A certeza objetiva e a verdade: bem e perfeitação para a inteligência

Enquanto pessoa espiritual, o homem é um ser consciente, dotado de inteligência. É próprio da consciência humana a relação com o ser, porque a consciência é sempre consciência de algo. Um dos estados da alma humana é a dúvida, que está presente quando não há uma adesão da mente, que permanece como que suspensa, oscilante, com o termo errar.

A dúvida sob certo aspecto é uma negação e sob outro aspecto é uma afirmação. Nela há o não e o sim, e há uma tripla presença necessária e simultânea: o ato de duvidar, aquele que duvida e a coisa duvidada. Assim, são três afirmações presentes na dúvida e sem uma dessas realidades ela não existe. Neste sentido, pode-se dizer com razão que a dúvida, um ato de negação, afirma o ser.

Uma dúvida absoluta é impossível, porque ela equivale a um não absoluto, a uma negação absoluta, que exclui a própria dúvida, como uma não-dúvida. Assim, a dúvida absoluta é uma contradição, um sem sentido, como um quadrado-redondo ou uma madeira de aço. É um principio universal do ser que tudo o que contradiz essencialmente a si mesmo não pode existir. Esse é o caso da dúvida absoluta, que é um puro não ser, porque não é sequer possível. Por isso, a dúvida é sempre relativa e exige o indubitável.

Uma consequência da “dúvida da dúvida” é o reconhecimento do indubitável, de que nem tudo é duvidoso. Isso significa os limites razoáveis da dúvida ou os limites da dúvida razoável. Como o “não” dependente e subordinado ao “sim”, a dúvida tem sempre valor relativo, e não pode ser o valor supremo da realidade humana nem da consciência humana. Para a mente, a dúvida significa carência e imperfeição, de modo que a perfeição está em superá-la pela posse da certeza objetiva e da verdade, um bem para a inteligência.

Assim, posso ser cético com razão ou cético contra a razão. No ceticismo que duvida de tudo, como se tudo fosse duvidoso, não há inteligência nem verdade, portanto é infelicidade para a alma.

Cristo disse a Tomé: “Introduz aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos. Põe a tua mão no meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de fé”. Respondeu-lhe Tomé: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20, 27-28).

“Ai daqueles que são sábios aos próprios olhos, e prudentes em seu próprio juízo”

“Não te firmes em tua própria sabedoria” (Provérbios 3,5). Esse mesmo conselho divino é dito pelo profeto Isaías: “Ai daqueles que são sábios aos próprios olhos, e prudentes em seu próprio juízo” (5,21). Ele está vinculado ao que o profeta diz anteriormente: “Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem, mal, que mudam as trevas em luz e a luz em trevas, que tornam doce o que é amargo, e amargo o que é doce!” (5,20).

A verdadeira sabedoria é antes de tudo e em tudo a Sabedoria Divina, o conhecimento que Deus tem de si mesmo, e por conhecer a si, o conhecimento que Ele tem de cada coisa em sua totalidade e intimidade, porque todas as coisas procedem d’Ele como a causa total dos seres, o Princípio universal de todo ser e bondade. Neste sentido, não pode haver sabedoria fora de Deus e contra Deus. Sabedoria fora e contra Deus é mudar as trevas em luz e a luz em trevas, é ao mal chamar bem, e ao bem mal.

Por isso, no conselho de seguir os ensinamentos e preceitos dados pela Sabedoria Vivente amante dos homens, é dito “não te firmes em tua própria sabedoria”, isto é, reconheça quem és e não te deixes conduzir pelas ideias próprias e pela vontade própria que não estão em comunhão com as ideias divinas e a Vontade Divina, que para o homem quer o bem e o melhor, a paz verdadeira e a felicidade eterna.

A Santíssima Virgem, Sede da Sabedoria, disse: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lucas 1,38). E Cristo disse: “Pai, Senhor do céu e da terra, eu te dou graças porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos” (Lucas 10,21).

Nenhuma criatura glorifica mais a Deus do que Maria Santíssima

Principalmente em razão de sua Maternidade Divina concedida pelo Deus Onipotente, Maria é cheia de graça no sentido em que não lhe falta graça nenhuma.

Santo Tomás de Aquino diz que não é o bem preexistente na criatura que causa o amor de Deus, mas sim o amor de Deus pela criatura que causa o bem nela. Maria recebe de Deus o amor paternal do Pai perfeitíssimo, o amor filial de Filho perfeitíssimo e o amor esponsal do Esposo perfeitíssimo, que a ela se uniu para gerar o Verbo Encarnado.

Pela onipotência de Deus e pelos méritos infinitos do sangue de Cristo, qualquer homem pode ser purificado ou preservado da marca do pecado original. A Imaculada Conceição de Maria não diminui a grandeza de Deus nem o primado de Cristo como Salvador, e sim o contrário, pois nisso eles são confirmados.

A plenitude de graça recebida por Maria corresponde à ideia perfeitíssima que devemos ter de Deus, sobretudo da generosidade de seu amor misericordioso para com a criatura humana. Do verdadeiro Deus devemos ter uma ideia perfeitíssima, porque Ele é o Ser Infinito totalmente perfeito, de perfeitíssimo poder, sabedoria e bondade. Perfeitíssimos são todos os seus atributos, muito além da mais perfeita concepção humana, como o finito está distante do infinito.

A criatura não deve substituir o Criador, porque isso é idolatria, um engano, algo sem sentido. Por meio das criaturas se deve conhecer e glorificar o Criador. E nenhuma criatura glorifica mais a Deus do que Maria. Cristo Senhor e Maria Santíssima significam as disposições generosíssimas de Deus para com o homem. Assim, na Sagrada Escritura é dito: “Pois Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).

Lição sobre o 2º mandamento da Lei de Deus

Deus é a Verdade Puríssima, que por sua natureza divina repeli a falsidade, como o maximamente luminoso repele as trevas. São Boaventura diz que um dos modos de dizer o santo nome de Deus em vão, contrário ao que manda o 2º mandamento da lei de Deus, é dizer palavras mendazes, é negar uma verdade ou afirmar uma falsidade sobre Deus.

E se este mandamento inclui as coisas santas e sagradas pela relação com o Ser Divino, como a Sagrada Eucaristia, a Santa Igreja Católica e a Santa Mãe de Deus, o mesmo vale para elas. Assim, aqueles que maliciosamente negam verdades ou afirmam falsidades sobre a Santa Igreja, a Sagrada Eucaristia e Maria Santíssima agem contra o 2º mandamento.

A este respeito, podemos considerar, por exemplo, o caso de Hananias, no livro do profeta Jeremias. É dito: “E Jeremias acrescentou, ao dirigir-se ao profeta Hananias: “Ouve bem, Hananias! Não te outorgou missão o Senhor. És tu que arrastas o povo a crer na mentira. Por isso, eis o que disse o Senhor: Vou afastar-te da face da terra. Ainda neste ano morrerás, pois que insuflaste a revolta contra o Senhor!”(Jr 28,15-16)”. Outro exemplo é o que é dito no livro do profeta Isaías: “Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem, mal, que mudam as trevas em luz e a luz em trevas, que tornam doce o que é amargo, e amargo o que é doce! Ai daqueles que são sábios aos próprios olhos, e prudentes em seu próprio juízo!” (Is 5,20).

O Ser, com seu Logos e verdades eternas, antecede, acompanha e sucede o homem

O Ser, com seu Logos e verdades eternas, antecede, acompanha e sucede o homem, ou seja, o Ser independe do homem, e é o homem que depende dele. De certo modo, na Sagrada Escritura isso é dito por São Paulo Apóstolo, quando afirma: “Nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 28).

Tal verdade é uma razão contra o relativismo, que diz: “O homem é a medida de todas as coisas, das que são pelo que são, e das que não são pelo que não são” (Protágoras, sofista grego). Também é razão contra o ceticismo-niilismo, que afirma: “Nada é (ou existe), mesmo que fosse, não poderia ser conhecido, e mesmo que fosse e pudesse ser conhecido, não poderia ser comunicado” (Górgias, sofista grego). Se essa tripla negação fosse verdadeira, jamais poderia ter sido dita, porque dizê-la é comunicá-la, e para comunicá-la é necessário conhecê-la, e só pode ser conhecida porque é algo, pelo modo de ser que possui.

Os dois são discursos sem inteligência, cheios de confusão, fantasias humanas. Não podem ser princípios filosóficos da cosmovisão de uma cultura benéfica para o homem, criatura espiritual desejante de felicidade e dependente do Ser e da Bondade, porque seus frutos são o caos e não a ordem, o vício e não a virtude, a infelicidade e não e felicidade, a morte e não a vida.

“Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Começo e o Fim”

“O Ser não pode ter surgido subitamente, pois sempre houve alguma coisa” (Mário Ferreira dos Santos, filósofo brasileiro).

Do nada absoluto nenhuma coisa pode surgir, porque o nada absoluto significa necessariamente a ausência total de qualquer coisa, inclusive de qualquer poder e possibilidade. Por isso, o ser que há, em sua inegável presença, não pode ter surgido do nada, caso contrário o nada absoluto teria em si uma possibilidade, algum modo de ser, o que é impossível, uma contradição, um absurdo, pela noção mesma de nada total.

E de si mesmo o ser não pode ter surgido, porque isto significaria existir antes de existir, dado que a possibilidade exige algo existente para ser verdadeira possibilidade, de modo que o ser que surge de si mesmo, sem antes existir, é impossível, um absurdo.

Pelas impossibilidades consideradas, há apenas uma afirmação razoável e inevitável: dado que alguma coisa há, necessariamente sempre houve alguma coisa, sempre houve o ser. Por isso, pode-se dizer com razão que o ser é sem princípio, é imprincipiado, e pela impossibilidade do nada absoluto também é sem fim.

Assim, o Ser em si não tem princípio nem fim ao mesmo tempo em que é o Primeiro principio e o Fim último de todas as coisas. Neste sentido, o Ser em si, o Ser Supremo, o Ser Eterno, é o próprio Deus.

No livro do Apocalipse, de São João Apóstolo, é dito: “Não seles o texto profético deste livro, porque o momento está próximo. O injusto faça ainda injustiças, o impuro pratique impurezas. Mas o justo faça a justiça e o santo santifique-se ainda mais. Eis que venho em breve, e a minha recompensa está comigo, para dar a cada um conforme as suas obras. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Começo e o Fim” (22, 12-13).

“Há quatro coisas que nos movem a observar os mandamentos de Deus”

“1. Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos”. Estas palavras estão escritas em Mateus (19,17), e são palavras de nosso Salvador que resumem dois aspectos de nossa salvação: primeiro, o prêmio da recompensa eterna: se queres entrar na vida; segundo, o mérito das obras humana: guarda os mandamentos. Esta é a ordem correta, poiso fim move o agente a busca o fim devido. Sigamos, pois a ordem proposta por nosso grande Mestre, e, antes dos preceitos, falemos da observância dos preceitos.

2. O Senhor põe primeiro o motivo e depois a ação por da qual podemos alcançar o fim devido. Note-se que há quatro coisas que nos movem a observar os mandamentos de Deus: a primeira é a autoridade ou a dignidade de quem manda; a segunda é a utilidade da observância; a terceira é o perigo que advém da transgressão; a quarta é a irrepreensibilidade dos mandamentos. Portanto, como aquele que nos manda observar os preceitos possui grande autoridade, como a observação dos preceitos é maximamente útil e como há grande perigo em transgredi-los, sendo os mandamentos irrepreensíveis, ninguém pode escusar-se da sua observância. (…)” (São Boaventura, em “Conferências sobre os Dez Mandamentos”) 

A pedagogia divina: do sensível ao invisível

Eis porque a restauração (medicina) que em sua bondade inefável a divina Providência propõe à alma é também mui bela em seus graus e ordem. Deus emprega dois meios: a autoridade e a razão. A autoridade exige a fé e prepara o homem para a reflexão. A razão conduz à compreensão e ao conhecimento. A autoridade, porém, jamais caminha totalmente desprovida da razão, ao considerar Aquele em que se deve crer. Certamente, a suma autoridade será a verdade conhecida com evidência. Mas como nós estamos imersos no temporal – cujo amor nos impede de conhecer o eterno – o melhor remédio – não por sua natureza e excelência – isto é, o tratamento mais adequado, será também um temporal, que convide à salvação, não os sábios, mas os que creem.

É no lugar onde alguém caiu que é preciso que ele se apoie para se reerguer. Portanto, é precisamente sobre as formas carnais que nos detêm, que encontramos apoio para conhecer aquele outras formas que a carne não manifesta. Denomino formas carnais aquelas que se podem perceber por meio do corpo, isto é: olhos, ouvidos e outros sentidos corporais. Essas formas carnais ou corporais que retêm o nosso amor são necessárias na infância; na adolescência não muito; e em seguida, com o progresso da idade, não serão mais necessárias” (Santo Agostinho, em “A Verdadeira Religião”).

A ira de Deus e os homems que pela injustiça aprisionam a verdade

São Paulo Apóstolo ensina: “A ira de Deus se manifesta do alto do céu contra toda a impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça aprisionam a verdade”. (Rm 1,18).

A linguagem da Escritura contém modos de dizer. Quando se fala da ira de Deus, isto não deve ser entendido em sentido humano, como o homem que sente ira, e sim deve ser entendido como a justiça divina e seus efeitos nas criaturas, ante a maldade dos malvados. Em certo sentido, seria dizer: dignas de ira são as más obras dos homens, e pela ira merecem punição. No caso, “a impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça aprisionam a verdade”, os fazem merecedores de castigo perante a justiça divina, sempre puríssima. Como Deus é a Verdade Puríssima, para Ele a verdade tem sempre a máxima importância, assim como a bondade, porque ele também é Bondade Puríssima. Deus é o Deus da razão, da ordem, do cosmos, que tudo faz com “medida, quantidade e peso” (Sb 11, 20).

A este respeito, Santo Tomás ensina: “Lê-se ainda que é costume da Sagrada Escritura transferir analogicamente para Deus paixões da alma humana. Assim, é dito no Salmo: ‘Deus ficou muito irado com o seu povo (Sl 105,40). Deus é dito irado por causa da semelhança do efeito. Com efeito, Deus pune, o que também fazem os irados. Donde, logo a seguir é dito: ‘Entregou-os as mãos dos povos’ (Sl 105,41). Por isso, diz-se que o Espírito Santo se entristece devido à semelhança do efeito, pois abandona os pecadores, como os entristecidos abandonam os que os entristecem”.

Pela ordem divina do ser, a verdade não deve ser aprisionada e sim brilhar como luz para a mente das criaturas espirituais. Se a piedade significa a religião, então a impiedade é a falsidade contra a verdadeira religião, consequentemente contra o verdadeiro Deus. Quando Deus Criador, o Primeiro Principio e Sumo Bem, não é reconhecido mas negado, há impiedade, a verdade é aprisionada.

São Maximiliano Kolbe diz: “Não é lícito ensinar uma coisa que não é verdadeira. Se o paraíso e o inferno não existem, todos devem sabê-lo; mas se existem, igualmente todos os homens devem sabê-lo”.

Algumas razões do milagre das Bodas de Caná enquanto algo da Providência

“Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná da Galileia, e achava-se ali a mãe de Jesus. Também foram convidados Jesus e os seus discípulos. Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-lhe: “Eles já não têm vinho”. Respondeu-lhe Jesus: “Mulher, isso compete a nós? Minha hora ainda não chegou”. Disse, então, sua mãe aos serventes: “Fazei o que ele vos disser”. Ora, achavam-se ali seis talhas de pedra para as purificações dos judeus, que continham cada qual duas ou três medidas.*  Jesus ordena-lhes: “Enchei as talhas de água”. Eles encheram-nas até em cima. “Tirai agora” – disse-lhes Jesus – “e levai ao chefe dos serventes”. E levaram. Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo de onde era (se bem que o soubessem os serventes, pois tinham tirado a água), chamou o noivo 10.e disse-lhe: “É costume servir primeiro o vinho bom e, depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o vinho me­lhor até agora”. Esse foi o primeiro milagre de Jesus; realizou-o em Caná da Galileia. Manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele” (Jo 2, 1-12).

Cristo é o Logos Divino, a Sabedoria Divina, e tudo o que Ele faz é cheio de sentido, cheio de razões. O milagre das Bodas de Caná corresponde à Providência Divina, que tudo governa conforme o modo de ser de cada coisa, para que atinjam seu fim próprio, pela verdade e bondade de sua essência, enquanto ideia divina.

O milagre acontece após o pedido de Maria, a Mãe Santíssima do Divino Jesus, para mostrar o poder de sua intercessão ante o Filho, o poder da “onipotência suplicante”, a quem a Trindade Onipotente nada recusa. O milagre foi feito por Jesus para sinalizar sua Divindade, como o visível que indica o invisível, porque somente Deus pode por si mesmo fazer milagres. É próprio de Deus em sua perfeita generosidade conceder um bem em vista de um bem superior, e assim os milagres também acontecem para confirmar a verdadeira fé, bem necessário para a salvação, no sentido em que é dito que “quem não crer será condenado” (Mc 16, 16). Enquanto bem superior destinado por Deus a todos os homens, que Ele deseja salvar, a salvação conseguida pela obediência da fé, pela perseverança na bondade segundo Cristo, contém o bem supremo da participação eterna na vida divina, felicidade sem fim junto do Deus perfeitíssimo. Assim, é dito: “Manifestou a sua glória e seus discípulos creram nele”.