Verdade e bondade: A grandeza do livre arbítrio do homem

“A grandeza do livre arbítrio do homem consiste precisamente na possibilidade de se conformar com o comando exercido pelos valores objetivos, apesar da atração contrária dos instintos, estado de espírito ou outras distrações: a essencial transcendência do homem consiste em dupla conformação de inteligência e vontade à realidade objetiva: no seu conhecimento da verdade e na sua livre obediência ao comando dos valores moralmente relevantes – em última análise, ao comando de Deus” (Dietrich von Hildebrand, em “Cavalo de Tróia na Cidade de Deus”).

Parte importante da Sagrada Escritura são os profetas e suas profecias, e nelas as promessas de Deus

Parte importante da Sagrada Escritura são os profetas e suas profecias, e nelas as promessas de Deus. A grande profecia com a grande promessa é o Salvador e a Salvação, Jesus Cristo com a Vida Divina para aquele que nele crê com uma fé viva pelas obras. Tudo isto é obra da Divina Misericórdia, porque Deus é dito misericordioso por tirar o homem da miséria.

Há profecia antes de Cristo, no Antigo Testamento, e há profecia para depois da ascensão de Cristo, no Novo Testamento. A mais importante do primeiro se realiza com a primeira vinda do Messias, o Deus-Homem, e a mais importante do segundo se realizará com a segunda vinda, quando Cristo virá gloriosamente, como Justo Juiz, para julgar vivos e mortos, uns para a condenação eterna e outros para a felicidade eterna. Essa vinda é ensinada pelos anjos no momento da Ascensão e por São João Apóstolo no Apocalipse.

A verdadeira profecia e seu cumprimento é sinal da presença divina. No Evangelho é dito que certa vez, após ler um trecho do livro do profeta Isaías (61,1), Cristo Jesus disse: “Hoje se cumpriu esta oráculo que vós acabeis de ouvir”. E sobre a profecia, um critério de autoridade para a verdadeira religião, Santo Agostinho diz: “A Providência divina provê aos interesses não somente de cada homem em particular, como também em geral, de todo o gênero humano, e de modo público. O que acontece com cada um, sabem-no Deus e os favorecidos. O que foi feito ao gênero humano, Ele quis nos manifestar pela história e a profecia” (em “A Verdadeira Religião”).

Vivemos em tempos da Imaculada, a Santíssima Mãe do Salvador, que em 1917, em sua aparição em Fátima, disse uma profecia para um futuro relativamente próximo: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”.

“A conversão e a santificação de uma alma foi, é e permanecerá sempre obra da graça divina”

“(…) A conversão e a santificação de uma alma foi, é e permanecerá sempre obra da graça divina. Sem a graça de Deus não se pode fazer nada neste campo, nem com a palavra viva, nem com a imprensa, nem com nenhum outro meio exterior. A graça para nós mesmos e para os demais, ao contrário, é obtida com a oração humilde, com as mortificações e com a fidelidade no cumprimento de nossos deveres ordinários, incluindo os mais simples.

Quanto mais uma alma estiver próxima de Deus, tanto mais agradável lhe é; quanto mais ela O amar e for amada por Ele, tanto mais eficazmente poderá ajudar também os outros a alcançar a graça divina e muito mais fácil e plenamente a sua oração será ouvida. Em consequência, sendo a Imaculada sem mancha, toda de Deus, é cheia de graça e Medianeira de todas as graças para as almas. E nós, conhecendo a nossa debilidade, as frequentes quedas, o distanciamento de Deus, dirigimo-nos a Ela exatamente por isso: para obter todas as graças para nós mesmos e para os demais…

Para facilitar-nos a atividade dirigida para o bem das almas, Deus permite pequenas cruzes de vários tipos, dependendo ou não da vontade alheia, que procedem ou não de uma vontade reta. Este é um campo imenso de inumeráveis mananciais de graça que deve ser aproveitado. São fontes de méritos, entre os quais, os desgostos provocados pelas outras pessoas. Com que santa esperança, nestes casos, podemos repetir cada vez no “Pai Nosso”: “Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido” (Mt 6,21). Este oração foi-nos ensinada pelo próprio Jesus. Por isso, é suficiente o perdão completo das ofensas que nos fizeram para obter o direito ao perdão pelas ofensas que fizemos a Deus. Que desgraça, então, se não tivéssemos nada a perdoar e que sorte quando num só dia temos muitas e muitas graves coisas a perdoar. Para sermos sinceros, a natureza se horroriza diante do sofrimento e da humilhação, porém, à luz da fé, como são necessários para purificar a nossa alma! E, por isso, como devemos ser agradecidos! Quantos contribuem para nos aproximarmos mais a Deus e, por ele, a uma maior eficácia da oração, a uma ação missionária mais eficaz!

Além disso, o amor mútuo não consiste no fato de ninguém nos causas desgostos, mas em nos esforçarmos por não causa-los aos outros, em nos acostumarmos a perdoar rápida e completamente tudo aquilo que nos ofende. É nesta mútua tolerância que consiste a essência do amor recíproco. Escreve Santa Teresa: “Entendi quão imperfeito era o meu amor pelas minhas irmãs; oh, Jesus não as amava assim! Entendo agora que o amor autêntico consiste em suportar os defeitos e os erros do nosso próximo, em não se admirar de suas imperfeições, mas em deixar-se edificar por qualquer mínimo ato de virtude; mas sobretudo entendi que o amor não deve ficar fechado no fundo do coração, já que ‘ninguém acende uma lâmpada e a põe em lugar oculto ou debaixo da mesa, mas sobre um candeeiro, para alumiar os que entram em casa (Lc 11,33). (…)” (São Maximiliano Kolbe, em “Escritos de São Maximiliano Kolbe”, pág.1193-1194)

O verdadeiro Evangelho é o Evangelho do Logos e exclui necessariamente a contradição, a confusão, a falsidade

Com há apenas um Deus e um só Senhor, Jesus Cristo, e uma só religião verdadeira, aquela ensinada e concedida por Deus, há falsas religiões, religiões de ídolos e ilusões, e há falsos caminhos de salvação, que não conduzem ao Pai, ao Céu Eterno.  É próprio do sábio da verdadeira religião afirmar o verdadeiro e se opor ao falso, e nisso é instrumento da divina instrução e correção, própria de um bondoso Mestre, interessado no bem que é verdade e no bem de quem não a possui. Assim, por exemplo, conforme ensina da Igreja Católica, são obras de misericórdia espirituais “ensinar os ignorantes” e “corrigir os que erram”.

O verdadeiro Evangelho é o Evangelho do Logos, que exclui necessariamente a contradição, a confusão, a falsidade. Tudo isso pertence aos critérios humanos, em seu sentido negativo, do homem caído que se engana e pode enganar, e jamais pertence aos critérios divinos.

Por isso, São Paulo diz que no Evangelho pregado por ele não há nada de humano, não é obra puramente humana, e diz: “Estou admirado de que tão depressa passeis daquele que vos chamou à graça de Cristo para um evangelho diferente. De fato, não há dois (evangelhos): há apenas pessoas que semeiam a confusão entre vós e querem perturbar o Evangelho de Cristo. Mas, ainda que alguém – nós ou um anjo baixado do céu – vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema. Repito aqui o que acabamos de dizer: se alguém pregar doutrina diferente da que recebestes, seja ele excomungado!”. (Gl 1, 6-9)

“Aquele que ama a correção ama a ciência, mas o que detesta a correção é insensato”

Em Provérbios é dito: “Aquele que ama a correção ama a ciência, mas o que detesta a correção é insensato” (12,1).

Amar a ciência é o mesmo que amar a verdade. Quem ama a Deus ama a ciência divina, porque em Deus o Ser e a Ciência se identificam, em sua única natureza divina. O primeiro mandamento, a lei primeira, de amar a Deus sobre todas as coisas, inclui amar a Verdade sobre todas as coisas, jamais preteri-la, como se valesse menos do que vale. Quem ama a verdade no grau em que ela merece, deseja que ela prevaleça em tudo e sempre. Essa é a ordem divina do ser, a ordem correta das coisas.

O incorreto supõe o correto, do mesmo modo que o mal supõe o bem, o falso o verdadeiro e o inferior o superior. A correção é sempre no sentido do verdadeiro, do bem e do melhor, pelo menos naquilo assim considerado, mesmo nos casos de engano, a exemplo do que diz o profeta Isaías: “Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem, mal, que mudam as trevas em luz e a luz em trevas, que tornam doce o que é amargo, e amargo o que é doce!” (5,20).

Quem ama a correção ama a ciência, porque deseja que ela prevaleça em sua própria alma, porque na correção é movido do mal e pior, no caso a falsidade, para o bem e o melhor, no caso a verdade. Isto corresponde à Vontade Divina, que sempre quer o bem e o melhor como fim, dado que Ele é o Sumo Bem e em tudo quer e distribui sua Bondade, como participação, em grau de semelhança finito.  

Os profetas são homens da ciência divina, que agem como instrumentos de correção, para que aqueles que estão no mau caminho passem da falsidade e maldade, que não pertencem a Deus, para a verdade e bondade, próprias de Deus. Aqueles que aceitam a divina correção são elevados no ser, e abrem as portas para a Misericórdia Divina, fonte de todos os bens, e aqueles que não a aceitam permanecem na miséria, sem crescer em direção ao Céu, ou decaindo cada vez mais em direção ao abismo.  Assim, quem detesta a correção é um insensato e colhe os frutos da insensatez, porque de uma árvore má não pode nascer bons frutos.

A Mulher contra a serpente, a Serva do Senhor contra o anjo rebelde

O primeiro mandamento – amar a Deus sobre todas as coisas – diz: “Escuta, Israel: o Senhor nosso Deus é o único” . Contra este mandamento está o politeísmo, que afirma haver vários deuses. Em sentido elevadíssimo, conforme a razão, só pode haver um Deus verdadeiro, apenas um Ser infinito, totalmente perfeito, onipotente, primeiro principio e fim último de todas as coisas, Governante do universo.

“Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, dessa casa da escravidão. Não terás outros deuses perante Mim” (Ex 20). Ter outros “deuses” diante do único Deus significa estar privado da verdade, com as bondades que ela contém, e ser como que escravo da falsidade, com os males que ela traz consigo. Por isso, o primeiro mandamento também significa a vontade de que em tudo e sempre a verdade prevaleça, porque Deus é a Verdade. Cristo disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.

O primeiro mandamento exige a humildade. Santa Teresa ensina que humildade é caminhar na verdade. Quer dizer, é caminhar na obediência à verdade, submetido a ela livremente. Na humildade há duas verdades importantes para o homem. Nela primeiro é reconhecida a glória de Deus e depois o nada do homem. É glorioso o Deus que é a plenitude do Ser, Bondade Onipotente totalmente perfeita de modo imutável desde toda a eternidade. Ele, por livre vontade de sua Bondade, decide criar o homem. Sem o Criador Onipotente, a criatura humana jamais existiria nem permaneceria na existência. Ela é totalmente dependente, por si mesmo nada é, nada possui de bom que não tenha recebido do Deus Misericordioso. “Dai graças ao Senhor, porque ele é bom, eterna é a sua misericórdia!”.

Modelo perfeito de humildade é Maria Santíssima, que disse: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1, 38). Oposto disso é o diabo, que disse: “não servirei”. A Serva do Senhor, a mais humildade das criaturas, foi a mais elevada, Rainha Mãe ao lado de Cristo Rei, enquanto o anjo soberbo é o que mais decaiu, até o mais fundo do inferno. Entre a Mulher e a serpente, e suas descendências, só pode haver inimizade, pois a verdade a falsidade, a virtude e o vício, o Reino dos Céus e o império infernal, são inimigos mortais.

“Ninguém teve o poder de encarnar e dar a luz à Sabedoria Eterna, a não ser Maria”

“Ninguém teve o poder de encarnar e dar a luz à Sabedoria Eterna, a não ser Maria” (São Luís de Montfort)

Maria não é somente bendita entre todas as mulheres, mas também entre todas as criaturas. Depois de Cristo, o Homem-Deus, Maria é a pessoa mais importante da história em todos os tempos, de Adão e Eva até o fim do mundo. Está acima de todos os santos, profetas, sábios e reis. É a Mãe de Deus, Rainha de todos os anjos e homens, com domínio sobre todos os demônios. Quando o Arcanjo São Gabriel diz que ela é “cheia de graça”, isto significa que, em virtude de sua Maternidade divina, no mérito de seu sim à Vontade Divina, Deus a elevou a alturas inimagináveis, concede-lhe privilégios insondáveis, que somente a Mente Divina pode ensinar. Se a criatura finita, com a perfeição que lhe é própria, ama finitamente sua mãe, o Deus infinito ama infinitamente sua Mãe, que criou para habitar consigo eternamente, ao lado de seu Trono, em seu Reino glorioso.

Quanto mais alguém conhece Maria Santíssima, mais ama a Deus por sua infinita Bondade, por sua Misericórdia Onipotente. Tudo o que Maria é foi dado por Deus; ela pertence a Ele totalmente, e assim disse de si mesma: “eis a escrava do Senhor”.

Se Maria é criatura e se todas as bondades que possui recebeu do Criador, isto diz a grandeza sem fim da Bondade e Onipotência do Senhor. A este respeito, diz o filósofo Dietrich von Hildebrand: “No próprio ato de adoração está incluída uma resposta não só ao ens a se (ser em si), nem apenas à soberania absoluta e onipotência de Deus, mas também à bondade infinita de Deus. O verdadeiro temor a Deus e, ainda mais, o amor a Deus implicam e supõem a noção de valor. O mesmo se aplica à esperança, à adoração, ao louvor e à confiança em Deus: todos eles só têm significado se Deus for entendido como o Bem infinito. Mesmo em um temor servil a Deus está implicado um elemento de resposta à justiça infinita de Deus, na medida em que o mal temido é entendido como um castigo imposto pelo juiz eterno”.

Somente Maria é Mãe de Deus. Como Aquele que quer sempre como fim o bom e o melhor, assim Ele quis a Mãe de seu Filho Eterno, segunda Pessoa da Divindade Una e Trina, o verdadeiro Deus, o Deus de Jesus Cristo.

A felicidade última do homem não está nesta vida

“Além disso, todos dizem ser a felicidade um bem perfeito e, se não fosse, não aquietaria o apetite. Ora, o bem perfeito está totalmente isento de mal, como o branco perfeito é o que não tem mescla de preto. Mas não é possível que o homem no estado desta vida fique totalmente isento do mal: não só dos males corpóreos, como o calor, o frio, a fome, a sede, e outros semelhantes, como também aos males espirituais. Com efeito, não há alguém que jamais tenha sido perturbado pelas paixões desordenadas, que nunca tenha saído do justo meio da virtude, excedendo-se ou retraindo-se; que não se tenha em algo tempo enganado; ou que, pelo menos, não tenha ignorado o que desejasse saber; ou finalmente, que não tenha tido apenas opinião daquilo que desejasse conhecer com certeza. Logo, a felicidade última do homem não está nesta vida.

(…)

É impossível que o desejo natural seja inútil, porque a natureza nada faz em vão. Ora, um desejo que não pudesse ser satisfeito, não poderia ser natural. É, pois, possível ser satisfeito o desejo natural no homem, mas não nesta vida, como acima foi demonstrado. É, pois, necessário que seja satisfeito após esta vida. Logo, a felicidade última do homem será alcançada após esta vida.

(…)

Por isso, a visão imediata de Deus nos é prometida na Carta aos Coríntios: Vemos agora como por um espelho, obscuramente; então, face a face (1Cor 13, 12).

Isso não deve ser entendido de modo material, como se imaginássemos uma face corporal na divindade, pois já foi demonstrado acima que Deus é incorpóreo. Nem é tampouco possível que vejamos a Deus pela nossa face corpórea, pois a visão corpórea facial só pode referir-se a coisas corpóreas.  Por conseguinte, veremos Deus face a face, porque é uma visão imediata, como a que temos de um homem que vemos face a face.

Segundo essa visão assemelhamo-nos ao máximo com Deus, participamos de sua beatitude, pois Deus conhece a sua substância pela sua essência; e nisto consiste sua felicidade.

Por isso, é dito na Sagrada Escritura: Quando aparecer, seremos semelhantes a Ele. Vê-lo-emos como é (1Jo 3,2). Eu preparo uma mesa para vós, como o pai preparou para mim; para comerdes e beberdes na minha mesa no meu reino (Lc 22, 29). Essas expressões não podem ser compreendidas como se tratassem de bebidas e comidas corpóreas, mas daquilo que se recebe na mesa da sabedoria, a respeito da qual a própria diz: Comei os meus pães e bebei o meu vinho que misturei para vós (Pr 9,5).

Com efeito, comem e bebem na mesa de Deus aqueles que gozam da mesma felicidade com que Deus é feliz, vendo Deus do mesmo modo segundo o qual Deus se vê”. (Santo Tomás de Aquino, “Suma contra os Gentios”).

O Pedro das três negações é o Pedro segundo a carne, enquanto o Pedro das três afirmações de amor é o Pedro segundo o Espírito  

“Tendo eles comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: “Simão, filho de João, amas-me mais do que estes?”. Respondeu ele: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo”. Disse-lhe Jesus: “Apascenta os meus cordeiros”. Perguntou-lhe outra vez: “Simão, filho de João, amas-me?”. Respondeu-lhe: “Sim, Senhor, tu sabes que te amo”. Disse-lhe Jesus: “Apascenta os meus cordeiros”. 7.Perguntou-lhe pela terceira vez: “Simão, filho de João, amas-me?”. Pedro entristeceu-se porque lhe perguntou pela terceira vez: “Amas-me?” –, e respondeu-lhe: “Senhor, sabes tudo, tu sabes que te amo”. Disse-lhe Jesus: “Apascenta as minhas ovelhas. Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais moço, cingias-te e andavas aonde querias. Mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres”. Por essas palavras, ele indicava o gênero de morte com que havia de glorificar a Deus. E depois de assim ter falado, acrescentou: “Segue-me!”.” (Jo 21, 15-19)

Cristo, aquele que “sabe tudo”, nada fez sem razão, sem motivo em sua Divina Sabedoria e sem acerto. Isto vale para as três vezes que perguntou ao Apóstolo São Pedro se ele o amava. Uma razão para as três perguntas do amor de Pedro é contrapor as três negações de Pedro, nos tempos do sofrimento de Cristo.

São Pedro, sabendo que Cristo tudo sabe, diz com alma sincera que o ama. O Pedro das três negações é o Pedro segundo a carne, com a mente obscurecida pelo medo mundano, enquanto o Pedro das três afirmações de amor é o Pedro segundo o Espírito, que deve amar totalmente, com total abnegação da vontade própria, com entrega de si até o martírio, se necessário conforme a Vontade Divina, que preparou para ele um trono glorioso no Reino dos Céus, na eternidade paradisíaca, na qual há somente o bom e melhor em oposição ao mau e pior do mundo rebelde e do império infernal, morada permanente dos demônios e das almas condenadas.   

O Pedro que deve apascentar as ovelhas de Cristo, conduzir as almas pelo caminho da salvação, é o Pedro que ama Cristo como seu Divino Mestre e Salvador, a Sabedoria Encarnada. Para Pedro, amar Cristo mais do que a qualquer outra realidade, é amá-lo como aquele que é “o caminho, a verdade e a vida”, é comunicar às almas a bondade desse amor e dessa sabedoria.   

“Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé – Agora está reservada para mim a coroa da justiça”

São Paulo Apóstolo diz: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé. Agora está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia” (2Tim 4, 7). Nesta vida terrena a vida cristã autêntica é uma vida de contrariedades e adversidades, ou seja, uma vida de combates contra os inimigos da alma e os do verdadeiro e único Evangelho. Permanecer na integridade da fé e completar a corrida é uma tarefa exigente, como carregar a Cruz com Cristo. Porém, para isso há o prêmio do descanso e deleites eternos juntos de Deus, a coroa da justiça no Reino Glorioso, no qual Deus preparou muitas moradas para as almas purificadas e divinizadas, filhos adotivos do Pai Misericordioso.

O Apóstolo também diz: “Mas o Senhor esteve a meu lado e me deu forças; ele fez com que a mensagem fosse anunciada por mim integralmente, e ouvida por todas as nações; e eu fui libertado da boca do leão” (2Tim 4, 17). São Paulo é um Apóstolo exemplar, que enquanto tal diz o que é bondade e, pela oposição, o que é maldade no apostolado. Assim, por exemplo, pertence ao verdadeiro apóstolo, com quem Deus realmente está, anunciar integralmente a mensagem do Verbo Encarnado, dizer toda a verdade, porque toda a verdade é importante, caso contrário não teria sido ensinada por Deus. Tudo o que a Sabedoria Divina revela como verdade para a salvação e felicidade do homem é importante, e, por isso, nenhuma verdade pode ser suprimida em consideração de critérios humanos, como as épocas e as culturas. Deus faz tudo perfeitamente, com consideração de todas as coisas, com Sabedoria infinita e Poder Onipotente. Muito antes de qualquer mente criada, Deus sabe todas as coisas de modo simultâneo, conhece tudo totalmente e intimamente, como diante de seus olhos em máxima evidência e absoluta certeza, sem possibilidade de engano.

Bento XVI disse: “Paulo é apresentado por muitos como homem combativo que sabe manobrar a espada da palavra. De facto, no seu caminho de apóstolo não faltaram contendas. Não procurou uma harmonia superficial. Na primeira das suas Cartas, a que escreveu aos Tessalonicenses, ele diz de si mesmo: “No meio de grandes obstáculos… fomos anunciar-vos o Evangelho de Deus no meio de muitas lutas… Com efeito, nunca usa de adulação, como sabeis” (1Ts 2, 2.5). A verdade era para ele demasiado grande para estar disposto a sacrificá-la em vista de um sucesso externo.”