“A falsidade não é um caminho bom para a verdade, como se lê na Escritura: O quê de verdade pode vir da mentira”

Na “Suma Contra os Gentios”, Santo Tomás de Aquino diz: “A falsidade não é um caminho bom para a verdade, como se lê na Escritura: O quê de verdade pode vir da mentira (Eclo 34, 4). Ora, a vinda de Cristo ao mundo foi para manifestar a verdade, pois ele mesmo disse: Eu aqui nasci, e para isto vim, para dar testemunho da verdade (Jo 18, 37). Ora, em Cristo não houve falsidade alguma. Mas, se as coisas ditas sobre ele fossem apenas aparência, neste caso haveria nele falsidade, pois, o falso é aquilo que não é como se vê. Logo, as coisas que foram ditas a respeito de Cristo, o foram segundo a realidade existencial.”.

Uma afirmação sem sentido é: “não importa a religião, o que importa é crer, é a fé de cada um”. Isto é falso, porque o que vale acreditar em algo falso? Maior valor que o acreditar tem a verdade. O verdadeiro Deus não propõe ao homem crer no que é falso, pois Ele é a Verdade, que apresenta a verdadeira fé como um dever para o homem.

Deus é a Verdade Suprema. Assim, um dos significados do primeiro mandamento é amar a verdade sobre todas as coisas. Quem ama a verdadeiramente a verdade ou a ama com perfeição, deseja que a verdade, ante a possibilidade da falsidade, prevaleça em todas as coisas, o que inclui a “religião”. Enquanto contraditórios que se excluem necessariamente, nem todas as ditas religiões podem ser verdadeiras e a verdadeira religião é a religião da verdade, na qual a verdade possui máxima importância, enquanto valor supremo, a Vida Divina, o Espírito do Deus.  

A falsidade não é um bom caminho para a verdade. O próprio Cristo disse ser o único caminho que conduz à vida eterna, á felicidade duradoura, como está escrito na Sagrada Escritura. Se a contradição e a confusão são como que dois nomes para a falsidade, elas não podem ser o correto caminho de Cristo e de sua verdadeira Igreja, seu Corpo Místico, como ensina São Paulo, o Apóstolo, conhecedor de certos mistérios divinos, instrumento da Sabedoria Onipotente para a difusão do Evangelho Eterno entre os pagãos. A falsidade, e nela a confusão e a contradição, é do homem decaído e dos anjos rebeldes, jamais de Deus, que é a Verdade Puríssima.  

A felicidade na falsidade e na maldade é uma contradição, consequentemente é uma impossibilidade

A bondade é própria do ser, porque somente no ser há bondade, do contrário teríamos de falar de bondade no não-ser, no nada, que enquanto tal nada é. A afirmação do ser é afirmação da bondade e vice-versa. O ser não se contradiz, a verdade não nega a verdade. Assim, a felicidade na falsidade e na maldade é uma contradição, consequentemente uma impossibilidade. O pecado é falsidade e maldade, porque é negação do ser, privação, carência. Neste sentido, diz Santo Agostinho que o homem é infeliz pelos seus pecados e o rei Davi diz no salmo 1: “Feliz o homem que não procede conforme o conselho dos ímpios, não trilha o caminho dos pecadores, nem se assenta entre os escarnecedores”.

Como ensina a Sabedoria Católica, experimentada por exemplo pelos santos, a felicidade do homem é a posse de Deus. Santo Agostinho diz: “A felicidade da vida é a posse da verdade, ou seja, a posse de Ti que és a Verdade”. 

Se há um Deus, o Ser Infinito, a Vida Eterna, que é a plenitude do Ser, Aquele que possui todas as perfeições do Ser, totalmente perfeito, e se há felicidade no ser considerado em sua totalidade, então em Deus há necessariamente felicidade em máximo grau, consequentemente a felicidade eterna. Assim, a presença de Deus, como presença experimentada por uma consciência, significa a presença da felicidade. A visão imediata da Essência Divina Vivente, a experiência imediata de Deus, o “ver face a face” das palavras de São Paulo, como que absorve totalmente a pessoa, que se torna como que uma gota num oceano de delícias espirituais. Do mesmo modo que é próprio do sol aquecer e iluminar, é próprio de Deus irradiar felicidade: a luz de Deus é a luz da felicidade. A este respeito, Davi diz no salmo 15: “Vós me ensinais vosso caminho para a vida; junto a vós, felicidade sem limites, delícia eterna e alegria ao vosso lado!”.

E Santa Teresa D’Ávila ensina:

“Vês a glória do mundo? É glória vã;

Nada tem de estável, Tudo passa.

Deseje às coisas celestes, Que sempre duram;

Fiel e rico em promessas, Deus não muda.

Ama-o como merece, Bondade Imensa;

Quem a Deus tem, Mesmo que passe por momentos difíceis;

Sendo Deus o seu tesouro, Nada lhe falta.

Só Deus basta!”

A Providência Divina e os pecadores

“Relativamente a quem vive no pecado mortal, procuro acordar a pessoa pelo remorso e diversos sofrimentos internos. As modalidades do meu agir são numerosíssimas e tua linguagem nem conseguiria enumerá-las. Umas vezes o home abandona o pecado mortal por causa do remorso; outras vezes extraio rosas dos espinheiros. Acontece, por exemplo, que o coração humano de apega a determinado objeto ou pessoa contra a minha vontade; então retiro esse objeto ou pessoa, não permitindo que a pessoa satisfaça seu prazer. Como consequência, sente-se abatida, toma consciência da própria situação e, arrependida, abandona o delírio pecaminoso. Trata-se realmente de um “delírio”, pois, julgando amar algo de valor, ao verificar, o homem encontra o vazio. Em si mesma a realidade amada tinha um ser valor, mas o resultado do amor acaba em nada, pois o pecado é negação do bem. Pois bem! Desse “nada”, desse “espinheiro”, extraio a “rosa” salvadora do homem. Quem me leva a agir assim? Certamente não a própria pessoa, que não me procura, não me suplica por estar vivendo no pecado, no prazer, na riqueza, nas grandezas humanas, mas o amor. É ele que me leva a agir assim. Também as orações do meus servidores. E Espírito Santo infunde neles amor por mim e pelo próximo; munidos de inefável caridade, eles procuram aplacar minha justiça; com lágrimas e continuas orações, levam-me a perdoar. E no que se refere aos meus servidores, quem os faz interceder? Minha providência. Sim, eu cuido de quem vive no pecado mortal; não quero que continue morto, desejo que se converta e viva (Ez 18, 23).

Ó filha, enamora-te da minha providência! Se prestares atenção, verás como os maus jazem na miséria com cheiro de defunto, entenebrecidos por falta de luz, mas que vão pela vida a cantar e rir, passando tempo nas vaidades, prazeres e desonestidades. Lascivos, bêbados, comilões, consideram o estômago como o seu deus (Fl 3, 19); estão cheios de ódio, orgulho e de outras misérias de que já falei (14.2). Eles nem têm consciência da própria situação. Se não se corrigirem, irão cantando para a morte eterna. Por acaso não seria considerado tolo ou louco o condenado à morte que se encaminhasse para o patíbulo a cantar, dançar e com outros sinais de alegria? Certamente. Pois é com semelhante tolice que os pecadores se julgam felizes. Aliás, a situação deles é mais grave, porque a morte da alma traz um prejuízo bem maior que a morte corporal. Os pecadores perdem a vida da graça, os condenados apenas a vida do corpo; os homens que são vítimas da justiça humana recebem um castigo passageiro, ao passo que os pecadores, morrendo em estado de morte espiritual, terão pena sem fim. No entanto, vão cantando! Cegos requintados, tolos, desmedidamente loucos.

Para obter-lhes perdão, meus servidores choram, aflitos no corpo e contritos no coração, entre vigílias e continuas orações, com gemidos e lamentos, macerando o corpo… e os pecadores zombam deles. Mas um dia suas caçoadas recairão sobre suas cabeças. Para quem o merece, o castigo virá. Também o prêmio devido aos esforços realizados por meu amor será dado ao quem o merecer. Sou Deus da justiça, concedo a cada um conforme seu trabalho. Por isso, meus servidores não desanimam diante das zombarias, perseguições e ingratidões; até procuram aumentar o zelo e o ardor. Mas quem os leva a bater com tanto empenho à porta de minha misericórdia? Minha providência, que contemporaneamente procura salvar os infelizes pecadores e acresce o merecimento dos servidores. Realmente, são infinitos os meios que uso para afastar o pecador da culpa mortal”.

*Revelações privadas de Deus Pai à Santa Catarina de Sena, no livro “Diálogo”, século XIV.    

“Deus esperou mais um ano, para dar ao seu povo ingrato mais tempo para penitência”

“(…) O Senhor, na sua infinita misericórdia, antes de atingir o seu povo, chamou-o de volta ao caminho certo através dos Profetas e, sobretudo, através do Sumo Sacerdote Zacarias. Ele proclamou solenemente que a apostasia de Deus não era para o bem da nação e que o Senhor abandonaria o seu povo; mas suas palavras serviram apenas para provocar sua morte. No entanto, Deus esperou mais um ano, para dar ao seu povo ingrato mais tempo para penitência. Depois de um ano, todas as chamadas falhadas, o exército da Síria levantou-se contra Judá e Jerusalém. Era um pequeno exército, confrontado com as fortes fileiras dos homens armados de Judá, mas foi vitorioso porque o povo de Deus se viu abandonado a si mesmo. Foi um evento sobrenatural, mas pertencente àquela ordem da Providência que regula a nossa vida na harmonia do universo; portanto, também tinha um fundamento na ordem natural. O que foi o povo de Judá abandonado ao culto dos ídolos senão um povo falho, sem energia, sem iniciativa, sem forças, amolecido pelos vícios, degradado pela vida material, habituado a servir?

É uma reflexão da maior importância para a vida das nações: um povo sem Fé está habituado a servir, é escravo, é desprovido de toda nobreza e de todo honra, é bárbaro; ainda pode reagir quando retém um resíduo da força perdida, mas está destinado a perecer quando essa força for completamente perdida. Pode-se dizer que as pessoas que abandonam Deus são de certo modo abandonadas por Deus. É uma frase muito profunda, pois quando você abandona o Senhor você fica privado todas aquelas ajudas, mesmo naturais, que provêm da amizade de Deus; somos abandonados às nossas próprias misérias, enormemente aumentadas pela falta de Religião, e caímos como um corpo pesado no abismo”. (Sacerdote Dolindo Ruotolo)

Faz todo sentido que o homem, por si mesmo impotente, peça ao Deus Onipotente

No salmo 79 é dito: “Despertai vosso poder, e vinde salvar-nos. Restaurai-nos, ó Senhor; mostrai-nos serena vossa face e seremos salvos”.

Deus, em sua onipotência, tudo pode fazer na totalidade das possibilidades do ser. Tudo o que pode ser feito, Deus pode fazer de imediato, sem nenhuma dificuldade. O que Ele faz ou deixa de fazer passa pela Sabedoria de sua Vontade, jamais pela impotência. Ela é a Sabedoria Onipotente, que nas criaturas difunde bondades de sua Bondade.

Faz todo sentido que o homem, por si mesmo impotente, peça ao Deus Onipotente, porque tudo pertence a Ele, provém Dele e passa por sua Vontade. Assim, não oração corretamente compreendida e exercida há inteligência, sensatez, e há virtude. Dito de outro modo: é caminho de humildade, que significa necessariamente caminha na verdade e na Vontade de Deus.

Na sabedoria do Espírito, Santa Faustina ensina: “Em qualquer estado em que se encontre, a alma deve rezar. Tem que rezar a alma pura e bela, porque de outra forma perderia a sua beleza; deve rezar a alma que está buscando essa pureza, porque de outra forma não a atingiria; deve rezar a alma recém-convertida, porque de outra forma cairia novamente; deve rezar a alma pecadora, atolada em pecados, para que possa levantar-se. E não existe uma só alma que não tenha a obrigação de rezar, porque toda graça provém da oração” (Diário, nº 146).

“As almas se perdem apesar de Minha amarga Paixão – Estou lhes dando a última tabua de salvação, isto é, a Festa da Minha Misericórdia”

Em seu Diário, Santa Faustina anotou as seguintes palavras ditas a ela por Cristo:

– “As almas se perdem apesar de Minha amarga Paixão. Estou lhes dando a última tabua de salvação, isto é, a Festa da Minha Misericórdia. Se não venerarem a Minha misericórdia, perecerão por toda a eternidade. – Secretária da Minha misericórdia, escreve, fala às almas desta Minha grande Misericórdia, porque está próximo o dia terrível da Minha justiça. (965)

– “A humanidade não encontrará a paz enquanto não se voltar, com confiança, para a minha misericórdia”. (300)

– “Se a alma não praticar a misericórdia de um ou outro modo, não alcançará a Minha misericórdia no dia do Juízo. Oh! Se as almas soubessem armazenar os tesouros eternos, não seriam julgadas, antecipando o Meu julgamento com obras de misericórdia.” (1317)

– “Como desejo a salvação das almas! Minha caríssima secretária, escreve que desejo derramar a Minha Vida Divina nas almas dos homens e santificá-los, desde que queiram aceitar a Minha graça. Os maiores pecadores atingiriam uma grande santidade, desde que tivessem confiança na Minha misericórdia. As Minhas entranhas estão repletas de misericórdia, que está derramada sobre tudo o que criei. O Meu prazer é agir na alma humana, enchê-la da Minha misericórdia e justificá-la. O Meu reino está sobre a terra – a Minha vida, na alma humana.” (1784)

–  “Oh! Que grandes graças concederei às almas que recitarem esse Terço. (…) Anota estas palavras, Minha filha, fala ao mundo da Minha misericórdia, que toda a humanidade conheça a Minha insondável misericórdia. Este é o sinal para os últimos tempos; depois dele virá o dia da justiça. Enquanto é tempo, recorram à fonte da Minha misericórdia, tirem proveito do Sangue e da Água que jorraram para eles.” (848).

– “As almas se perdem apesar de Minha amarga Paixão. Estou lhes dando a última tabua de salvação, isto é, a Festa da Minha Misericórdia. Se não venerarem a Minha misericórdia, perecerão por toda a eternidade. – Secretária da Minha misericórdia, escreve, fala às almas desta Minha grande Misericórdia, porque está próximo o dia terrível  da  Minha justiça. (965)

– “Coloquem a esperança na Minha misericórdia os maiores pecadores. Eles têm mais direito do que outros à confiança no abismo da Minha misericórdia. Minha filha, escreve sobre a Minha misericórdia para as almas atribuladas. Causa-me grande alegria as almas que recorrem à Minha misericórdia. A estas almas concedo graças que excedem os seus pedidos. Não posso castigar, mesmo o maior dos pecadores, se ele recorre à Minha compaixão, mas a justifico-o na Minha insondável e inescrutável misericórdia. Escreve: Antes de vir como Justo Juiz, abro de par em par as portas da Minha misericórdia. Quem não quiser passar pela porta da misericórdia, terá que passar pela porta da Minha justiça. (1146)

“Ainda que nem todos amem a verdade, só esta pode ser a base de uma felicidade duradoura”

Certamente, a verdade existe. Podemos reconhecer isto pelo menos por duas razões. Primeiro, se considero a mentira, porque se há mentira, há verdade. Segundo, pela consequência da negação, pois na negação da verdade há uma contradição, e onde há contradição, há engano.

Além de existir, a verdade tem máxima importância para a existência humana, mesmo nas coisas relativamente simples, como a questão do que é comestível ou não. Se a verdade tem valor nas pequenas coisas, tem mais ainda nas coisas mais importantes, o que inclui a religião, pois diz respeito a Deus e ao destino eterno de cada pessoa. São Maximiliano Kolbe diz que “unicamente a verdade pode ser e é o fundamento inquebrantável da felicidade, tanto para o indivíduo como para a humanidade inteira”. E como pelo princípio de contradição nem todas as religiões podem ser verdadeiras, há falsas religiões, e assim a noção de verdadeira religião é importante. A este respeito diz Santo Agostinho que “o caminho de toda vida boa e feliz é encontrado na verdadeira religião. Por ela, é adorado o único Deus…”.

Como a verdade é una e só pode haver uma verdadeira religião enquanto revelada, com a plenitude da verdade comunicada por Deus, o pluralismo religioso é algo negativo, porque nele a verdade é ofuscada, negada, ignorada, não reina como deveria reinar, embora triunfará pelo desígnio de Deus, a Verdade Onipotente. Diz o filósofo Dietrich von Hildebrand: “no que tange à verdade metafísica ou ética, especialmente em religião, qualquer forma de pluralismo é um mal”.

Ensina Santo Tomás de Aquino que, pela lei divina, o homem tem o dever de aceitar a verdadeira fé. Uma das razões é: “A lei divina ordena o homem para que ele se submeta totalmente a Deus. Ora, como o homem se submete a Deus amando-o pela vontade, deve também se submeter a Deus crendo pelo intelecto. Mas não crendo em algo falso, porque nada falso pode ser proposto ao homem por Deus, que é a verdade. Por isso, quem crê em algo falso, não crê em Deus. Logo, os homens são dirigidos por Deus para a verdadeira fé”.

“Ainda que nem todos amem a verdade, só esta pode ser a base de uma felicidade duradoura”. Na Verdade Eterna está a felicidade eterna.

“Eis aquele de quem eu disse: O que vem depois de mim é maior do que eu, porque existia antes de mim”

“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. (…) Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito. Nele havia vida, e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. Houve um homem, enviado por Deus, que se chamava João. Este veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele. (…). João dá testemunho dele, e exclama: ‘Eis aquele de quem eu disse: O que vem depois de mim é maior do que eu, porque existia antes de mim’”.

No ser há o antecedente e o consequente, a anterioridade e a posterioridade. Deus é o Primeiro Ser, o Antecedente Absoluto de todos os consequentes. Porque é o Ser em si, é por todos participado e de nenhum é participante, é o Independente Absoluto do qual tudo depende, é o Ser Incriado que tudo criou, é o Ser Necessário ante o qual tudo é contingente, é o Ser Eterno, acima da temporalidade das criaturas. Tudo isto pode ser dito do Verbo, porque Ele é Deus. Assim, reconhecendo sua própria humanidade criada, nascido no tempo, e reconhecendo a Divindade de Cristo, a Sabedoria Eterna que se fez homem, o santo João Batista diz que Ele lhe é superior porque existia antes de si, como a própria Eternidade, Sabedoria Onipotente.

Com relação a si mesmo, Deus é totalmente simultâneo, em seu Ser Essencial, não há anterioridade nem posterioridade. É o Ato Puro, em simultaneidade absoluta, sem principio nem fim, Alfa e Ômega, quer dizer, é sempre assim, o que visto no tempo significa ser assim o tempo todo, no antes e no depois, no passado, no presente e no futuro. Assim, São Pedro diz em sua Carta que “um dia diante do Senhor é como mil anos, e mil anos como um dia”.

Com relação às criaturas, há a simultaneidade e a anterioridade do Criador. Antes de haver criatura já havia o Criador, e quando surge a criatura, Ele permanece simultaneamente com ela, como sua causa total, da qual a criatura recebe a existência a todo instante. A Sabedoria Onipotente, que é Deus, permanece sempre com suas criaturas, da qual elas dependem absolutamente, em tudo e sempre.   

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade”.

“E aos olhos de todos os povos e de todos os reis se tornará evidente que não são deuses, mas obras de mãos humanas, já que nada se encontra de divino neles”

No livro de Baruc, presente na Sagrada Escritura, há uma carta atribuída ao profeta Jeremias. Nela, entre outras coisas, ele diz: “Como acreditar, então, que sejam deuses aqueles que são incapazes de se salvar da guerra ou de outra qualquer calamidade? Mais tarde se saberá que os ídolos de madeira dourada ou prateada são apenas engano. E aos olhos de todos os povos e de todos os reis se tornará evidente que não são deuses, mas obras de mãos humanas, já que nada se encontra de divino neles. Como, pois, poderá deixar de se tornar evidente que não são deuses?”

Considerado em si mesmo, crer ou acreditar não é necessariamente algo positivo, porque nem tudo é crível, porque é possível acreditar contra a razão, porque é possível acreditar no que é falso. A verdade, enquanto valor supremo para a vida humana, está acima do acreditar e não o contrário. Crer contra a razão, que no caso equivale a crer contra a verdade, é algo sem sentido. Isto vale para toda a vida do homem, o que inclui a religião. O verdadeiro Deus é a Verdade e a verdadeira religião é a religião da verdade, caminho na verdade para a posse eterna da Verdade Eterna.

Os pagãos mencionados pelo profeta Jeremias estão na falsidade quanto aos seus deuses. Assim, puro engano são os seus deuses e mentira é sua religião. No caso, tais figuras são tratadas como se fossem o que na realidade não são. A eles se dirigem palavras, como se pudessem ouvir, enquanto na realidade são incapazes de ouvir qualquer coisa. A eles se pede proteção, como se pudessem proteger, enquanto na realidade não são capazes de proteger a si mesmos do menor dos insetos.

A incapacidade desses falsos deuses mostra o que de fato são e a ilusão que há em acreditar neles como deuses. Há uma relação necessária entre ser e poder, no sentido de que para poder é necessário ser e o poder de certo modo mostra o ser. Neste caso, mais valem os animais do que esses falsos deuses de prata, porque os animais podem mais, e assim valem mais.

O senso de realidade, com a consideração dos princípios do ser tal como mostra a realidade, a exemplo do princípio de não contradição, segundo o qual nada pode ser e não-ser simultaneamente sob o mesmo aspecto, é uma característica importante da verdadeira religião, deve prevalecer nela, o que não significa racionalismo, uma perversão da razão humana, que a eleva acima de seu verdadeiro poder,  um ídolo moderno.

Os falsos deuses, os ídolos, são obras de mãos humanas ou conselhos diabólicos, nos quais não há nada de divino, porque Deus é a Puríssima Verdade, que não se engana nem engana ninguém, que em seu Ser Divino exclui qualquer falsidade e maldade.

Por cinco motivos houve necessidade de Cristo ressurgir

“(…)

Por cinco motivos houve necessidade de Cristo ressurgir:

Primeiro, para louvor da divina justiça, à qual é próprio exaltar aqueles que se humilham por causa de Deus, conforme o que diz Lucas: “Precipitou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes” (1, 52). E uma vez que Cristo, por causa do amor e da obediência a Deus, se rebaixou até a morte de cruz, convinha que fosse exaltado por Deus até a gloriosa ressurreição. Por isso, representando-o, diz o Salmo 138, com o comentário da Glosa: “Senhor, tu me conheces”, isto é, aprovaste, “o meu cair”, isto é, minha humilhação e paixão, “e a minha ressurreição” (v. 2), isto é, minha glorificação na ressurreição.

Segundo, para instrução da nossa fé. É que pela ressurreição dele foi confirmada nossa fé sobre a divindade de Cristo, pois, como diz a segunda Carta aos Coríntios: “Foi crucificado pela nossa fraqueza, mas está vivo pelo poder de Deus” (13, 4), e, por isso, diz em outra Carta: “Se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é vazia, e vazia também a vossa fé” (I Cor 15, 14). E diz o Salmo 29: “Que utilidade haverá em meu sangue”, isto é, com a efusão de meu sangue, “e em minha descida”, isto é, como que por diversos degraus do mal, “à corrupção?” (v. 10), como se dissesse: nada. Pois se não ressurgir logo e meu corpo se corromper, não pregarei a ninguém, e não ganharei ninguém como explica a Glosa.

Terceiro, para levantar nossa esperança, pois, ao vermos Cristo, nossa cabeça, ressuscitar, temos esperança de que também nós ressuscitaremos. Por isso, diz a primeira Carta aos Coríntios: “Se se proclama que Cristo ressuscitou dos mortos, como é que alguns dentre vós dizem que não há ressurreição dos mortos?” (15, 12). E o livro de Jó: “Mas eu sei”, isto é, pela certeza da fé, “que meu redentor’, isto é, Cristo, “está vivo’, isto é, tendo ressuscitado dos mortos, e, por isso, “no último dia se erguerá da terra; esta minha esperança depositada em meu peito” (19, 25-27).

Quarto, para dar forma à vida dos fiéis, segundo o que diz a Carta aos Romanos: “Assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, também nós levemos uma vida nova” (6, 4). E mais abaixo diz: “Ressuscitado de entre os mortos, Cristo não morre mais; do mesmo modo também vós: considerai que estais mortos para o pecado e vivos para Deus” (v. 9, 11).

Quinto, para aperfeiçoamento de nossa salvação. Assim como, por esse motivo, suportou incômodos morrendo, para nos livrar dos males, também foi glorificado ressurgindo, para nos fazer avançar no bem, segundo o que diz a Carta aos Romanos: “Entregue por nossas faltas e ressuscitado para nossa justificação” (4, 25) (…)”. (Santo Tomás de Aquino, “Suma Teológica III, 53, 1”)