A língua da serpente diabólica: divisão pela falsidade e veneno do pecado

A Sagrada Escritura é palavra de Deus escrita em linguagem humana. Ela está cheia de significados, de verdades importantes, e deve ser corretamente entendida. Isto vale para a história da serpente.

A serpente do Gênesis significa o Diabo, uma criatura espiritual (“anjo”) de alta hierarquia que se encheu de soberba, entrou em rebelião contra o Criador, arrastou consigo outros anjos, tornados demônios, e por ódio tentou o homem para que ele pecasse e assim sofresse. A este respeito, no Apocalipse (12,9) São João Apóstolo diz: “E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo; ele foi precipitado na terra, e os seus anjos foram lançados com ele”. Na sabedoria divina, há várias razões para falar do diabo tentador como uma serpente. Dois exemplos.

Primeiro, a serpente tem língua bifurcada, dividida em duas, o que entre outras coisas significa que, enquanto “pai da mentira”, em sua tentação o tentador engana pela mistura de alguma verdade com uma falsidade importante, sempre com aparência de bondade. Assim, é dito: “A mulher, vendo que o fruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto e mui apropriado para abrir a inteligência, tomou dele, comeu, e o apresentou também ao seu marido, que comeu igualmente”.

Segundo, a serpente é venenosa, o que significa que o diabo traz consigo o veneno do pecado, que infecta o homem picado por ele e lhe causa danos.

A língua do diabo é a língua daquele que divide, daquele que deseja separar o homem de Deus, ensinando-lhe o caminho do pecado, da rebeldia, da desobediência, veneno danoso.

Certa vez Bento XVI disse: “A serpente levanta a suspeita de que a aliança com Deus seja como uma prisão que une, que priva da liberdade e das coisas mais belas e preciosas da vida. A serpente, como sinal da tentação, leva o homem a não aceitar os seus limites de criatura e a pensar a dependência do amor criador de Deus, como um fardo do qual deve se libertar. Este é sempre o núcleo da tentação”.

Imunes a seus venenos de falsidade e pecado, Cristo e Maria, o Novo Adão e a Nova Eva, esmagam a cabeça da serpente pela obediência ao Pai Criador e pela destruição das mentiras de satanás.

“Oxalá a bondade e a fidelidade não se afastem de ti”

Em Provérbios é dito: “Oxalá a bondade e fidelidade não se afastem de ti” (3,3). Os ensinamentos e preceitos de Deus são para a felicidade do homem. Deus é o Sumo Bem e jamais quer o mal, que lhe é absolutamente impossível. Deus é amor, e é próprio do amor desejar o bem do amado. O homem é criatura, portanto querida por Deus, e assim amada por Deus. Todas as criaturas têm o ser em Deus, são conhecidas em Deus e são amadas em Deus, porque participam do Ser que em si é Deus, e são como que bondade da Bondade Divina. Deus ama a si mesmo como Sumo Bem, o mais amável, e ama tudo aquilo que participa de si, por sua concessão. Como próprio do ser humano, Deus criou o homem para ser para a felicidade, para uma existência feliz.

Deus é o Governante dos cosmos, tudo governa com sua Providência, com sua Bondade Onipotente, o que inclui o homem. Ele governa cada coisa conforme seu modo de ser. O homem é criatura racional, de modo que é dirigido por Deus enquanto tal, para atingir seu fim, que é felicidade pela união com Deus. Como próprio do ser humano, Deus criou o homem para ser uma existência feliz duradoura.

Santo Tomás diz: “É evidente que o homem se une a Deus principalmente pelo amor. Há no homem duas coisas pelas quais ele pode se unir a Deus – a inteligência e a vontade, pois, pelas partes inferiores da alma, ela não pode se unir a Deus, mas só às coisas inferiores”.

O homem deve aceitar confiantemente o governo de Deus, que é para ele com um pai amoroso que, pelo seu perfeito amor, quer e age para o bem de seu filho. Que Deus ama o homem, a própria criação o diz, e ainda mais o diz a Salvação em Cristo pela paixão e morte na Cruz, como vítima inocente que sofre livremente para a bondade dos maus que se comportam como seus inimigos, cheios de ofensas e oposições. Assim, em Provérbios também é dito: “Que teu coração deposite toda confiança no Senhor” (3,5).

A bondade da verdadeira fé para a Bondade Suprema

Em sua Carta aos Romanos (1), São Paulo diz: “8.Primeiramente, dou graças a meu Deus, por meio de Jesus Cristo, por todos vós, porque em todo o mundo é preconizada a vossa fé. (…) 11.Desejo ardentemente ver-vos, a fim de comunicar-vos alguma graça espiritual, com que sejais confirmados, 12.ou melhor, para me encorajar juntamente convosco naquela vossa e minha fé que nos é comum”.

Quem agradece sempre agradece por algo. Não é possível um agradecimento sem motivo, e nele aquilo pelo qual se agradece é reconhecido como algo bom. Sem bondade não há motivo para agradecer e sem a consciência da bondade não é possível o agradecimento.

Por meio de Cristo, o Caminho, São Paulo agradece a Deus pela fé exemplar dos romanos, recomendada em todo o mundo. Ele agradece a Deus porque isso é obra divina. Como motivo para agradecer a Deus, nisso há pelo menos duas bondades.

Primeiro, a bondade da verdadeira fé. A verdadeira fé inclui duas coisas: uma é crer no que é verdadeiro, pois, se ela é concedida por Deus, não pode conter nada falso, dado que Deus é a Verdade Puríssima; a outra é ser uma fé viva pelas obras, que são provas de que alguém a possui efetivamente. Isto corresponde ao que São Tiago Apóstolo ensina em sua Carta (2,17) e ao que Cristo ensina quando diz que aqueles que o amam cumprem seus mandamentos, pois só pode amar Cristo quem o conhece e a fé verdadeira é um modo de conhecê-lo, que dará lugar à visão imediata, nessa vida terrena para alguns, por graça especial como na Transfiguração, e na vida futura para todos os que entram no Céu.  

Segundo, a bondade da verdadeira fé ser recomendada em “todo o mundo”, como algo exemplar a ser imitado. Assim deve ser, porque, pela Sabedoria divina, deve haver unidade na verdadeira fé, que é antes de tudo unidade na verdade e unidade na obediência a Cristo.  Por isso, São Paulo diz “naquela vossa e minha fé que nos é comum”. Comunhão é o um no múltiplo, unidade na pluralidade. Por exemplo, como verdades importantes do Evangelho, se Cristo é Deus, todos devem crer que é Deus, e se enquanto homem Ele ressuscitou, todos devem crer que ressuscitou. O contrário disso é falsidade, uma fé falsa, que não pertence ao caminho da salvação. Por essa e por outras, pela lei divina, que corresponde ao Logos Divino, os homens devem aceitar a verdadeira fé. E, como é próprio de Deus, tudo isso é dado ao homem como bens que conduzem ao Supremo Bem, que é a participação na felicidade divina pelo conhecimento e o amor, pela vivência plenamente consciente de um novo modo de ser, a vida eterna.  

Quem é Maria?

“Por si mesmo não é nada, como as outras criaturas, mas por obra de Deus é a mais perfeita de todas elas. A mais perfeita semelhança do Ser Divino numa criatura perfeitamente humana.

Por isso, Ela procede do Pai através do Filho e do Espírito Santo, como Criador que do nada, à imagem de si mesmo, à imagem da Santíssima Trindade, chama os seres finitos à existência, por amor às próprias semelhanças finitas que estes reproduzem.

Eles correspondem com o amor, tanto pelo que receberam, quanto pelo fato de que Ele, como perfeição infinita, é digno de um amor infinito. Em consequência, sendo seres limitados, que não conseguem render-lhe uma amor infinito, ao menos se esforçam por superar os limites de seu amor.

A Imaculada nunca teve mancha de pecado, o que quer dizer que o seu amor sempre foi total, sem qualquer defeito. Amou a Deus de maneira tão perfeita  desde o primeiro instante de vida, que no dia da Anunciação o anjo pode dirigir-se a Ela dizendo: “Cheia de graça, o Senhor é contigo” (Lc 1,28).

Ela é, assim, a criatura de Deus, propriedade de Deus, semelhança de Deus, imagem de Deus, da maneira mais perfeita possível a um ser meramente humano.

Ela é instrumento de Deus. Com plena consciência, deixa-se conduzir por Deus voluntariamente, conforma-se à Sua vontade, deseja somente o que Ele quer, age de acordo com a Sua vontade e isto da maneira mais perfeita possível, sem o mínimo defeito, sem que a sua vontade se separe da vontade deles.

É um instrumento de Deus no perfeito uso das faculdades e privilégios que lhe foram concedidos, para cumprir sempre e em tudo, única e exclusivamente, a vontade de Deus, por amor a Deus uno e trino. Este amor a Deus atinge cumes tais que produz frutos divinos de amor.

A sua união de amor com Deus chega a tal ponto que Ela se torna Mãe de Deus.

O Pai lhe confia o próprio filho, o Filho desce ao seu seio, enquanto o Espírito Santo forma, pelo corpo dela, o corpo Santíssimo de Jesus”. (São Maximiliano Kolbe)

Quanto mais graves e abundantes são os pecados, maiores são as perdas e maior é a miséria e a infelicidade

No Salmo 50, Davi diz: “Tende piedade de mim, Senhor, segundo a vossa bondade. E conforme a imensidade de vossa misericórdia, apagai a minha iniquidade. Lavai-me totalmente de minha falta, e purificai-me de meu pecado. Eu reconheço a minha iniquidade, diante de mim está sempre o meu pecado. Só contra vós pequei, o que é mau fiz diante de vós. Vossa sentença assim se manifesta justa, e reto o vosso julgamento. (…) Ó meu Deus, criai em mim um coração puro, e renovai-me o espírito de firmeza. De vossa face não me rejeiteis, e nem me priveis de vosso santo Espírito. Restituí-me a alegria da salvação, e sustentai-me com uma vontade generosa. Então, aos maus ensinarei vossos caminhos, e voltarão a vós os pecadores. Deus, ó Deus, meu salvador, livrai-me da pena desse sangue derramado, e a vossa misericórdia a minha língua exaltará”.

Na história de Adão e Eva, uma lição importante é: o pecador, aquele que pelo seu pecado transgride as leis divinas, perde muitos bens. Quanto mais graves e abundantes são os pecados, maiores são as perdas e maior é a miséria e a infelicidade.

Santo Tomás ensina: “Visto que a justiça divina exige, para que existe igualdade nas coisas, que sejam das penas pelas culpas e prêmios para as boas ações, é necessário que, se há graus nas boas ações e nos pecados, haja também graus nas penas e nos prêmios. Em caso contrário, não seria observada a igualdade, se a pena maior não for dada ao que peca mais, e o maior prêmio, ao que faz maior bem, pois, pelo mesmo motivo, vê-se que são retribuídos diferentemente segundo a diferença entre bem e mal, e segundo a diferença entre bem e melhor, ou entre mal e pior”.

O primeiro princípio e o fim último da verdadeira religião é a Verdade, que é o Cristo

“E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 18).

A verdade é como uma rocha indestrutível, porque antes de tudo ela é o próprio Deus Onipotente. O primeiro princípio e o fim último da verdadeira religião é a Verdade, que é o Cristo. Com a luz divina do Espírito da Verdade que não se engana nem engana ninguém, São Pedro diz quem de fato Cristo é: “O Messias, o Filho do Deus Vivo”. Eis a verdade sobre o Divino Jesus, fundamento da verdadeira religião, que é Ele mesmo e sua Igreja, seu Corpo Místico. A verdadeira Igreja, Católica, é indestrutível. O império infernal, máximo poder do mal, não pode destruí-la, assim como não podem as obras da carne ou o mundo. Porém, como a Igreja é feita de homens, para eles há luta, ante o bem e o mal, ante o Espírito da Verdade e o espírito da falsidade, com suas perversões diabólicas. Essa luta envolve a todos, inclusive Pedro, os demais Apóstolos e seus sucessores. Santo Tomás de Aquino diz: “Com efeito, quando a alma pode passar do bem para o mal ou vice-versa, ela permanece em estado de luta e de guerra. Ora, ela deve resistir com solicitude ao mal, para não ser por ele vencido, ou lutar para livrar-se dele”.

O Deus-Homem prometeu um auxílio perpétuo para sua verdadeira Igreja, de geração em geração, de tal modo que as portas do inferno não prevalecerão. Entre outras coisas, isto significa perduração da verdade e do essencial para a salvação das almas e um crescimento dela para difusão do Evangelho Eterno em todos os cantos da terra. Porém, não significa que todos os seus membros estarão sempre imunes a qualquer pecado e engano, pois ninguém, como discípulo e adorador de Cristo, está dispensado da luta, da fidelidade à verdade e do exercício das virtudes, cujo prêmio é a felicidade eterna.

O Salvador disse aos seus apóstolos: “Sereis odiados de todos por causa de meu nome, mas aquele que perseverar até o fim será salvo (…). O discípulo não é mais que o mestre, o servidor não é mais que o patrão. (…) Não os temais, pois; porque nada há de escondido que não venha à luz, nada de secreto que não se venha a saber” (Mt 10,22-26).

O “somente a escritura” é uma doutrina humana não ensinada pelas letras divinas, um engano que engana, uma perversão que perverte

Pelo seu valor como palavra de Deus em linguagem humana, quando corretamente compreendida, a Sagrada Escritura deve ser considerada de dois modos: (I) tudo o que ela diz é verdade e (II) nada que se opõe a ela pode ser verdadeiro, pois a verdade não contradiz a verdade.

Como a Palavra de Deus é antes de tudo o próprio Deus, tal como ensina São João Evangelista, quando fala do Verbo de Deus, a Sagrada Escritura não contém toda a Palavra de Deus, o que seria impossível, porque ela participa dos limites da linguagem humana e o finito não pode naturalmente conter o infinito.

Enquanto algo feito pela Verdade para a verdade, a Sagrada Escritura deve ser corretamente entendida, para que a pessoa possua as bondades que ela contém, como as verdades reveladas, caminho de salvação eterna. Deve ser entendida em espírito e verdade, e não pela letra que mata. Em “espírito e verdade” significa o Espírito da Verdade que ilumina a consciência com suas luzes divinas, os verdadeiros significados, e a “letra que mata” significa, por exemplo, as vestes literárias da linguagem humana, engano para os “sábios e entendidos”. Que nem todos compreendem as Escrituras e nem todos recebem o espírito de compreensão é algo que ela ensina em várias partes.

A ideia protestante de “somente a escritura” é uma doutrina humana não ensinada pelas letras divinas, um engano que engana, uma perversão que perverte, pois, pelos seus frutos, significa a Palavra da Verdade misturada com a falsidade, algo contrário a ideia divina sobre a Escritura, feita pela Verdade para a verdade. A Divina Escritura certamente é importante como critério da verdadeira fé, porém em nenhuma parte ensina a si mesma como exclusiva, pois não exclui a Tradição nem a autoridade da Igreja, das quais é como filha, dado que nasce delas.

O verdadeiro cristianismo é católico, conforme a totalidade, e o protestantismo é divisão que multiplica a divisão, e assim faz da religião de Cristo como que fragmentos da verdade revelada misturados com enganos. Quando o Salvador diz que é “o caminho, a verdade e a vida”, isto significa que a puríssima verdade é o caminho e que o caminho é verdadeiro. São João Batista, o precursor do Messias, disse de si mesmo: “Eu sou a voz que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como o disse o profeta Isaías” (Jo 1,23).

“Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos”

São Boaventura diz: “Se queres entrar na vida, guarda os mandamentos. Estas palavras estão escritas em Mateus (19,17), e são palavras de nosso Salvador que resumem dois aspectos da nossa salvação: primeiro, o prêmio da nossa salvação eterna: se queres entrar na vida eterna; segundo, o mérito das obras humanas: guarda os mandamentos. Esta é a ordem correta, pois o fim move o agente a buscar o fim devido” (“Conferências sobre os Dez Mandamentos”).

Cristo disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14,6). Cristo Jesus é o Salvador e a vida eterna é a salvação. Para entrar na vida é necessário ir pelo caminho de Cristo, cujo alimento é fazer a Vontade do Pai. Os mandamentos corretamente compreendidos, em espírito e verdade, e não pela letra que mata, expressam a Vontade de Deus. Só pode entrar pela porta estreita da vida eterna quem está em amizade com Deus, quem morre pelo menos em mínima comunhão com Deus, sem aquela inimizade diabólica, própria do pecador que tem grave aversão a Deus, e assim não é digno de receber aquilo contra o qual agiu em vida, pois preferiu os bens inferiores ao Sumo Bem, deu ouvidos à própria insensatez e não quis saber da Sabedoria Divina. Cristo, a Saberia Encarnada, disse aos seu amigos: “Se me amais, guardareis os meus mandamentos” (Jo 14,15) e “aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele” (Jo 14,6).

Santo Tomás diz: “É pelos atos da virtude que o homem atinge seu último fim, pois a felicidade é posta como prêmio da virtude”. E Santa Faustina diz: “A essência das virtudes é a vontade de Deus. Quem cumpre fielmente a vontade de Deus exercita-se em todas as virtudes. Em todos os acontecimentos e circunstâncias da vida, adora e bendigo a santa vontade de Deus. É Ela o objeto do meu amor” (Diário, 678).

Fora de Cristo, com seu Corpo Místico, a Igreja Católica, não há salvação

São Paulo ensina que Jesus Cristo é descendente de Davi quanto à carne (Rm 1,3). Como Deus-Homem, de Cristo podemos falar segundo o Espírito e segundo a carne. O Espírito significa Sua divindade e a carne significa Sua humanidade. Após a ressurreição, diante de Cristo — o homem com corpo de homem glorificado —, São Tomé Apóstolo disse: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28). E o mesmo Cristo, como o Mestre que ensina a verdade, disse de si mesmo: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30). Unidade que é unidade na Divindade, na única Essência Divina possível, e assim se dizem a Pessoa divina do Pai e a Pessoa divina do Filho, unidos como um só Deus com a Pessoa divina do Espírito Santo: eis o mistério da Santíssima Trindade, a vinda interior de Deus.

Não se pode negar a divindade nem a humanidade de Cristo, porque isso é contrário à verdadeira fé. Como Santo Tomás ensina, com razão, pela lei divina todos devem aceitar a verdadeira fé e devem ser obedientes às verdades da verdadeira religião, concedida ao homem por Deus (Suma contra os Gentios, III, 118). Deus é Verdade Puríssima, não pode negar a si mesmo, não se engana nem engana ninguém, e por isso não propõe ao homem crer em algo falso. A falsidade e a maldade não pertencem à ordem divina do ser, não pertencem ao Reino de Deus. Assim, falsas religiões, como as pagãs, e a falsa fé, como as heresias, não pertencem a Deus e não são seu caminho de salvação.

A este respeito, Cristo ensinou: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai, senão por mim” (Jo 14,6). Por exemplo, Buda com o budismo, Maomé com o islamismo e Allan Kardec com o espiritismo não são Cristo com seu Corpo Místico e, por isso, não podem levar à salvação enquanto vida eterna junto de Deus — a contemplação face a face, a visão beatífica, a posse imutável do Sumo Bem. Todos os que se salvam, mesmo os ignorantes sem culpa, só se salvam de algum modo por meio de Cristo, porque fora de Cristo, com seu Corpo Místico, que é a Igreja Católica, não há, em hipótese alguma, salvação (Concílio de Latrão IV, Cap. 1).

“Deus é mostrado como ótimo pelo fato de que saber fazer uso não só dos bons, mas também dos maus”

Falar de um ser é inclui falar de sua razão de ser, que significa pelo menos duas coisas: a razão de ser algo e não um puro nada (sua presença ou existência) e a razão de ser como é e não de outra forma, isto é, a razão de seu modo de ser, de seu logos, de sua essência. Pelo princípio de razão suficiente, um dos primeiros princípios do ser, que vale como tal para toda a realidade, todo ser possui necessariamente uma razão suficiente para ser o que é, e o que não é, pois nada pode ser sem sua razão suficiente, do contrário seria sem razão para ser, o que é sem sentido, uma contradição, como existir sem existir.

Por exemplo, uma guerra, por ser o que é, enquanto efeito, exige uma causa, que lhe traz a existência, do contrário jamais poderia existir. Para existir ela exige uma razão suficiente, que não pode ser qualquer coisa, porque nem todo ser pode por si mesmo causar uma guerra. O relinchado de um cavalo pode causar um susto em alguém, mas não pode de imediato causar uma guerra, pois a guerra exige um ser consciente, com vontade e capaz de ação, que decida pela guerra, o homem, por exemplo.

Consideradas pelo que são, como realidades finitas, todas as coisas exigem um Ser com os atributos de Deus como razão suficiente para o seu ser-existir. Assim, Deus é o Ser que tudo sustenta, a Luz que tudo ilumina, sempre na mais pura Bondade, com exclusão de toda maldade.

Inclusive as guerras podem ser atribuídas à Vontade divina, que as permite, por exemplo, como castigo purificador para tempos de grandes perversões, com abundância de pecados e maldades por parte dos homens. Como profecia, no livro do Profeta Jeremias está escrito: “Fugi para longe do recinto da Babilônia; que cada um salve a vida e não pereça nos seus crimes, pois chegado é o tempo da vingança do Senhor que lhe vai dar o que mereceu. Era a Babilônia na mão do Senhor qual taça de ouro que embriagava toda a terra; bebiam as nações o seu vinho e enlouqueciam” (51,6-7). E Santo Tomás de Aquino diz: “(…) Deus é mostrado como ótimo pelo fato de que saber fazer uso não só dos bons, mas também dos maus”.

No dia da Justiça Divina o único refúgio é a Misericórdia Divina, sempre oferecida abundatemente.