O Pão dos anjos: “a Eucaristia é o Paraíso na terra”

O verdadeiro Deus é onipresente. Ele está presente em todas as coisas e todas as coisas estão presentes nele, porque nada pode existir sem Deus. Porém, Deus não está presente em todas as coisas do mesmo modo, pois, embora certamente ele seja onipresente, há modos de presença do Criador, o que significa semelhanças e diferenças, o Um e o Múltiplo da presença divina. Se ele estivesse presente do mesmo modo em todas as coisas, certos estariam os panteístas quando dizem que tudo é divino. Deus está presente no cosmos e no homem, no pagão e no batizado, porém não do mesmo modo. Ele está presente no pagão porque, enquanto homem, o pagão foi feito à sua imagem e semelhança, porém está presente de um modo superior no batizado que está em estado de graça, pois este possui a vida divina sobrenatural conquistada por Cristo. Santo Tomás de Aquino ensina: “o unigênito Filho de Deus, querendo fazer-nos participantes da sua divindade, assumiu nossa natureza, para que, feito homem, dos homens fizesse deuses”.

A noção dos modos de presença de Deus vale para Cristo, porque Cristo em si mesmo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Ele permanece presente em suas divinas palavras de vida eterna, permanece presente em seu Corpo Místico, sua verdadeira Igreja, divinamente protegida até o fim do mundo, e permanece presente em seu Corpo Eucarístico, porque ele é o Deus que se fez homem e o Deus-homem que se fez Eucaristia. Cristo está presente na terra assim como está no Céu, por isto, como ensina a sabedoria da verdade religião, a “Eucaristia é o Paraíso na terra”.

O profeta Isaías diz: “Vós sois em verdade um Deus oculto, o Salvador”. Deus, quando se esconde, se esconde por Amor, e quando se mostra, mostra-se por Amor. Na Transfiguração se mostrou por amor e na Crucificação se escondeu por amor. Suas decisões são sempre decisões de sua infinita Bondade. A Sagrada Eucaristia, em sua aparência de Pão, significa o amor misericordioso de Deus por sua criatura humana. Nela, vista como pão, escondidas estão a Divindade e a humanidade de Cristo, e nisto se vê o Amor, a Misericórdia, o Pão dos anjos, seu alimento espiritual, o próprio ser Divino, que os sacia plenamente e continuamente.

São Francisco de Assis e o pleno abandono à Vontade divina

Neemias relata em seu livro: “E o rei disse-me: “Que desejas?” Então, fazendo uma oração ao Deus do céu, eu disse ao rei: “Se for do agrado do rei e se o teu servo achar graça diante de ti, deixa-me ir para a Judeia, à cidade onde se encontram os túmulos de meus pais, a fim de que possa reconstruí-la”. Assim como Neemias, São Francisco de Assis inicia sua missão apostólica com o chamado divino e o desejo em seu coração de restaurar sua amada Igreja, maltratada e mutilada pelos homens decaídos. Em sua missão, como frade mendicante, desejou ser como Cristo, que não tinha onde repousar a cabeça, totalmente abandonado na Providência Divina, com máxima confiança. Assim, como eleito de Deus, fiel servo, um novo Cristo, mudou a história. Como disse Neemias: “E o rei concedeu-me tudo, pois a bondosa mão de Deus me protegia”.

A este respeito, o Senhor Jesus Cristo ensinou ao sacerdote e místico católico Dolindo Ruotolo: “A escada para o Céu é a Minha vontade. O caminho para se alcançar a minha vontade é o abandono e a confiança nas pequenas coisas. O caminho da confiança é pensar pouco no que aconteceu no passado e no que pode acontecer no futuro. Para quê pensar no passado, que não existe mais? Para quê pensar no futuro, que não depende de ti? Repousa em Mim, cumprindo com fidelidade os deveres que te são próprios, fazendo o que depende de ti no momento em que deves agir: eis o segredo da paz interior e, consequentemente, do fervor da alma. Não existe fervor quando não há calma, e não existe calma se não há um pleno abandono em Mim”.

Quem confia na Misericórdia Divina jamais perecerá, nada lhe destruirá, pois ela é Onipotente e cuida afetuosamente de seus filhos amados. A existência de Deus, e com ela sua onipotência, é motivo de alegria para o justo, o homem virtuoso (diante do Criador). A plenitude do ser ou o Ser em suas perfeições eternas é, para si mesmo e para aqueles que as conhecem, experiência de felicidade, motivo de santo deleite.  

A Onipotência Divina: poder fazer e poder ser feito

O poder fazer exige o poder ser feito. Para poder fazer algo é preciso que seja possível ser feito. Se algo não pode ser feito então ninguém pode fazê-lo, e se alguém pode fazer algo é porque ele pode ser feito. A água pode destruir uma cidade porque a cidade pode ser destruída, porém a água não pode, como trabalhador habilidoso, construir uma cidade, porque a cidade não pode ser construída pela água. Se Cristo andou sobre as águas, isto quer dizer que é possível andar sobre as águas. O poder diz a possibilidade e de certo modo a possibilidade diz o poder. Assim, pela Onipotência posso considerar tudo quanto pode ser feito e pela imensidão de possibilidades do ser posso reconhecer a Onipotência.

Deus é a plenitude do Ser, e como há uma relação entre o ser e o poder, Deus é a plenitude do poder, é Onipotente. O Senhor do ser é o Senhor do poder, ele pode fazer tudo quanto pode ser feito. O puro nada não pode ser feito, porque o puro nada não tem possibilidade nenhuma, caso tivesse não seria puro nada e sim alguma coisa. Por ser perfeitíssimo, e não por ser imperfeito, Deus não pode fazer o puro nada assim como não pode mentir, porque é sem sentido. Deus é o Eterno, Deus é a Verdade. Um ser eterno que pode deixar de ser e a Verdade que mente não faz sentido, são absurdos contra a Sabedoria, contra o Logos divino. A verdade não pode contradizer a verdade, não pode negar a si mesma. Assim, o que é absolutamente impossível, aquilo que por contradição intrínseca nega a si mesmo, na realidade é nada, não pertence ao ser.   

O salmo 106 diz: “Agradeçam ao Senhor por sua bondade, e por suas grandes obras em favor dos homens (…). Transformou rios em deserto, e fontes de água em terra árida. Converteu o solo fértil em salinas, por causa da malícia de seus habitantes. Mudou o deserto em lençol de água, e a terra árida em abundantes fontes. Aí fez habitar os esfaimados, que fundaram uma cidade para morar. (…) Quem é sábio para julgar estas coisas e compreender as misericórdias do Senhor?”.

Os três santos arcanjos: anjos da Verdade divina, executores da vontade de Deus

O salmo 10 diz: “o Senhor é justo, ele ama a justiça”. Do mesmo modo podemos dizer: Deus é misericordioso e ama a misericórdia, é a Verdade e ama a verdade, é paciente e ama a paciência, é bondoso e ama a bondade, é puro e ama a pureza, é Santo e ama a santidade. À Santa Catarina de Sena ele disse que “ama a virtude e detesta o vício”. Assim, se ele ama a verdade, detesta a falsidade, e se ama a bondade, detesta a maldade, e assim por diante.

O salmo 11 diz: “As palavras do Senhor são palavras sinceras, puras como a prata acrisolada, isenta de ganga, sete vezes depurada”. Isto significa que as palavras de Deus, os ensinamentos da Sabedoria Vivente, são sempre pura verdade, sem mistura alguma com qualquer falsidade. De Deus jamais vêm meias-verdades misturadas com falsidades, o que é diferente de ensinar progressivamente porções da verdade para uma mente limitada, que por si mesma é incapaz de conhecer tudo totalmente, como é o caso do Mente Divina onipotente.  As meias-verdades misturadas com falsidade são próprias dos anjos caídos e dos homens caídos, jamais de Deus, que é a Pura Verdade, Verdade Eterna puríssima. O ser de Deus não é compatível com a falsidade, assim como o puro não é compatível com o impuro.

A batalha entre os espíritos angélicos, liderados por São Miguel de um lado e pelo Dragão do outro, é uma batalha da verdade contra a falsidade, consequentemente da bondade contra a maldade. São Miguel é o combatente da verdade, porque realmente ninguém é como Deus, porque apenas a Trindade reina soberanamente em seu Trono Divino como o Senhor de todas as coisas, o Senhor de toda a existência. O Dragão, a antiga serpente, é o líder da falsidade, “chamado Diabo e Satanás, o sedutor do mundo inteiro”. Seduzir é enganar com a aparência, é como vestir trajes atraentes que encobrem um corpo apodrecido. Na sedução eficaz, como possibilidade negativa da mente finita, prevalece o não-ser sobre o ser, a falsidade sobre a mentira. A verdade é o ser, é visão, é verdadeira consciência. Assim, Cristo promete a Natanael: “Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”, e o salmo 137 diz: “Eu agradeço o vosso amor, vossa verdade, porque fizestes muito mais que prometeste”.

Os três Santos Arcanjos são anjos da Verdade Divina, executores da Vontade de Deus. São Miguel é o arcanjo da verdade contra as ciladas e maldades do Dragão infernal. São Gabriel é o arcanjo das verdades da verdadeira religião, do Deus verdadeiro e de sua Mãe Imaculada. São Rafael é o arcanjo da verdade nos conselhos a Tobias, com frutos de cura e salvação.

São Miguel, São Gabriel e São Rafael, rogai por nós! Santa Maria, Rainha dos anjos, rogai por nós!

Os mistérios da fé na religião da Sabedoria Encarnada: limite da mente humana e jamais sem sentido

A verdade não pode contradizer a verdade, não pode negar a si mesma. Consequentemente, se os conteúdos da fé são verdadeiros, eles não podem contradizer as verdades que a razão humana conhece. Deus é a Verdade Eterna, totalmente e sempre verdadeiro. A verdade é luz e as verdades de cada ser são como feixes da Luz divina.  

Na verdadeira religião, os mistérios da fé, segredos do ser, significam limites da mente finita do homem em si mesmo finito, jamais contradição. Não são mistérios em si, segredos absolutos, pois se assim fossem nem Deus poderia sabê-los, o que é impossível ante a Onisciência Divina tudo conhece totalmente e intimamente. Por ser impossível, é sem sentido falar da ressurreição de quem não morreu, embora não seja impossível a ressureição de quem morreu. A primeira é uma contradição e a segunda um mistério, separados pela possibilidade e pela impossibilidade absoluta.

Se não é uma impossibilidade, o mistério – ou o fato milagroso – ensina o que é possível. Cada ser possui o seu logos, seu modo próprio de ser, que diz suas possibilidades e impossibilidades. A água pode destruir uma cidade, porém não pode, como trabalhador habilidoso, construir uma cidade. Se Cristo andou sobre as águas, isto quer dizer que é possível andar sobre as águas. Este fato nos ensina algo sobre o ser da água, que vale para tudo o mais: se há o logos de cada coisa, há o Logos em todas as coisas, o Logos Divino, vivente e onipotente, o Senhor do universo. Quer dizer, há um governo divino do cosmos que se mostra de diferentes maneiras para a mente humana em sua vida terrena. No que é comum e no que é incomum, o Criador fala por meio de sua criação, que dele recebe a existência a todo instante. Assim, Cristo, a Sabedoria Encarnada, para os tempos profetizados fala dos sinais dos tempos presentes na criação, no céu e na terra.

O salmo 123 diz: “Todos esses seres esperam de vós que lhes deis de comer em seu tempo. Vós lhes dais e eles o recolhem; abris a mão, e se fartam de bens. Se desviais o rosto, eles se perturbam; se lhes retirais o sopro, expiram e voltam ao pó donde saíram. Se enviais, porém, o vosso sopro, eles revivem e renovais a face da terra”.

“Narram os céus a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos”

Quando a Sagrada Escritura fala da glória de Deus, o que isto significa? Significa a grandeza infinita do ser de Deus, dita por exemplo pelo seu Poder Onipotente. Todos os atributos de Deus, tudo aquilo que pertence à Essência Divina, é estimável, é adorável. Quando o salmo 18 diz “narram os céus a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos”, Deus é reconhecido como o Criador Onipotente e a grandeza de sua criação diz algo sobre o quão grande Ele é. Narrar é dizer, anunciar é dizer. Dizer supõe consciência, inteligência. Consciência supõe o ser, o significado. Neste sentido, tudo o que existe diz algo, e sempre diz algo do Criador, da Mente Divina. A realidade, o cosmos, como cheia de significados, é inteligível, pode ser captada, diz e pode ser dita.  Nas coisas há logos, significado, razão, porque Deus é onipresente, é a Razão Eterna, a Sabedoria Onipotente que tudo contém. Assim, o mesmo salmo diz: “A lei do Senhor é perfeita, reconforta a alma”.

Qualquer ser só é grande na medida em que participa da grandeza infinita de Deus. Não há nada que possa ser maior que Deus nem ser grande sem Deus. A superioridade é sempre no ser, do contrário seria no nada, o que é sem-sentido. A grandeza de Deus significa as perfeições que ele possui em plenitude, de modo imutável, eternamente, sem possível diminuição nem possível aumento, caso contrário não seria em plenitude nem de modo imutável.

A grandeza da criatura diz a grandeza do Criador. Cristo ensina à Santa Faustina que a verdadeira grandeza está na humildade e no amor a Deus. Por isto, nas verdades da verdadeira religião, entre as puras a Criaturas a maior é a Virgem Santíssima, a Mãe do Salvador. Ante o Arcanjo São Gabriel, ela disse “Eis a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra”, escrava no sentido de que o seu ser com sua vontade é todo de Deus, sem limites.  E de si mesma disse: “Minha alma engrandece ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador, porque olhou para sua humilde serva. Por isso, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele é Onipotente e cujo nome é Santo”.

Consequências do ateísmo: insensata amoralidade e maléfico permissivismo moral

No salmo 13 está escrito: “Diz o insensato em seu coração: não há Deus”. Isto significa que o ateísmo é insensatez e não sabedoria. Dizer que não há Deus, quando na realidade há um Deus, é caminhar na falsidade, viver na ilusão. Insensatez quer dizer ausência de senso, neste caso, como exemplo, o senso da eternidade, o senso da unidade, o senso do absoluto, o senso do infinito, o senso do imutável, o senso da presença total, o senso do necessário, o senso dos logos, o senso das razões, e assim por diante. 

Não há nem haverá jamais razões inegáveis para o ateísmo, para negar a presença de Deus, daquele que, em sentido elevadíssimo, só pode ser Um, porque pode haver somente um Ser Supremo e Onipotente, por exemplo. No puro ateísmo não há verdade nem virtude, e sim falsidade e soberba. A figura do “bom ateu” é um mito, porque ou ele não é verdadeiramente bom ou não vive como um ateu deveria viver, em consequência de seu ateísmo. O ateísmo é uma perversidade e não merece elogios. Se é certo que em essência não há verdade nem virtude no ateísmo, o ateu, em seu estado de ateísmo, não é um modelo exemplar que mereça imitação.

Inegavelmente, se não há valores em si mesmos absolutos, se nada é absoluto, tudo é permitido. E se a negação de Deus significa a negação do verdadeiro absoluto, então podemos dizer que “se Deus não existe tudo é permitido”. Assim, é próprio do ateísmo a insensata “amoralidade”, o que significa que em si mesmo a moralidade e a imoralidade, o bem e o mal, são relativos, são equivalentes. O permissivismo moral é consequência do relativismo moral, que é uma consequência do ateísmo. Neste sentido, como exemplo, o genocídio em si mesmo não é imoral nem moral, e sim um simples fato que alguns podem considerar um mau e outros um bem.

Pelos frutos conhecereis.

Como é bom, Senhor, vossa bondade! Permita-me nela morar, pois sou pobre e Vós possuís toda a riqueza!

A sabedoria da verdadeira religião ensina que o pecado original tornou o homem um ser fragmentado, desarmônico, dividido, doente. É assim a criatura privada da amizade de Deus, harmonia de todas as coisas. Para o homem que deseja fugir de si mesmo, do vazio insuportável de seu ser decaído, o único refúgio eficaz é o próprio Deus. Ele é o caminho, a esperança, a salvação. Se no pecado original há soberba, negação do Criador, na salvação, com Cristo Rei e Maria Puríssima, a virtude original é a humildade, reconhecimento da infinita bondade e sabedoria do Criador onipotente. Se a Sagrada Eucaristia é Cristo e se Cristo é Deus, então o Pão da Vida é este refúgio, visível e invisível, corporal e espiritual. O salmo 33 diz: “provai e vede como o Senhor é bom. Feliz o homem que se refugia junto dele”. Santa Faustina diz que “os anjos, se pudessem invejar, nos invejariam por duas coisas: A primeira é a recepção da Santa Comunhão; a Segunda é o Sofrimento”.

No salmo 22 Davi diz com entusiasmo: “habitarei na casa do Senhor por longos dias”. Seu contentamento e desejo significam que há nisso felicidade. Como é habitar na casa do Senhor? É como habitar numa prisão? É como habitar num lugar tenebroso? De modo algum. Na casa do Senhor há a visão de supremas belezas, odores de delícia incomparável, alimentos de divino sabor, descanso de abundante suavidade e músicas que exalam êxtases para a alma. É uma casa com prazeres? Sim, mas prazer santo, na pureza da bondade. Lá o vinho inebriante da alegria e a água refrescante que sacia não faltam. Essa casa é o próprio Deus, uma morada no seu Ser glorioso, plenitude das perfeições. Como Cristo disse: “Na casa de meu Pai há muitas moradas”. Moradas com o perfume divino, perfume da santidade, das puras virtudes, da pura Verdade, agradável à alma e ornamento espiritual.

Quem deseja o mau odor, quando pode ter o bom odor? Quem deseja as trevas que entristecem quando pode ter a luz que alegra?  Ó homem insensato, tolo, de mente obscurecida, de coração endurecido! O que seria de ti sem a Misericórdia e o que será de ti com a Justiça? Se refugie na Misericórdia, pois Deus é amor e quer te elevar de sua miséria. Deixo-o ser seu amável Mestre, divino Amigo, e nada lhe faltará. Como é bom, Senhor, vossa bondade! Permita-me nela morar, pois sou pobre e vós sois rico, sua riqueza nunca acaba.

Jesus Cristo: verdadeiro Deus e verdadeiro Mestre

Como verdadeiro Deus no qual habita a plenitude da divindade, Cristo realiza milagres, como modo de provar que suas palavras são verdadeiras e que ele é verdadeiro, e com razão seja acreditado como aquele que é “Um com o Pai”, “o caminho, a verdade e a vida”. Os feitos milagrosos realizados por ele são sinais de sua divindade, de sua comunhão com o Pai onipotente, pois supõem um poder propriamente divino. A Escritura diz que após a oração do profeta Elias o filho de uma viúva voltou a viver, fato ante o qual ela exclamou: “Agora vejo que és um homem de Deus e que a palavra de Deus está verdadeiramente em teus lábios”. Cristo não é apenas um homem de Deus: é o próprio Deus, o Deus-Homem da transfiguração, que por Misericórdia veio visitar sua criação. Assim, São João Batista, o Elias que devia vir antes do Messias, disse: “Depois de mim vem outro mais poderoso do que eu, ante o qual não sou digno de me prostrar para desatar-lhe a correia do calçado”.

Como verdadeiro Mestre no qual estão todos os tesouros da sabedoria e ciência, Cristo é aquele que faz o que ensina e ensina o que faz, para mostrar que ele e suas palavras são verdadeiros. Desse modo, é misericordioso, sempre disposto a perdoar, e ensina a mesma misericórdia. Pelas palavras de verdade e pelo exemplo virtuoso, mostra à consciência humana o valor da misericórdia e do perdão. É a Misericórdia que em sua Onipotência criou o homem para a vida feliz. É a Misericórdia que pagou, com o sacrifício de valor infinito do Cordeiro de Deus, aquilo que o homem devia à justiça divina, divida que significava a infeliz privação da amizade divina original, fonte da felicidade para a qual a pessoa humana foi criada com bondade pelo Criador. Deus é bondade infinita, que contém tudo o que é bom, de modo que o bem de minha existência, todos os bens que possuo e o bem da minha salvação só podem vir dele. Assim, a sabedoria na mente humana significa a sabedoria da bondade divina que me envolve em tudo e a todo instante. O salmo 102 diz: “O Senhor é bondoso, compassivo e carinhoso. Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e todo o meu ser, seu santo nome! Bendize, ó minha alma, ao Senhor, não te esqueças de nenhum de seus favores!”.

“Espiritualidade” e “sentir-se bem”: examinai se os espíritos são de Deus

São Jerônimo, doutor da Igreja, participante da sabedoria do Divino Mestre, ensina que “ignorar as Escrituras é ignorar Cristo”. Assim, do mesmo modo que não devemos ignorar Cristo, por ser quem é, o Deus-homem, não devemos ignorar as Escrituras. A verdadeira religião é Cristo e seu Corpo Místico, sua Igreja Apostólica. A Sagrada Escritura ensina sobre Cristo e sobre os valores supremos da verdadeira religião. No Salmo 25 Davi diz: “Tenho sempre diante dos olhos vossa bondade, e caminho na vossa verdade”. No Evangelho Jesus Cristo diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai senão por mim”. Verdade, bondade e vida feliz, três valores supremos da religião ensinada pelo Deus vivo e verdadeiro.

Para a vida feliz, alguns ensinam a necessidade de uma “espiritualidade”, porém “espiritualidade” sem verdade e sem virtude é espiritualidade do diabo, pai da mentira, consequentemente não é a espiritualidade da verdadeira religião, que é sempre da verdade e do amor, inseparavelmente. A espiritualidade do diabo ensina que tanto faz a “religião”, que não há problema em ir à Missa, depois ao “culto protestante” e depois ao “centro espirita”, se com isto “me sinto bem”. O “sentir-se bem” pode ser um mau conselho da carne e nem sempre é um critério confiável, porque pode ser enganoso. Cristo sofreu, o que significa que sentiu no corpo e na alma o que lhe era desagradável. No Horto das Oliveiras sentiu “tristeza mortal”, intensa agonia. Não “se sentiu bem”, mas permaneceu na verdade e na virtude: “Pai, afasta de mim este cálice, se assim for a Vossa vontade”.      

Certa vez o profeta Elias, contra as misturas indevidas, opostas à Sabedoria Divina, advertiu o povo de Israel: “Até quando claudicareis dos dois pés? Se o Senhor é Deus, segui-o, mas se é Baal, segui a Baal!”. Nesta mesma história, o profeta desafiou os quatrocentos e cinquenta falsos profetas de Baal e os venceu com o auxílio divino, nisso mostrando ao povo o verdadeiro Deus: “Vendo isso, o povo prostrou-se com o rosto por terra e exclamou: “O Senhor é Deus! O Senhor é Deus!”.

Em sua carta, o Apóstolo São João ensina: “Caríssimos, não deis fé a qualquer espírito, mas examinai se os espíritos são de Deus, porque muitos falsos profetas se levantaram no mundo. Nisto se reconhece o Espírito de Deus: todo espírito que proclama que Jesus Cristo se encarnou é de Deus; todo espírito que não proclama Jesus esse não é de Deus, mas é o espírito do Anticristo de cuja vinda tendes ouvido, e já está agora no mundo”. Assim, em razão do supremo valor da verdade, não posso ser católico e espírita, porque, entre tantas oposições importantes, no espiritismo é negado que Cristo seja Deus Encarnado; e não posso ser católico e protestante, porque o protestantismo nasce como negação do que é essencial na Igreja Católica e ofende a Sagrada Eucaristia, o que significa ofender Cristo, pois a Eucaristia é Cristo, em seu corpo e sangue, alma e divindade.      

O sentir-se bem da verdadeira religião passa necessariamente pela verdade e pela virtude, pela sabedoria e pelo amor, e será experimentado em plenitude no Reino dos Céus, a vida eterna prometida pela Misericórdia Divina onipotente.