassem. E Jesus devia ser ouvido e seguido pelo que é — o Filho encarnado enviado pelo Pai eterno — e pelo que falou, isto é, por suas palavras de vida eterna para a salvação dos homens pela união sem fim com Deus, o Sumo Bem imutável, o melhor dos bens. João é um homem de Deus e Jesus é o homem-Deus; numa relação de subordinação entre o inferior e o superior, ambos convergem para o mesmo fim, segundo a Bondade divina cheia de misericórdia para com a criatura humana

Importa que ele cresça e que eu diminua

Na Sagrada Escritura é dito: “Em seguida, foi Jesus com os seus discípulos para os campos da Judeia, e ali se deteve com eles, e batizava. Também João batizava em Enon, perto de Salim, porque havia ali muita água, e muitos vinham e eram batizados. Pois João ainda não tinha sido lançado no cárcere. Ora, surgiu uma discussão entre os discípulos de João e um judeu, a respeito da purificação. Foram e disseram-lhe: “Mestre, aquele que estava contigo além do Jordão, de quem tu deste testemunho, ei-lo que está batizando e todos vão ter com ele…”. João replicou: “Ninguém pode atribuir-se a si mesmo senão o que lhe foi dado do céu. Vós mesmos me sois testemunhas de que disse: Eu não sou o Cristo, mas fui enviado diante dele. Aquele que tem a esposa é o esposo. O amigo do esposo, porém, que está presente e o ouve, regozija-se sobremodo com a voz do esposo. Nisso consiste a minha alegria, que agora se completa. Importa que ele cresça e que eu diminua”. (Jo 3,22-30)

João era mestre com discípulos, assim como Jesus viria a ser. João pregava, assim como Jesus viria a pregar. João batizava, assim como Jesus viria a batizar. Porém, não era concorrentes, como quem está em disputa, porque o que João Batista fazia era para Jesus, como aquele que vem adiante para preparar o caminho do Messias divino. João é o servo precursor que trabalha para o Senhor que vem. João sabe o seu lugar na história e sabe o lugar de Jesus e, pelo que o céu lhe deu, sabe que não é o esposo, mas sim o amigo do esposo, que se alegra com sua presença e o início de sua missão. Por isso, entre o término da sua e o começo da de Cristo, ele diz: “importa que ele cresça e que eu diminua”; pois é Nele que está a salvação e seu batismo é a verdadeira purificação, pelo recebimento do Espírito Santo purificador e vivificante.

A unidade é própria da essência

Pelo princípio de não contradição, que afirma a impossibilidade absoluta do ser e não-ser simultâneos sob o mesmo aspecto, todo ser exige um mínimo de unidade essencial, e neste sentido todo ser é um. A relação só há no ser, em oposição ao nada, e é pluralidade que exige a unidade, pois toda pluralidade (ou multiplicidade) é pluralidade de coisas, no sentido de que são algo, e enquanto são o que são, necessariamente são unas, seja com simplicidade absoluta, como é o caso exclusivo de Deus, seja com composição, quando modos de ser distintos formam uma unidade, como o homem, que é uma união de corpo e alma espiritual, de animalidade e racionalidade.

A unidade é própria da essência, enquanto aquilo que faz com que uma coisa seja ela e não outra, como os três lados no triângulo e os quatro lados iguais no quadrado. Há a essência comum da triangularidade dos triângulos e da quadrangularidade dos quadrados, assim como há a essência comum da singularidade dos singulares e da humanidade dos humanos.

Diz Santo Tomás de Aquino: “Quando uma coisa se atribui outra é necessário atribuir àquela tudo o que for da essência desta; por exemplo, a quem se atribuir o ser humano há de se lhe atribuir o racional”.  Na Sagrada Escritura é dito: Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor” (Deuteronomio 6,4) e “(….) para nós, há um só Deus, o Pai, do qual procedem todas as coisas e para o qual existimos, e um só Senhor, Jesus Cristo, por quem todas as coisas existem e nós também” (1 Cor 8,6).

Princípio: o sentido certo da Sagrada Escritura e os resultados certos da ciência

Em certo sentido, princípio corresponde ao que deve ser. Como ensinam alguns estudiosos, um princípio evidente na relação entre as afirmações da Sagrada Escritura e as afirmações da ciência é que o confronto deve ser entre o sentido certo da Escritura e os resultados certos da ciência. Para que prevaleça a verdade, o bem da inteligência, fundamental para a vida humana, isto deve ser assim porque é certo que um sentido falso da Escritura não pertence à Escritura e as afirmações meramente hipotéticas das ciências podem ser falsas. Porque o falso com o falso resulta no falso, o hipotético com o hipotético resulta no hipotético e o verdadeiro com o verdadeiro resulta no verdadeiro, o valor das afirmações em ambas deve ser considerado, quando confrontadas.  

Com relação à Escritura, convém considerar a distinção entre a realidade afirmada e modo de afirmação, pois nela há uma diversidade de modo de dizer as coisas, especialmente as coisas espirituais. O modo de dizer da Sagrada Escritura é diverso até para a mesma realidade. Por exemplo, quando fala do poder de Deus. Assim há o modo dito em Deuteronômio (5,15) “Lembra-te de que foste escravo no Egito, de onde a mão forte e o braço poderoso do teu Senhor te tirou” – e há o modo dito em Lucas (1,37): “Gabriel responde: ‘Porque para Deus nada é impossível’.”

Pela unidade da verdade, que é a unidade de Deus, a unidade do Ser, a unidade do Logos por meio do qual, ao modo de semelhança, tudo foi criado, o que é verdadeiramente evidente não pode ser negado pela Sagrada Escritura e vice-versa. Se há tal negação, ela só pode ser aparente, ou porque algo é enganosamente considerado verdade evidente, ou porque um sentido é enganosamente considerado como o sentido da Escritura, ou porque houve confusão. A realidade e a Sagrada Escritura são obras de Deus, e não podem se contradizer, pois em Deus não há contradição, não há absurdos, não há o sem-sentido, dado que Ele é o Logos, a plenitude do sentido, a pura Inteligência, a Razão Suprema, o Ser puríssimo com todo o seu imensurável esplendor e Beleza.

Neste sentido, se as palavras da Sagrada Escritura, quando corretamente compreendidas em seus verdadeiros significados, são palavras divinas que dizem verdades importantes, então tudo o que contradiz tais palavras só pode ser falso, e neste caso deve ser rejeitado, não deve ser acolhido, porque o valor, a bondade, está sempre na verdade.

Vida humana: razão prática e sabedoria dos justos

O livro de Provérbios pode ser entendido como um livro de sabedoria prática para a vida humana em suas circunstâncias, segundo a ordem objetiva dos bens e valores. Nele é dito: “Guarda, filho meu, os preceitos de teu pai, não desprezes o ensinamento de tua mãe. Traze-os constantemente ligados ao teu coração e presos ao teu pescoço. Eles te servirão de guia ao caminhares (…)” (Pr 6,20-22).

O preceito é dado para dirigir os atos humanos, que podem ir para diferentes direções – seja para fins bons, seja para fins maus -, e nisso se aproximando ou se afastando do fim último, que é Deus, o Sumo Bem. O preceito, enquanto diz “deves” ou “não deves”, está para o bem e o melhor na vida do homem, conforme à realidade objetiva. Ele está para a bondade nas ações humanas, enquanto ações de uma criatura racional capaz de discernimento e dotada de livre arbítrio, e tem como fim formar homens bons e glorificar a Bondade divina, que é próprio Deus, pois Deus, em sua absoluta simplicidade, é sua própria Bondade, assim como é sua própria Sabedoria.  

O preceito leva à ação, enquanto diz o devido, e impede a ação, enquanto diz o proibido. Segundo Santo Tomás, no homem podemos distinguir a razão especulativa, que tem por fim o conhecimento da verdade, na ordem dos inteligíveis, na inteligibilidade natural dos entes, e a razão prática, que tem por fim a ação humana benéfica (Suma Teológica, I-II, q. 94, a. 2). A razão prática, enquanto informada naturalmente pelo princípio universal segundo o qual o bem deve ser feito e o mal deve ser evitado, e pelos princípios da lei natural, e pelo aprendizado de outros princípios para a boa ação, conhece o que deve ser e aplica os princípios aos casos concretos, no que é importante a virtude da prudência. Assim, os sábios preceitos estão para a razão prática, que por sua vez está para a direção da ação humana ao bem e o melhor.   

Exemplo de sábio com sábios preceitos é o profeta São João Batista, sobre o qual o glorioso anjo Gabriel diz: “Ele converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor, seu Deus, e irá adiante de Deus com o espírito e poder de Elias para reconduzir os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, para preparar ao Senhor um povo bem disposto” (Lc 1, 16-17).

Não desprezes o ensinamento de tua Mãe

Em Provérbios (6,20-22) é dito: “Guarda, filho meu, os preceitos de teu pai, não desprezes o ensinamento de tua mãe. Traze-os constantemente ligados ao teu coração e presos ao teu pescoço. Eles te servirão de guia ao caminhares…”.

O preceito diz o bem e o mal, enquanto diz o devido e o proibido. Ora, o bom para o homem está no bem e o melhor realmente, do mesmo modo que o mal para ela está no mau e o pior de fato. Um sábio preceito, que corresponde à sabedoria do ser, de suas razões e bondades, tem como sentido que haja o primeiro e não haja o segundo, o que inclui “os preceitos de teu pai” e os “ensinamentos de tua mãe”, enquanto aqueles de inteligência superior, com entendimento das coisas, e de reta intenção, com interesse benevolente para como o filho amado, o que é próprio de um pai e de uma mãe enquanto ideia divina, em seu significado natural.

Santo Tomás diz: “Além disso, o fim de qualquer lei, principalmente da divina, é formar homens bons. Ora, o homem é tido por bom por ter a vontade boa, pela qual põe em ato tudo o que de bom há nele. Ademais, a vontade é boa porque quer o bem, principalmente o máximo bem, que é o fim. Por isso, quanto mais a vontade quer este bem, tanto mais o homem é bom. Mas o homem quer mais aquilo que quer por amor do que aquilo que quer só por temor, pois o que quer só por temor diz-se que é involuntário e mesclado, como, por exemplo, quando alguém quer jogar no mar uma mercadoria, temendo o naufrágio. Logo, o amor do sumo bem, isto é, de Deus, faz com que os homens sejam bons ao máximo, e isso é intencionado em primeiro lugar pela lei de Deus”. (Suma Contra Os Gentios).

No Evangelho, Maria, a Imaculada, disse aos serventes na Bodas da Caná: “Fazei o que ele vos disser”; o que pode ser tomado como um preceito que ela sempre diria para seus filhos espirituais na relação deles com seu Filho segundo a carne, o qual é o homem-Deus. Como preceitos da Mãe, as palavras de Maria santíssima fazem o homem bom e o conduz a Deus.  

A verdade inegável

Por diferentes razões se pode afirmar com razão que a verdade existe realmente e que, consequentemente, toda negação desse elemento básico da vida humana é falsa e maléfica.

Primeiro, a partir da experiência de coisas óbvias. Dois exemplos. A experiencia da mentira, seja como algo feito ou recebido, é comum na vida social, ao ponto de considerarmos óbvio que a mentira existe. Ora, só pode haver mentira se há verdade, porque a mentira é dizer algo contra a verdade, de modo consciente. A noção das coisas comestíveis é importante para a sobrevivência corporal, e por experiência sabemos que nem tudo no mundo material é comestível, no sentido de poder ser comido ou de não produzir efeitos danosos para o organismo. Ora, se não há verdade, a noção de coisas comestíveis ou não comestíveis perde seu sentido.

Segundo, pela consideração do princípio de não contradição, segundo o qual é impossível, na ordem do ser, que algo simultaneamente seja e não seja sob o mesmo aspecto, e logicamente é impossível afirmar e negar a mesma coisa de algo sob o mesmo aspecto, e simultaneamente. Negar este principio já é prova-lo, porque a própria negação já o supõe, e se a negação fosse verdadeira nada poderia ser dito nem entendido, porque não seria possível saber realmente o ser de nenhuma coisa nem o sentido de qualquer fala humana.

Terceiro, pela contradição de quem nega a verdade, porque ou terá de admitir que é verdade que não existe verdade ou que não é verdade que não existe verdade. Nos dois casos não há saída: existe a verdade objetiva.

Quarto, pela consideração dos impossíveis absolutos, dos absurdos sem sentido. Impossível absoluto diz respeito à contradição intrínseca, como um quadrado-redondo ou uma madeira de ferro, como junção de noções que se excluem por definição essencial. Negar os impossíveis absolutos seria negar a realidade das coisas em questão e negar o princípio de não contradição, o que pode ser entendido como insensatez.

Por essas e por outras, a verdade existe, e antes de tudo ela é o próprio Deus, a Verdade Vivente fonte de todas as verdades que iluminam à inteligência humana, pois, como já foi dito, a verdade está para a inteligência assim como a luz está para os olhos.

E Cristo, o homem-Deus, perante Pilatos disse: “É para dar testemunho da verdade que nasci e vim ao mundo” (Jo 18,37). E Pilatos, participante da injustiça mortal contra Cristo, respondeu: “Que é a verdade?”

A certeza de que as Escrituras são divinas pela certeza da autoridade (da Igreja Católica)

A Sagrada Escritura, tal como existe, nasce da Igreja Católica, dentro de sua Tradição, e por ela foi reconhecida como inspirada pelo Espírito da Verdade. As escrituras divinas são por si mesmas palavra de Deus escrita, isenta de engano, para a salvação pela obediência à verdade conhecida. Porém, sua inspiração não é evidente para a mente humana, de modo que a certeza de sua origem divina não é a certeza da razão, mas sim a certeza da autoridade, e neste sentido foram admitidas como tais pela autoridade da Igreja da Igreja que Cristo fundou e à qual prometeu seu auxílio infalível. A Santa Igreja recebeu de Cristo uma participação em seu magistério divino, o que inclui certa infalibilidade no ensino da verdade, para o bem do homem, especialmente sua salvação eterna, contra a perdição eterna no inferno sem fim da alma imortal. Assim, quem duvida da Igreja, por coerência deve duvidar também das escrituras, perguntando-se o que garante que este ou aquele livro é palavra de Deus.  

Por isso, naturalmente a interpretação das letras sagradas deve partir da Igreja, deve estar dentro do definido por ela, por exemplo no Magistério dos Concílios dogmáticos e dos Papas que se pronunciaram com a intenção de definir. Assim, o “cada cabeça uma sentença” e o “cada comunidade o seu magistério”, como acontece no mundo protestante, é contrário ao Espírito das Escrituras, não provém de Deus, e de modo algum é aprovado por Ele, pois nele não há contradição nem falsidade.

Embora a ciência possa ser útil dentro de certos limites, a Escritura antes de tudo se entende pela graça divina e não pela ciência humana, porque a Palavra de Deus revelada excede a mente do homem.

A verdade, a salvação e a disposição de mudar

Cristo disse: “Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não crê no nome do Filho único de Deus. Ora, este é o julgamento: a luz veio ao mundo, mas os homens amaram mais as trevas do que a luz, pois as suas obras eram más. Porquanto todo aquele que faz o mal odeia a luz e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas aquele que pratica a verdade vem para a luz. Torna-se assim claro que as suas obras são feitas em Deus”. (Jo 3,18-21)

Dentro da moralidade objetiva, fundada na Bondade absoluta, que é Deus, um princípio básico é aquele segundo o qual o homem deve fazer o bem e evitar o mal. As más obras é o mal feito e as boas obras é o bem feito. A luz está para a verdade e a bondade enquanto as trevas estão para a falsidade e a maldade. A luz que veio ao mundo é Cristo, a Sabedoria encarnada, cheio de graça e de verdade; e veio para fazer os homens passarem do mal, das trevas do pecado, para o bem, e por isso disse: “convertei-vos e crede no evangelho” e “nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade”.

O julgamento é este: como obra má, como culpa pelo mau livremente feito, aqueles que rejeitaram a graça, permanecendo em seus pecados mortais, sem se converterem, perecerão como condenados. E é pelo amor próprio egoísta, cheio de orgulho e aversão à verdade, que rejeitaram a luz da vida. Mas aquele que pratica a verdade, e é da verdade, aceita a luz e se deixa iluminar por ela, com o fruto das boas obras em Deus. O filósofo católico Dietrich von Hildebrand diz: “Todo homem que tende a uma elevação moral está convencido da necessidade de lutar consigo mesmo, para desse modo chegar a modificar-se e a desenvolver-se. Também nele vive – ao contrário do que acontece com o que se abandona e vai para onde o seu temperamento conduz – uma certa disposição de mudar. Sem essa disposição não pode surgir nenhum enriquecimento espiritual ou moral”. E Santo Agostinho diz: “Porque a verdade gera o ódio? Por que é que os homens têm como inimigo aquele que prega a verdade, se amam a vida feliz, que não é mais que a alegria vinda da verdade? Talvez por amarem de tal modo a verdade que todos os que amam outra coisa querem que o que amam sejam verdade. Como não querem ser enganados, não se querem convencer de que estão no erro. Assim, odeiam a verdade, por causa daquilo que amam em vez da verdade. Amam-na quando os ilumina, e odeiam-na quando os repreende”.