Espiritualidade sem verdade e religião sem razão são perversões que não correspondem ao verdadeiro Deus, a Verdade Eterna

Espiritualidade sem verdade e religião sem razão são perversões, e enquanto tais não correspondem ao verdadeiro Deus, que é a Razão Suprema, a Verdade Eterna. São ídolos, aos quais se opõe a verdadeira profecia, e mitos, aos quais se opõe a verdadeira filosofia. São falsidades na religião, engodos do “pai da mentira”. O verdadeiro cristianismo, como verdadeira religião, repugna isto, porque é repugnado pelo Logos Divino, o Cristo-Verdade, Aquele que é o Caminho, que enquanto tal sempre exclui o que é falso.

Santa Edith Stein diz: “Um ente é perfeito quando é absolutamente o que deve ser, quando não lhe falta nada e quando alcançou o grau supremo de ser. Essa perfeição significa uma conformidade do ente com a ideia divina, que constitui seu arquétipo (ou seja, a verdade da essência) e, ao mesmo tempo, uma conformidade com a vontade divina (ou seja, a bondade da essência). O que é perfeito e verdadeiro, bom e belo”.

Tudo o que em Deus é absoluto, nas criaturas só pode ser relativo

Como diz a razão, o que necessariamente é, é impossível não ser, e o que é impossível ser, necessariamente não é. Sobre o que Deus não pode fazer, Santo Tomás de Aquino ensina: “Deus não pode fazer Deus, pois é da natureza do ente feito que o ser dependa de outra coisa. Mas isto é contra a natureza do ente que é chamado de Deus… Pela mesma razão, Deus não pode fazer uma coisa igual a Deus”.

Se nada pode existe fora de Deus e se Deus não pode fazer algo igual a Deus, então não criação há necessariamente semelhança e diferença. Assim, tudo o que em Deus é absoluto, nas criaturas só pode ser relativo. Por exemplo: em Deus o ser é absoluto e nas criaturas é relativo, em Deus é infinito e nas criaturas é finito. O mesmo pode ser dito do poder e da bondade. Absoluto significa ser independente de outro e relativo significa ser dependente de outro. Há criaturas, como o homem, que possuem independência relativa, dentro da dependência absoluta que possuem de Deus, o Independente Absoluto.  

Cristo disse aos seus discípulos: “Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer”.

O Deus Uno visível pela razão humana é desde sempre o Deus Uno e Trino da Revelação em Cristo

O verdadeiro Deus da razão humana é o verdadeiro Deus da Revelação divina em Cristo, a Sabedoria encarnada, porque a verdade não pode contradizer a verdade. A diferença entre essas ordens de verdades a respeito do único Deus não está em Deus mesmo, no próprio Ser de Deus, mas diz respeito à mente humana, à relação do homem com o Ser Divino, este em sua Onipotência e aquele com o limitado poder de sua consciência. Enquanto ordens de verdades sobre a Essência Divina, não há entre elas relação de contradição, e sim relação de mais e menos, de transcendência, de superação.

Um conhecimento pode ser importante pelo menos de dois modos: enquanto conhecimento mesmo e enquanto conhecimento deste ou daquele ser. As duas ordens importam porque contêm conhecimentos – verdades – e ainda mais porque são sobre Deus, o Ser Absoluto, que é simultaneamente o Valor Absoluto, pois ser é valer, quer dizer, tudo o que vale, donde a importância, vale por ser algo e não um nada e por ser o que é, e assim o nada não vale nada porque nada é em si mesmo.

Que Deus é Uno, Unidade Absoluta, a razão humana pode alcançar, por razões necessárias, pelas necessidades absolutas do ser, e assim é capaz de reconhecer sem engano que é verdade. Que o mesmo Deus Uno é Uno e Trino, a razão humana não é capaz de alcançar por si mesma, situação da qual não pode sair sem o auxílio da Divindade Onipotente. Que Deus é Uno e Trino, uma só Essência Divina na qual há três Pessoas igualmente divinas, sem com isto ser três deuses, ensina a revelação em Cristo, do Deus que conhece totalmente a si mesmo e pode comunicar aquilo que conhece. Enquanto algo que ultrapassa seu poder, a razão não o diz a Trindade de Deus como algo evidente, não porque a negue como algo sem sentido, e sim porque, se ela pode ver, só pode até certo ponto. Seja como for, como tal divisão não está em Deus mesmo, o Deus Uno visível pela razão humana é, simultaneamente, desde sempre, Uno e Trino, e assim permaneceria mesmo se não houvesse criação nem revelação.     

Divina ordem do ser: “O corpo (eucarístico) do meu Filho é um sol; constitui uma só coisa comigo, que sou o sol”

“No princípio, Deus criou o céu e a terra. A terra estava sem forma e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas. Deus disse: ‘Faça-se a luz!’. E a luz foi feita”.

Na divina ordem do ser há antes, desde toda a eternidade, a ordem do Ser Absoluto e depois a ordem das criaturas finitas, necessariamente relativas. Inversamente, na ordem da criação há antes o não-ser e depois o ser, porque “informe”, “vazia” e “trevas” significam ausências. Neste sentido, o Espírito de Deus que pairava sobre as águas significa também as puras possibilidades da Onipotência Divina, da qual nascem as criaturas. Assim, o dizer de Deus significa as palavras de sua Sabedoria Onipotente, que é ao mesmo tempo sua Onipotência perfeitamente sábia. É o Logos Criador, e tudo que Ele faz possui sentido, razão, verdade, porque é próprio da perfeição de seu Ser, como o artista que deixa suas marcas nas obras de sua arte.

Pelo Logos, Deus criou tudo com significado, e cada coisa, como uma ideia divina, possui múltiplos sentidos, a exemplo daqueles de suas relações, como os sentidos simbólicos. Pertence à ordem da criação os simbolismos como ideia divina. Deus fala na criação e fala por meio dos símbolos nela presentes.  Por exemplo, o sol como criatura na Mente Divina foi criado como um astro celeste iluminador, mas também como um símbolo de alguns simbolizados.

Na Sagrada Escritura, Zacarias, em profecia sobre seu filho São João Batista, fala de Cristo como “o Sol nascente”: ““E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e lhe prepararás o caminho, para dar ao seu povo conhecer a salvação, pelo perdão dos pecados. Graças à ternura e misericórdia de nosso Deus, que nos vai trazer do alto a visita do Sol nascente, que há de iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte e dirigir os nossos passos no caminho da paz”. No livro do Apocalipse é dito outra profecia: “Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas”. Em um de seus sentidos, a mulher vestida de sol significa Maria Puríssima e sua presença decisiva nos últimos tempos.

Nos diálogos com Santa Catarina de Sena, a Sagrada Eucaristia é chamada por Deus Pai de “sol eucarístico”: “O corpo (eucarístico) do meu Filho é um sol; constitui uma só coisa comigo, que sou o sol. Impossível nossa separação, como acontece no sol, no qual o calor não pode ser dissociado da luz, e a luz, da claridade. O sol também ilumina toda a terra, sem deixar sua esfera celeste, aquecendo os seres que se expõem aos seus raios; nem se mancha a sua luz na imundície. Pois bem, o mesmo acontece com o sol-Eucaristia – todo-Homem e todo-Deus”.

O Imutável dos imutáveis, o Ser Necessário dos necessários tem um nome: Deus, a Santíssima Trindade

Santo Tomás diz: “Todo necessário, enquanto tal, está sempre do mesmo modo/ O que é necessário, sempre é como é”.

Necessário é aquilo que não pode ser de outro modo, em oposição ao contingente, que pode ser de outro modo. Assim como há realidades contingentes, há realidades necessárias. No ser há simultaneamente a necessidade, a possibilidade e a impossibilidade.

Exemplos: (1) na relação ensino-aprendizado, há necessariamente uma diferença de consciência entre aquele que ensina e aquele que aprende, alguém que sabe e alguém que não sabe, porque do contrário teriam o mesmo saber ou não-saber, e assim não haveria entre eles algo ser ensinado e algo a ser aprendido. Deus, por exemplo, é sempre Aquele que ensina, porque enquanto Consciência Onisciente tudo sabe, e por isto não pode aprender, porque o aprender supõe um não-saber. (2) Se desenho um triângulo, necessariamente terá três lados, pois é algo que pertence à essência do triângulo, que faz com que ele seja o que é e não seja outra coisa. Por ser essencialmente necessário, vale para todos os triângulos possíveis e permanece sempre como é, está sempre do mesmo modo. Assim, podemos falar de verdades eternas do triângulo ou da triangularidade como significado eterno na Mente Eterna de Deus.

Como mostra a experiência, é necessário que nem tudo seja impossível, pois do contrário nada haveria. Por isto, é necessário que haja o possível, porém nem tudo pode ser apenas possível, porque há o necessário, e um deles é que nem tudo pode ser impossível. Todo necessário é possível, pois do contrário nem sequer poderia ser, porém nem todo possível é necessário, porque há realidades que poderiam não ser e nem tudo permanece sempre como está, a exemplo dos mutáveis, daquilo que muda porque pode mudar.

Assim, por razões inegáveis, podemos reconhecer que na realidade há o possível, o impossível e o necessário, o que significa que há o imutável e o mutável. O Imutável dos imutáveis, o Ser Necessário dos necessários tem um nome: Deus, a Santíssima Trindade. São Tiago diz na Sagrada Escritura: “Todo dom precioso e toda dádiva perfeita vêm do alto; descem do Pai das luzes, no qual não há mudança, nem sombra de variação”.

O Criador e a criatura: Perfeição em sentido Absoluto e perfeição em sentido relativo

Há perfeição em sentido absoluto e há em sentido relativo. No primeiro, só Deus é perfeito, porque só Ele é em si toda a plenitude do ser puríssimo em sua grandeza infinita, e assim somente um Ser pode ser perfeito. No segundo, há múltiplas perfeições possuídas por múltiplas coisas. Pelas perfeições que possui, dadas pelo Criador, o universo é perfeito à sua maneira, do mesmo modo que o homem, que pelas perfeições que possui, é perfeito à sua maneira. O homem, por exemplo, possui a perfeição da consciência, o que lhe permite adquirir a perfeição da sabedoria, no grau em que lhe é possível, o que não pode ser dito do universo, que possui em certo grau a perfeição da beleza. A perfeição é relativa não com relação à opinião humana, e sim com relação à perfeição absoluta, pois diz respeito ao ser finito, por essência limitado.

Exemplo. São Luís de Montfort, em seu “Tratado da verdadeira devoção à Santíssima Virgem”, diz sobre a Imaculada: “14. Confesso com toda a Igreja que Maria é uma pura criatura saída das mãos do Altíssimo. Comparada, portanto, à Majestade infinita ela é menos que um átomo, é, antes, um nada, pois que só ele é “Aquele que é” e, por conseguinte, este grande Senhor, sempre independente e bastando-se a si mesmo, não tem nem teve jamais necessidade da Santíssima Virgem para a realização de suas vontades e a manifestação de sua glória. Basta-lhe querer para tudo fazer.

15. Digo, entretanto, que, supostas as coisas como são, já que Deus quis começar e acabar suas maiores obras por meio da Santíssima Virgem, depois que a formou, é de crer que não mudará de conduta nos séculos dos séculos, pois é Deus, imutável em sua conduta…

1. Foi pela Santíssima Virgem Maria que Jesus Cristo veio ao mundo, e é também por ela que deve reinar no mundo. 5. Maria é a obra-prima por excelência do Altíssimo… 23. Deus Pai ajuntou todas as águas e denominou-as mar; reuniu todas as graças e chamou-as Maria. Este grande Deus tem um tesouro, um depósito riquíssimo, onde encerrou tudo que há de belo, brilhante, raro e precioso, até seu próprio Filho; e este tesouro imenso é Maria, que os anjos chamam o tesouro do Senhor, e de cuja plenitude os homens se enriquecem”.

Carnaval: males e sofrimentos

No século passado, Santa Faustina, com suas experiências místicas, diz o seguinte sobre o carnaval de sua época:

– “Nos últimos dias do Carnaval, quando fazia a Hora Santa, vi Nosso Senhor no momento da flagelação. Oh, que suplício inconcebível! Como Jesus sofreu terrivelmente quando foi flagelado! Ó pobres pecadores, como será o vosso encontro no dia do Juízo com esse Jesus a quem agora assim tão cruelmente martirizais? O Seu Sangue corria pelo chão e, em alguns lugares, o corpo começou a desencarnar-se. E vi nas costas alguns dos Seus ossos despidos de carne… Jesus, silencioso gemia e suspirava”.  (Diário, nº 188)

– “Nestes dois últimos dias de carnaval, conheci um grande acúmulo de castigos e pecados. O Senhor deu-me a conhecer num instante os pecados do mundo inteiro cometidos nestes dias. Desfaleci de terror e, apesar de conhecer toda a profundeza da misericórdia divina, admirei-me que Deus permita que a humanidade exista” (Diário, nº 926).

– “Últimos dois dias de carnaval. Os meus sofrimentos físicos aumentaram. Procurei unir-me mais estreitamente com o Salvador, pedindo-Lhe misericórdia para o mundo todo, que enlouquece em sua maldade. Durante todo o dia senti a dor da coroa de espinhos. Quando fui me deitar, não podia encostar a cabeça no travesseiro, porém, às dez horas, desapareceram as dores e adormeci, sentindo contudo no dia seguinte um grande esgotamento”. (Diário, nº 1619)

O Pão da virtude divina, o Pão dos regenerados no batismo, o Pão dos reconciliados na confissão

Na “Suma contra os gentios”, Santo Tomás sobre a Sagrada Eucaristia ensina o seguinte: “A vida corpórea necessita de alimento material para o crescimento e para o sustento do corpo, do modo que este não se corrompa pelos desgastes contínuos e perca sua força. Ora, foi também necessário haver um alimento para a vida espiritual, por meio do qual os regenerados conservem a virtude e cresçam”.

Figura disto é a história do profeta Elias, quando recebeu do anjo pão e água, que lhe deram vigor para caminhar 40 dias e 40 noites no deserto até chegar ao monte Horeb, a montanha de Deus. Em parte, o que o pão do anjo foi para Elias, a Sagrada Eucaristia está destinada a ser para aqueles que dela se alimentam. Enquanto Pão espiritual, é o Pão da força divina, que sustenta na caminhada do exercício das virtudes, caminho ensinado por Cristo, contra a tirania das obras da carne, contra a agressividade das paixões ávidas por serem satisfeitas. É o Pão dos regenerados no Batismo e dos reconciliados no sacramento da Penitência, concedido por Deus para que, pela vivência das virtudes, o homem permaneça na amizade divina e nela cresça, tornando-se assim mais semelhantes ao Redentor, que enquanto “Cristo Total” é também o Cristo-Eucarístico. Assim, Ele disse: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele”.

Por outro lado, São Paulo adverte que o Pão Divino não deve ser recebido por qualquer pessoa em qualquer estado: “Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpável do corpo e do sangue do Senhor. Que cada um se examine a si mesmo e, assim, coma desse pão e beba desse cálice”.

A este respeito, o Papa Pio X ensina: “(…) nem seja lícito proibir o acesso à sagrada Mesa a quem esteja em estado de graça e se aproxime com reta e pia intenção. A intenção é reta quando vamos à Mesa eucarística, não por costume, nem por vaidade, ou por qualquer outro motivo humano, mas para cumprir a vontade de Deus, para mais nos unir com Ele por amor, e para buscar na Eucaristia o remédio divino em nossos defeitos e misérias”.

“Aceitar um verdade evidente é sinal de certa humildade e entregar-se à verdade divina é a alma mesma da verdadeira humildade”

No conhecimento humano há uma participação da liberdade, que traz consigo a possibilidade de aceitação ou negação. Como caso possível, pode haver aceitação do que não deveria ser aceito, por ser falso, e pode haver negação do que não deveria ser negado, por ser verdadeiro. Assim, consideradas as possibilidades, pode-se dizer que no conhecimento há um reconhecimento, no sentido de assentimento da vontade. Por exemplo, uma tendência negativa dos homens, nascida do pecado original, é facilmente se persuadir “de ser falso e duvidoso o que não querem que seja verdadeiro”.

De certo modo, a verdade exige a virtude.

Por exemplo, sobre o demônio Santa Edith Stein diz: “lucífer conhece a distância entre seu ser e o Ser Divino, mas que “não quer reconhecê-lo”. Com isso, se converte no “pai da mentira”. A mentira não é – como o erro – um desconhecer a verdade ou um suposto conhecimento, mas tentativa de aniquilar a verdade. É uma tentativa impotente: a mentira colide contra a verdade”.

O filósofo Dietrich von Hildebrand diz: “Ser relativista ou cético, recuar em comprometer-se sem reservas com a verdade, é certamente demonstração de orgulho. Aceitar um verdade evidente é sinal de certa humildade e entregar-se à verdade divina e absoluta é a alma mesma da verdadeira humildade”.

Em sua Carta aos Tessalonicenses, ao instruir sobre os enganos do império do Anticristo, São Paulo fala daqueles “que se perdem, por não terem cultivado o amor à verdade que os teria podido salvar. Por isso, Deus lhes permitirá um poder que os enganará e os induzirá a acreditar no erro. Desse modo, serão julgados e condenados todos os que não deram crédito à verdade, mas consentiram no mal”.

O erro dos pagãos: Em vez de adorarem o único verdadeiro Deus, Senhor de tudo, preferiram adorar muitos deuses

No livro “A Verdade Religião”, Santo Agostinho diz: “Assim, é por aí que melhor se manifesta o erro dos pagãos. Em vez de adorarem o único verdadeiro Deus, Senhor de tudo, preferiram adorar muitos deuses. Seus sábios – os renomados filósofos – adotavam para si mesmos outras doutrinas”.

Antes de tudo, o paganismo, com toda falsa religião, deve ser rejeitado pelo que possui de falso, pelas verdades que nega. Enquanto a realidade diz haver apenas um Deus verdadeiro, Senhor de tudo, o Ser Supremo, o Primeiro Princípio, a Causa Total do ser, a falsidade pagã diz haver vários deuses, merecedores de adoração. A afirmação de vários deuses é necessariamente a negação do único Deus verdadeiro, é a negação da adoração que apenas a única Divindade merece, por ser o que é, por valer o que vale: o Ser Absoluto, o Valor Absoluto.

Superstição é falsidade na religião, que não pertence ao verdadeiro Deus, a Verdade Eterna; é superestimar alguma criatura, tratá-la como se fosse algo que na realidade não é, como se valesse o que na realidade não vale. No caso dos pagãos mencionados por Santo Agostinho, estimam estátuas como se fossem deuses ou representações de deuses, que são falsos enquanto tais. Podem até ter um significado simbólico ou um valor artístico, mas de modo algum significam deuses no sentido próprio em que só pode haver um Deus verdadeiro, como aquele que é o Ser Absoluto, o Sumo Bem, merecedor da verdadeira adoração, por ser, conforme à razão, o mais amável, acima de todas as coisas.

Parte da realidade são as possibilidades, e toda possibilidade é possibilidade da realidade, do ser. A própria realidade diz que pode haver apenas um Deus em sentido elevadíssimo, enquanto Ser Supremo, Eterno, Infinito, e assim por diante. Múltiplos deuses neste sentido significa contradição, negações mútuas, portanto impossibilidade absoluta. Assim, na sabedoria das razões, por razões necessárias só pode haver um verdadeiro Deus e apenas Um merecedor de adoração.