“Sabiamente organizei o universo e com ordem o governo”

O Primeiro Princípio de todas as coisas é Deus, que existe eternamente, sem princípio nem fim, de modo todo simultâneo, na plenitude de seu Ser totalmente perfeito. A partir de si mesmo, em sua Onipotência que contém todos os possíveis, Ele por livre vontade decide criar céus e terra, concede existência, perfeições e bondades no ato da criação. Os céus e a terra, as coisas visíveis e invisíveis, são realidades criadas por um Criador Onipotente, que é Sabedoria, Liberdade e Amor. Assim, as criaturas são frutos do Logos, da Liberdade e do Amor Divino, participantes de seu Ser, ideias divinas que possuem verdade e bondade de essência. Na Sagrada Escritura é dito: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus. Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito” (João 1,1-3).

A este respeito Santa Catarina de Sena escreve o que Deus Pai lhe disse: “Sabiamente organizei o universo e com ordem o governo. Nada lhe falta, nada lhe pode ser acrescentado. Também na alma e no corpo humano, tudo foi previsto sem qualquer exigência prévia de vossa parte. Não existíeis, quando vos criei. Então somente existia meu Espírito (Gn 1,2). Espontaneamente criei o céu e a terra, o mar e o firmamento, o céu a movimentar-se em cima de vós, o ar necessário à respiração, o fogo e a água que mutuamente se apagam, o sol que afugenta a escuridão. Tudo ordenei segundo as necessidades do homem: a atmosfera ornada de pássaros, a terra que germina frutos, os numerosos animais que servem de alimento, o mar com seus peixes. Tudo fiz com ordem e providência. E, depois de dar o ser a todas as coisas com bondade e perfeição, criei o homem à minha imagem e semelhança e o coloquei nesse jardim. Infelizmente, por causa do pecado de Adão, esse jardim produziu espinheiros onde antes só havia flores perfumadas, puras, belíssimas na inocência. Antes do pecado, os seres obedeciam ao homem; depois, por culpa da desobediência de Adão, o homem sentiu a rebeldia dentro de si e nos seres. Selvagem ficou sendo o mundo; igualmente o homem, que constitui um outro mundo” (“O Diálogo”, pág. 332).

“Vós pensais que eu vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer divisão”

“Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: ‘Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso! Devo receber um batismo, e como estou ansioso até que isto se cumpra! Vós pensais que eu vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer divisão. Pois, daqui em diante, numa família de cinco pessoas, três ficarão divididas contra duas e duas contra três; ficarão divididos: o pai contra o filho e o filho contra o pai; a mãe contra a filha e a filha contra a mãe; a sogra contra a nora e a nora contra a sogra’” (Lc 12,49-53).

Cristo disse: “Eu vim para lançar fogo sobre a terra, e como gostaria que já estivesse aceso”. Conforme a multiplicidade de significados das palavras humanas, o fogo pode ser dito em diversos sentidos, a começar pelo literal, enquanto fogo mesmo, que queima a madeira numa fogueira ou emite luz numa vela; é o fogo da experiência humana sensível, do homem que pode conhecer as coisas sensíveis pelos sentidos corporais. Em um de seus significados, o fogo de Cristo é o fogo de Pentecostes, no qual o Espírito prometido desceu como “línguas de fogo” sobre aqueles que estavam reunidos no Cenáculo, em Jerusalém. Por semelhança, o Espírito é como o fogo porque pelo movimento significa a vida e pela luz significa a verdade. É o Espírito da Verdade, Vivo e vivificante, que acende nas almas o fogo do Divino Amor.

O Espírito da Verdade e do Amor, ao mesmo tempo em que une, o que lhe é próprio enquanto Aquele que une o Pai e o Filho, também divide, porque é inevitável a divisão entre a verdade e a falsidade, entre a virtude, digna de amor, e o pecado, digno de ódio. Assim, Cristo diz “Vós pensais que eu vim trazer a paz sobre a terra? Pelo contrário, eu vos digo, vim trazer divisão”. Essa divisão é, por exemplo, a divisão entre os descendentes da mulher e os da serpente conforme dito por Deus no Gênesis, entre o joio e o trigo da parábola contada pelo Divino Jesus, entre as ovelhas e bodes do juízo final do Justo Juiz.  Ela também corresponde ao que de São Paulo diz: “Não vos prendais ao mesmo jugo com os infiéis. Que união pode haver entre a justiça e a iniquidade? Ou que comunidade entre a luz e as trevas? Que compatibilidade pode haver entre Cristo e Belial? Ou que acordo entre o fiel e o infiel? Como conciliar o Templo de Deus e os ídolos? Porque somos o Templo de Deus vivo, como o próprio Deus disse: Eu habitarei e andarei entre eles, e serei o seu Deus e eles serão o meu povo” (II Coríntios 6, 14-16).

Alguém só pode saber o que é ilusório se sabe o que é real

Alguém só pode saber o que é ilusório se sabe o que é real. Necessariamente, para saber que algo é uma ilusão é necessário saber o que é real, porque toda ilusão é, por definição, o que não corresponde à realidade. Por exemplo: uma ilusão de ótica, fato possível, é uma ilusão a respeito de algo visto, é uma aparência de realidade que não é real na coisa vista. Só posso saber que uma visão é ilusória sei a visão real. O mesmo vale para a mentira, porque só posso saber se algo é mentira se sei qual é a verdade. Assim, a ilusão e a mentira, ao contrário de mostrar que não há nada real e verdadeiro, mostram que há sim o real e o verdadeiro, a realidade e a verdade, vida e bem da consciência humana.

O que a existência da ilusão e da mentira mostra é o limite e as possibilidades negativas da mente humana com relação à realidade cognoscível. O homem pode enganar e se enganar, mas dizer que se engana sempre é falso, porque há nisso uma contradição, que é saber sem engano que o homem se engana sempre. Assim, o mundo do conhecimento humano “não pode ser todo mentira, nem todo verdade”.

Pelo primado absoluto do Ser real, a realidade é o fundamento e sustentáculo de todas as coisas, e de certo modo mesmo das ilusórias.

No Escritura, no fato da ressureição de Cristo é dito: “Enquanto ainda falavam dessas coisas, Jesus apresentou-se no meio deles e disse-lhes: “A paz esteja convosco!”. 37.Perturbados e espantados, pensaram estar vendo um espírito. Mas ele lhes disse: “Por que estais perturbados, e por que essas dúvidas nos vossos corações? Vede minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo; apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho”. E, dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e os pés. Mas, vacilando eles ainda e estando transportados de alegria, perguntou: “Tendes aqui alguma coisa para comer?”. Então, ofereceram-lhe um pedaço de peixe assado. Ele tomou e comeu à vista deles”. (Mc 24,36-43)

“Sem o conhecimento de nós mesmos e sem o conhecimento da presença de Deus em nós, jamais atingiremos tão grande felicidade”

Na Escritura é dito: “Um jovem aproximou-se de Jesus e lhe perguntou: “Mestre, que devo fazer de bom para ter a vida eterna?”. Disse-lhe Jesus: “Por que me perguntas a respeito do que se deve fazer de bom? Só Deus é bom. Se queres entrar na vida, observa os mandamentos” (Mt 19, 16-17).

A este respeito, São Boaventura diz: “O Senhor põe primeiro o motivo depois a ação por meio da qual podemos alcançar o devido fim”. O fim é a vida, mas não qualquer vida, e sim um modo de vida superior, que não contém os males da vida presente e contém bens que não há na vida presente. Essa é vida eterna, participação na vida divina, um modo de vida cheio da plenitude de Deus, que por essência é a felicidade, porque Ele é a plenitude da Bondade, sem a qual não é possível a felicidade para aqueles capazes de possui-la. Santo Tomás diz que “a felicidade é o fim dos atos humanos”, “a felicidade é o fim da espécie humana, pois todos os homens naturalmente a desejam; por isso, a felicidade é um bem comum, possível de ser alcançado por todos os homens, a não ser que alguns fiquem privados por algum impedimento”.

Na Escritura, Cristo diz: “Eu sou a vida” (Jo 14,6). E São João Apóstolo, em um de suas cartas, diz: “Este é o Deus verdadeiro que é a vida eterna” (1Jo 5,20). Santa Catarina de Sena, em uma de suas cartas, aconselha uma mulher insatisfeita com certos sofrimentos da vida: “Apoiada na cruz e fortalecida pelas dores e sofrimentos de Cristo, tranquila aguardareis a eterna visão de Deus. Quem é perseguido e atribulado neste mundo, depois será saciado, consolado e iluminado na contemplação da divindade em gozo total, imediato, da divina doçura, mais ainda. Desde agora o Senhor consola os que por ele labutam. Mas sem o conhecimento de nós mesmos e sem o conhecimento da presença de Deus em nós, jamais atingiremos tão grande felicidade. Quanto sei e posso, suplico-vos que procureis com empenho esse conhecimento para obtermos a recompensa dos nossos esforços.”

E Santa Faustina diz em seu Diário (1630): “Meu Jesus, aumentai as forças de minha alma, para que o inimigo nada consiga. Sem Vós, sou apenas fraqueza. O que sou sem a Vossa graça, a não ser o abismo da minha miséria?”.

“Como a inteligência é anterior à Escritura, é dela que provém a sabedoria necessária para sua compreensão”

A autoridade da Sagrada Escritura depende da autoridade da Igreja, que definiu os livros sagrados que a compõem.  Neste sentido, Santo Agostinho disse: “Eu não acreditaria no Evangelho se não me movesse a isso a autoridade da Igreja Católica”. Em que parte a Escritura diz quais livros são os livros que devem fazer parte dela? Em nenhuma parte. E como sabemos quais são? Pela vida da Igreja, sua tradição e autoridade magisterial, dado por Cristo. A Igreja é “mãe e mestra”, “coluna e sustentáculo da verdade” (1Tm 3,15) também a respeito das Escrituras.

O “sola scriptura” do protestantismo depende, entre outras coisas, de saber quais livros são sagrados. Porém, a única de fonte de fé, segundo o protestantismo, não diz quais são todos os livros que deveriam compor as Escrituras como obrigatórios.  O “somente a escritura” não é confirmado pela Escritura, mas é uma perversão dela, que não pertence à Sabedoria Divina.

A Escritura é parte de uma realidade mais ampla, a Revelação, e não contém toda a verdade da Divina Revelação.  Ela é palavra de Deus em linguagem humana, porém a mera presença da palavra escrita ainda não é a Revelação, porque se assim não fosse não haveria divergências importantes quanto ao sentido do que foi dito. A Sagrada Escritura foi feito por Deus para ser entendida em seu verdadeiro conteúdo, vivo e vivificante, enquanto palavra do Senhor que são “Espírito e vida”, palavras de “vida eterna”. Assim, de nada vale mencionar trechos da Escritura se não há a inteligência, o entendimento dos sentidos em que ela deve ser entendida, como sentidos queridos por Deus. É necessário ir além das vestes literárias humanas para alcançar a palavra divina. Porém, sem o auxílio do Espírito Santo isso não é possível, pois o Espírito da Verdade é aquele que fala e diz o sentido do que falou, o comunicador e o interprete.  

Deus Pai ensina a Santa Catarina de Sena: “Como a inteligência é anterior à Escritura, é dela que provém a sabedoria necessária para sua compreensão. Foi por tal modo que os santos profetas entenderam e falaram sobre a encarnação e morte de meu Filho; que os apóstolos foram sobrenaturalmente iluminados com a vinda do Espírito Santo em Pentecostes; que os evangelistas, doutores, confessores virgens e mártires acolheram brilhante luz. A seu modo, cada um deles a recebeu de acordo com as necessidades da salvação pessoal e dos outros -, e da interpretação das Escrituras os doutores esclareceram a mensagem de Cristo pela sabedoria; os apóstolos, pela pregação; os evangelistas, escrevendo-a os mártires, testemunhando, com seu sangue, a luz da fé e riqueza da paixão de Cristo; as virgens, obedecendo. Pela obediência, amor e pureza, estas últimas revelaram a perfeita hu mildade do meu Filho, que por obediência correu (Mc 10,32 para a terrível morte na cruz.” (O Diálogo)

São Geraldo Magela e a importância de receber dignamente o Corpo de Cristo, a Divina Eucaristia

“- Como foi o acontecido com aquele rapaz de Lacedônia?

Era um libertino desmiolado, o escândalo da cidadezinha. O senhor bispo, em Lacedônia, já tinha esgotado sua reserva de paciência com ele, e o moço sempre aprontando das suas.

De certa feita, a coisa passou dos limites. As autoridades e o bispo (como era de costume, então) tomaram uma atitude drástica: obrigaram-no a fazer retiro espiritual, em Deliceto, pregado pelos padres redentoristas.

– E o rapaz aceitou?

Que remédio!? Era lei naqueles tempos. Se não aceitasse ver-se-ia numa bruta enrascada. Por isso, foi mais por pura formalidade. “Uma caiação externa” como ele mesmo dizia. A jogada era enganar temporariamente as autoridades para começar tão logo aparecessem as oportunidades.

– Era o que ele calculava, mas sem contar que em Deliceto morava um santo.

Ouviu as pregações, confessou-se sem qualquer arrependimento e sem a mínima vontade de mudar de vida.

– Pelo visto, a sinceridade não era uma das suas características…

Na hora da missa para os retirantes, aproximou-se com os outros para receber também a santa comunhão. Para felicidade sua, Irmão Geraldo rondava por ali, e barrou-lhe os passos:

“Aonde vai?”

E o rapaz entre jovial e divertido:

“Ora, meu irmão!… vou comungar… o retiro não é para isso? A gente ouve os bons conselhos dos padres… comunga com fervor…”

Geraldo encara-o com olhar fuzilante:  

“Comungar, meu amigo?! O senhor tem coragem disso?! Nessa morada tão cheia de imundícies querer hospedar Deus!… Não… sua consciência está muito suja… mais suja que debaixo do poleiro das galinhas!… É preciso lavar sua consciência… os pecados que escondeu na confissão. Pense na sua consciência! Vá se confessar primeiro, confessar-se bem, confessar-se com sinceridade de arrependimento e propósito! Deus é Pai incomparavelmente bom, mas é também incomparavelmente justo. Não se esqueça disso! As consequências podem ser terríveis para o senhor. Não se brinca com o Amor de quem morreu pelo senhor. Confesse-se bem, senão a terra vai se abrir e o engolirá, pense nisso, hein!”

– Convenhamos, foi um murro na cara do moço! Por essa é que o nosso jovem não esperava.

Palavras caridosas e, ao mesmo tempo, sérias e severas. Convenhamos, pois não?… E o que é mais sério, proferidas por um santo que as vivia na fé. Tinham de surtir bom efeito.”

(Do livro “São Geraldo Magela”, páginas 119-120)

Não maltrate a Cristo: não receba a Eucaristia na imundície dos pecados graves não confessados e sem o sincero arrependimento

Paciência nas dificuldades da vida

“Carta de Santa Catarina de Sena para Lapa Piagenti. Mãe de 25 filhos, Lapa queixava-se muito das dificuldades da vida após a morte do marido. Catarina soube disso em Roma e escreveu à mãe, pedindo-lhe paciência.

Para Lapa Piagenti

1. Saudação e objetivo

Em nome de Jesus Cristo crucificado e da amável Maria, querida mãe1 em Jesus Cristo, eu Catarina, serva e escrava dos servos de Jesus Cristo, vos escrevo no seu precioso sangue, desejosa de vos ver conhecendo a si mesma e conhecendo a presença de Deus em vós.

2. Frutos do autoconhecimento. Conclusão

Sem esse conhecimento não participareis da vida da graça. Vós deveis ter esta santa e grande preocupação: de que por vós mesma nada sois e de que vem de Deus o que sois. Dele recebestes o ser e, dia após dia, Deus vos concede muitos favores e graças. Se fordes grata a Deus, alcançareis a perfeita paciência e não ficareis a fazer comparações entre sofrimentos grandes e sofrimentos pequenos, porque então os grandes vos parecerão um nada a ser suportado por Jesus Cristo crucificado. Avalia-se o bom soldado de cavalaria no campo da batalha. Também vossa alma tem de ser experimentada na luta das grandes dores. Se vossa alma se mostrar bastante paciente, se não desanimar nem se revoltar, se não se escandalizar diante dos acontecimentos que Deus permite, poderá rejubilar-se, alegrar-se e, contente, esperar a vida eterna. Apoiada na cruz e fortalecida pelas dores e sofrimentos de Cristo, tranquila aguardareis a eterna visão de Deus. Quem é perseguido e atribulado neste mundo, depois será saciado, consolado e iluminado na contemplação da divindade em gozo total, imediato, da divina doçura, mais ainda. Desde agora o Senhor consola os que por ele labutam. Mas sem o conhecimento de nós mesmos e sem o conhecimento da presença de Deus em nós, jamais atingiremos tão grande felicidade. Quanto sei e posso, suplico-vos que procureis com empenho esse conhecimento para obtermos a recompensa dos nossos esforços. Permanecei no santo e doce amor de Deus. Jesus doce, Jesus amor”.

Santa Catarina de Sena, em “Cartas Completas”.

“As vestes da Rainha são suas virtudes, sumamente agradáveis ao Rei”

“Ester revestiu-se com vestes de rainha e foi colocar-se no vestíbulo interno do palácio real, frente à residência do rei. O rei estava sentado no trono real, na sala do trono, frente à entrada. 2 Ao ver a rainha Ester parada no vestíbulo, olhou para ela com agrado e estendeu-lhe o cetro de ouro que tinha na mão, e Ester aproximou-se para tocar a ponta do cetro. 7,2b Então, o rei lhe disse: “O que me pedes, Ester; o que queres que eu faça? Ainda que me pedisses a metade do meu reino, ela te seria concedida”. 3 Ester respondeu-lhe: “Se ganhei as tuas boas graças, ó rei, e se for de teu agrado, concede-me a vida – eis o meu pedido! – e a vida do meu povo – eis o meu desejo!”( Est 5).

Como um modo correto de considerar o sentido da Escritura Sagrada, nessa história, por analogia, Maria é Ester e o Rei é Deus. As vestes da Rainha são suas virtudes, sumamente agradáveis ao Rei. Elas pertencem ao Rei e foram vestidas no palácio real, o que significa que as encantadoras bondades de Maria foram concedidas por Deus e aceitas por ela em sua liberdade de criatura espiritual. Em suas criaturas, que por si mesmas nada são, Deus ama a sua própria bondade, nelas difundida. São Luís de Montfort diz: “Deus Pai ajuntou todas as águas e denominou-as mar; reuniu todas as graças e chamou-as Maria”.

Pelas disposições do Rei, Maria é a “onipotência suplicante”, porque o Rei dos Céus, o Onipotente por essência, está disposto a conceder-lhe o que Ela pedir e Maria, revestida das virtudes, não pode nada que possa desagradar a Deus. E em suas virtudes, sobretudo a caridade, que expressa sua união com o Espírito Santo, pede a vida para o seu povo ameaçado pela morte. Assim, no “Salve Rainha” é dito: “Salve, Rainha, Mãe de Misericórdia, vida, doçura e esperança nossa, Salve. A Vós bradamos, os degredados filhos de Eva”. E na “Ave Maria” é dito: “Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte”. Assim, os desejos de Maria, a Rainha, são os desejos da Bondade Divina, do puro Amor, que desejou para si e deseja para o povo a vida eterna, participação na Vida Divina pela união perpétua com o Sumo Bem.

“Viva Mãe de Deus e nossa, Sem pecado concebida! Viva, Virgem Imaculada! Ó Senhora Aparecida!”

“Que comunidade pode haver entre a luz e as trevas?”

No tema da unidade e da concórdia, há quem defenda uma fraternidade universal de religiões e há quem defenda uma comunhão entre as diversas denominações ditas cristãs. Porém, a verdadeira unidade, que imita a unidade divina, que corresponde ao Logos Divino, jamais está acima da verdade, porque é unidade na verdade. Uma unidade acima da verdade é uma falsa unidade, uma unidade exterior, pura aparência que esconde sob vestes enganosas o que é falsidade e maldade, conforme a Sabedoria Divina. Cristo disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim”; e disse: “É para dar testemunho da verdade que nasci e vim ao mundo. Todo o que é da verdade ouve a minha voz”. Isso significa que a questão de qual é a religião verdadeira é de máxima importância.

A verdade e a certeza são dois valores importantes da vida humana, da vida da consciência, o que inclui a filosofia e as ciências. Assim como a razão filosófica e a razão científica exigem a verdade e a certeza, porque sem elas as duas perdem o sentido, a razão religiosa exige o dogma. Enquanto exigência de verdade e certeza, de certo modo o dogma é a razão na verdadeira religião. Uma posição religiosa que afirma uma aversão ao dogma, no sentido aqui considerado, é contrária à razão, prefere o mito ao logos. Como todo relativismo, o “relativismo dogmático” é um discurso sem inteligência.

Com relação à fé católica, o protestantismo e seus filhos se caracterizam pelas diferenças, que no caso são diferenças dogmáticas decisivas. Como os dogmas católicos são verdades imutáveis da Revelação Divina, parte essencial da verdadeira religião, é impossível qualquer conciliação com o protestantismo, sem sacrificar aos ídolos os dogmas da fé, como a presença substancial de Cristo na Sagrada Eucaristia. O mesmo vale com relação demais religiões consideradas como tais em certo sentido.  Na Escritura, São Paulo diz: “Não vos prendais ao mesmo jugo com os infiéis. Que união pode haver entre a justiça e a iniquidade? Ou que comunidade entre a luz e as trevas? Que compatibilidade pode haver entre Cristo e Belial? Ou que acordo entre o fiel e o infiel? Como conciliar o Templo de Deus e os ídolos?” (2Cor 6,14-16).

“Foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por ela que deve reinar no mundo”

São Domingos e o Santo Rosário

“14. Confesso com toda a Igreja que Maria é uma pura criatura saída das mãos do Altíssimo. Comparada, portanto, à Majestade infinita ela é menos que um átomo, é, antes, um nada, pois que só ele é “Aquele que é” e, por conseguinte, este grande Senhor, sempre independente e bastando-se a si mesmo, não tem nem teve jamais necessidade da Santíssima Virgem para a realização de suas vontades e a manifestação de sua glória. Basta-lhe querer para tudo fazer.

15. Digo, entretanto, que, supostas as coisas como são, já que Deus quis começar e acabar suas maiores obras por meio da Santíssima Virgem, depois que a formou, é de crer que não mudará de conduta nos séculos dos séculos, pois é Deus, imutável em sua conduta…

1. Foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por ela que deve reinar no mundo. 5. Maria é a obra-prima por excelência do Altíssimo… 23. Deus Pai ajuntou todas as águas e denominou-as mar; reuniu todas as graças e chamou-as Maria. Este grande Deus tem um tesouro, um depósito riquíssimo, onde encerrou tudo que há de belo, brilhante, raro e precioso, até seu próprio Filho; e este tesouro imenso é Maria, que os anjos chamam o tesouro do Senhor, e de cuja plenitude os homens se enriquecem” (São Luís de Montfort, em “Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem”).