Compreensão das Escrituras: amar na verdade e jamais crer contra a razão

Para aquele que crê, o Espírito da Verdade nos ensina por meio da Sagrada Escritura, que contém palavras divinas transmitas aos homens em linguagem humana. Por esta razão, ela não deve ser pervertida em seus verdadeiros significados e sim ser corretamente compreendida. Assim, ao ler algo das Escrituras devemos considerar a seguinte questão: que verdades estão aqui contidas?

A Bíblia nasce na vida da Igreja, que para alguns escritos disse sim e para outros disse não. Quem desconfia da Igreja deveria desconfiar das Escrituras escolhidas. Assim, diz Santo Agostinho: “Eu não acreditaria no Evangelho se não me movesse a isso a autoridade da Igreja Católica”.  

Um método de apreensão de significados das Sagradas Escrituras tem de ser catolicamente aceitável, do contrário é um falso método, com o qual nada se compreende e sim tudo se perverte. Quanto mais importante algo é, mais grave é a sua perversão. Se nas Escrituras há palavras divinas, palavras de vida eterna, pervertê-las tem elevada importância negativa.

Alguns propõem “métodos críticos” na consideração das Escrituras. Humanamente, todo método apropriado tem seu valor e seus limites. A importância crítica de um método está antes de tudo em duas coisas: fazer prevalecer a verdade e escapar da falsidade, ampliar a verdadeira consciência e evitar o engano.  Porém, em um método nominalmente crítico, a parte de “palavra divina” pode ser negada ou subestimada, se não explicitamente ao menos como consequência. Um exemplo: ao considerar “sociologicamente” algo descrito na Escritura, falam de “mentalidade da época”, e ao falar disto negam algum milagre sempre acreditado pelos cristãos. Neste caso, os pães multiplicados por Cristo na realidade seria um símbolo da partilha que ele queria ensinar, e não pães milagrosamente multiplicados. Nisto negam que pães possam ser multiplicados de modo extraordinário, que Deus possa fazê-lo e que Cristo seja Deus, no qual habita a plenitude da Onipotência, ele mesmo que disse ser Um com o Pai.  

No exemplo, há sociologia e há o “sociologismo”. A sociologia, com seus limites e valor, contêm suas verdades e é uma consideração possível. Porém, o sociologismo, um dos ídolos modernos, que reduz tudo ao social e conforme for a versão tudo relativiza ou politiza, é um engano que engana, uma perversão que perverte.

Opor-se a estas perversões não significa oposição à verdade nem à razão humana, pois é parte importante da sabedoria católica, sabedoria da verdadeira religião, “amar na verdade” e “jamais crer contra a razão”, potências que o próprio Deus concedeu ao homem desde os tempos de Adão e Eva.

Verdades do Evangelho Eterno: Qual é o bem superior, o que vale mais?

Como importante verdade do Evangelho Eterno, o Deus-homem ensina: “O Reino dos Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo. O Reino dos Céus também é como um comprador que procura pérolas preciosas. Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola”. Cristo fala por meio de comparações como modo de compreendermos as questões espirituais. Neste e em outros casos, vale aquilo que certa vez ele disse: “compreendei, pois, o que isto significa”. Compra e venda significa troca, significa passar a possuir e deixar de possuir, significa pegar e desapegar. Quem vende quer ganhar, quem compra quer ganhar, e ambos preferem o superior ao inferior, preferem o mais ao menos. O homem vende todos os seus bens porque reconhece que todos eles somados não valem o Reino dos Céus, um Reino eterno. Isto quer dizer que o Reino dos Céus possui valor supremo, pois é antes de tudo a posse do próprio Deus, o Bem inesgotável que é a fonte de todos os bens. Nesta decisão de compra e venda, com razão o homem preferiu trocar as criaturas finitas pela Divindade infinita, os bens temporais pelo Bem Eterno. Assim, o que deixou de possuir em seu desapego, significado da venda, é nada perante o que passou a possuir, significado da compra, pois como diz o Salmo 148: “A majestade e o esplendor de sua glória ultrapassam em grandeza o céu e a terra!”

É parte da Sabedoria católica, sabedoria da verdadeira religião: assim como Cristo e Maria Santíssima, vencemos o inferno e conquistamos o Céu com as virtudes cristãs, que antes de tudo significa conformidade com a vontade de Deus, e estão exemplificadas nos mistérios do Santo Rosário. Quando medito os mencionados mistérios, reconheço que o caminho do verdadeiro cristianismo é em parte essencial o caminho das virtudes. Por exemplo, nos mistérios gozosos, há pelo menos cinco valores-virtudes importantes: no 1º a humildade, no 2º a caridade fraterna, no 3º a simplicidade, no 4º a pureza e no 5º a sabedoria. Quanto aos mistérios dolorosos, da paixão de Cristo, posso ver que Ele “vitoriosamente superou o Inferno por meio de seu paciente sofrimento e abriu o céu com o sangue do seu coração”.

Diz o Salmo 10 que “os homens retos contemplarão a sua face”. O home reto é o homem virtuoso. Isto quer dizer que exercer a virtude de modo perseverante traz consigo a promessa de ver a face de Deus, a promessa de ter a consciência totalmente absorvida pela felicidade eterna, algo concedido pelo próprio Deus em sua Misericórdia e Justiça. Assim, diz a Sabedoria: como verdadeiro cavaleiro em combate, mantenha a humildade, mantenha a confiança, mantenha a paciência, mantenha a pureza, mantenha as virtudes, permanece em minha vontade, pois eu te retribuirei pelo seu amor com o descanso eterno e o prazer santo que jamais acabará.

No tempo e na eternidade: Cristo Rei e a Mãe Rainha

No tempo, Davi é anterior a Cristo, porém na eternidade Cristo é anterior a Davi, no mesmo sentido em que o Deus-homem disse que “antes que Abraão existisse, eu sou”. Davi, no tempo, é como que um eco da eternidade que anuncia a Cristo-Rei, neste sentido o verdadeiro Davi. Na Mente Divina, que tudo decide desde a eternidade, o Trono de Davi sempre pertenceu a Cristo.

Como no caso de Davi, podemos considerar que pelo menos alguns personagens importantes da antiga aliança são antecipações de Cristo. Assim, para mencionar alguns exemplos, Ele é também o novo e verdadeiro Adão, o novo e verdadeiro Moisés, o novo e verdadeiro Salomão. O mesmo vale para Maria Santíssima, que é, por exemplo, a nova Eva, a nova Sara, a nova Ester e a nova Rainha Mãe que reina junto com o verdadeiro Salomão.   

Sem mãe não há filho e sem filho não há mãe. A mãe sempre será mãe de seu filho, como aquela que o gerou, e o filho será sempre filho de sua mãe, como nascido daquela mulher. Quem não ama a Mãe de Cristo não ama a Cristo, não é reconhecido por ele como verdadeiro discípulo, pois o Divino Jesus ensinou que “nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus… E, no entanto, eu lhes direi: Nunca vos conheci. Retirai-vos de mim, operários maus!”. Em sua vontade, o Rei que ensina honrar pai e mãe espera que sua Mãe Rainha seja estimada como foi estimada pelo Arcanjo Gabriel em sua anunciação, como a “cheia de graça”, e por Santa Isabel, com o Espirito da Verdade, como “Mãe do Senhor” e “Bendita entre as mulheres”. Pela união dos Corações, pelo amor mútuo, ofender o filho é ofender a mãe, não aceitar a mãe é não aceitar o filho, e vice-versa.

Cristo-Deus e Maria Santíssima são inseparáveis, possuem uma relação eterna, um vínculo perpétuo. Se, como diz o profeta Isaias, o Trono de Davi não terá fim, então a Rainha Mãe, da linhagem de Davi, reinará sempre com o Filho Rei, sobre toda a criação, sobre todo o universo. Tem um trono como Filha de Rei, de Deus Pai onipotente, como mãe de Rei, de Deus Filho Sabedoria eterna e encarnada, e como esposa de Rei, de Deus Espírito Santo, o divino Amor que une o Pai e o Filho, a Trindade Santíssima que é Um só Deus desde toda a eternidade.   

A elevadíssima paciência da Misericórdia Divina e os castigos da Justiça divina

Se a Sagrada Escritura, quando corretamente compreendida, é fonte de conhecimento sobre a realidade divina, então há sim castigos de Deus, que não se opõem à sua Bondade, pois correspondem à sua Justiça. Diz o Salmo 5 que o mal não poderia morar junto de Deus, o que equivale a dizer que Deus, Verdade Eterna e Bondade Vivente, não pode conviver com a falsidade nem com a maldade.

O que é mau não pode ser justo e o que é justo não pode ser mau. A verdadeira justiça exclui qualquer maldade e convive harmoniosamente com a Misericórdia. Para com a criatura humana Deus é antes de tudo misericordioso, pois foi sua Misericórdia que a criou para a felicidade eterna, que a mantém na existência e que a salva e diviniza. Assim, deveríamos dizer: “Bendita seja a Misericórdia Divina, a Bondade do Criador. Senhor, somos pobres criaturas, mostre-nos a tua face e nos conceda ser feliz convosco por toda a eternidade, na plenitude do Céu”.

Há castigos divinos porque a Justiça divina pede satisfação. Isto é como que parte da Sabedoria de Deus e não desmente o amor que o Deus Uno e Trino tem pelos homens, pois em Cristo Ele concede aos homens os meios de pagar as dívidas contraídas nos pecados, como é o caso do sacramento da confissão, Tribunal da Misericórdia. Deus jamais deixa de ser misericordioso assim como jamais deixa de ser Justo, pois é imutável, que dizer, na plenitude de suas perfeições, que não podem ser aumentadas nem diminuídas, permanece sempre o mesmo.

Há poderosos de nosso tempo que, no sentido do que diz o Salmo 5, vivem no amor das vaidades, são homens de maquinações, com o coração dominado por projetos maliciosos, com frutos de destruição para a sociedade. Pensam que são como Deus, não respeitam minimamente o Criador. Se não fosse a divina paciência, prova de amor, que não deseja a morte do pecador e sim sua conversão e vida, já teriam sido golpeados pelo braço onipotente do Altíssimo, como na história do Dilúvio, nos tempos de Noé, e na história de Sodoma e Gomorra, nos tempos de Abraão.

Para os nossos tempos, há os avisos de proféticos de Nossa Senhora, em suas aparições. Na aparição de La Salette (1846), aprovada pela Igreja, entre outras coisas a Virgem Santíssima diz: “Deus vai golpear de modo inaudito. Ai dos habitantes da Terra. Deus vai esgotar sua cólera, e ninguém poderá fugir a tantos males acumulados.” “Não se verá outra coisa senão homicídios, ódio, inveja, mentira e discórdia, sem amor pela pátria e sem amor pela família.” “Os governantes civis terão todos um mesmo objetivo, que consistirá em abolir e fazer desaparecer todo princípio religioso para dar lugar ao materialismo, ao ateísmo, ao espiritismo e a toda espécie de vícios. “A Terra será atingida por toda espécie de flagelos (além da peste e da fome, que serão gerais).”

De quem é o poder? É sempre de Deus, o Onipotente

Ausência de ser significa ausência de poder, pois para poder é necessário ser. O puro nada, enquanto ausência total de qualquer modo de ser, nada pode, é pura impossibilidade. Como é inegável que algum ser há, isto significa a presença da eternidade, de algo eterno, porque não poderia ter surgido do nada, já que inegavelmente do nada absoluto não é possível surgir alguma coisa. Um ser eterno significa um puro nada eterno, pois o nada total não pode ser o anterior nem posterior a algo, dado que isto significaria a possibilidade de ser, o que contradiz o vazio de possibilidades do nada absoluto. Por esta e por outras, devemos reconhecer que há eternidade, que há ser eterno, presente desde sempre e para sempre, sem começo nem fim.

Parte importante da sabedoria filosófica é a sabedoria da eternidade, do essencialmente necessário, da impossibilidade e da possibilidade, que é simultaneamente sabedoria das razões. Por exemplo. Alguns negam a onipotência com a seguinte questão: Deus pode criar uma pedra que não consegue carregar? Se sim e se não, não seria onipotente. Porém, essa pedra é um puro nada, tão impossível quanto o nada absoluto, tão sem sentido quanto um quadrado-redondo. Considerar isto como razão para negar a existência de um Deus onipotente significa confusão sobre a Onipotência divina.

A sabedoria religiosa da verdadeira religião, do Cristo Sabedoria encarnada, ensina que o poder é sempre de Deus. Nada pode contra a Onipotência divina, perante ela toda criatura é por si mesma pura impotência. Toda luta contra Deus significa inevitável fracasso, pois Ele é o verdadeiro invencível. Os poderosos da terra só têm poder por concessão divina, do mesmo modo que a todo instante recebem dela existência. Deus pode conceder uma nação ou todas as nações a quem Ele quiser e não há poderoso no universo que possa impedi-lo. . Deus pode trazer subitamente a ruina de um reino mau, basta uma palavra, um decreto. Como é dito na Sagrada Escritura: “Derrubou do trono os poderosos”.. Deus pode trazer subitamente a ruina de um reino mau, basta uma palavra, um decreto. Como é dito na Sagrada Escritura: “Derrubou do trono os poderosos”.. Deus pode trazer subitamente a ruina de um reino mau, basta uma palavra, um decreto. Como é di

Deus é Misericórdia vivente e qualquer mal relativo é nada perante o Bem absoluto

Deus é Misericórdia vivente, pura Bondade, possui riqueza inesgotável e generosidade sem limites. Assim, é próprio de Deus distribuir os seus bens, enriquecer o que é pobre.

Tudo o que Deus faz é em razão de sua Bondade, não faz nada sem ela ou contra ela. Se é assim, então é em razão de sua bondade que Ele permite o mal. Por bondade permite que uns exerçam sua liberdade na maldade e por bondade permite que os justos sofram. Por bondade paga o salário dos pecadores que preferiram o pecado em vez da Misericórdia e por bondade paga generosamente o salário do virtuoso sofredor.

Nenhum sofrimento humano, por terrível que seja, é comparável aos sofrimentos de Cristo, o Deus-homem. Cristo sofreu o sofrimento de todos os homens e sofre com todos os homens. Em Cristo Deus mostra que ama o homem com máxima generosidade, pois se doa totalmente, com máxima pureza, pois não tem a nada a receber já que não precisa de nada, e com elevadíssima Misericórdia, pois fez isto quando o homem era seu inimigo, alguém que o desprezou.

Qualquer mal relativo é nada perante o Bem absoluto. Neste sentido, um dos significados das bem-aventuranças ensinadas pelo Divino Jesus é: aceite sofrer temporariamente alguns males relativos, em imitação a mim, e garanto que alcançará o Bem absoluto por toda a eternidade, delícias sem fim. Assim, Ele diz: “Se o teu olho direito é para ti ocasião de pecado, arranca-o e joga-o para longe de ti! De fato, é melhor perder um de teus membros do que todo o teu corpo ser jogado no inferno. Se a tua mão direita é para ti ocasião de pecado, corta-a e joga-a para longe de ti! De fato, é melhor perder um dos teus membros do que todo o teu corpo ir para o inferno”.  Quer dizer: com razão é preferível perder uma mão, bem relativo, que será perdida de qualquer jeito na morte, do que viver eternamente com o vazio do Bem Supremo, a fonte verdadeira da felicidade.    

“Convertei-vos e crede no Evangelho”, “fazei penitência porque está próximo o Reino dos Céus”.

O caminho da virtude com frutos saborosos e o caminho do pecado com frutos pestilentos

A sabedoria do Salmo 1 nos instrui que assim como há oposição entre bondade e maldade, há oposição entre o caminho do justo e o caminho do pecador, com frutos saborosos para o primeiro e frutos pestilentos para o segundo. O caminho da virtude é um caminho que traz a desejada felicidade, garantida pela Bondade Onipotente, enquanto o caminho do pecador que não se converte é o caminho da infelicidade, que leva à perdição eterna.

Infeliz é aquele que segue os conselhos dos ímpios: É um conselho ímpio, de falsa inteligência, aquele que diz “faça qualquer coisa que te faz feliz”, como se qualquer caminho levasse à felicidade, o que é falso, pois, como ensina o mesmo Salmo, feliz é aquele que não trilha culposamente o caminho do pecado. Neste conselho pernicioso a felicidade é confundida com o que ela não é, por exemplo como mera satisfação da carne enlouquecida, passageira “como palha que o vento leva”.

Os frutos de quem realmente trilha o verdadeiro caminho da virtude vem a seu tempo, sempre com abundância, pois Aquele que os concede possui riqueza inesgotável e generosidade sem limites. Assim, diz o salmo 1 que “feliz aquele que se compraz no serviço do Senhor e medita sua lei dia e noite. Ele é como a árvore plantada na margem das águas correntes: dá fruto na época própria, sua folhagem não murchará jamais. Tudo o que empreende, prospera”.

A questão da felicidade é tão decisiva para o homem que os enganos importantes sobre ela significam infelicidade no tempo e na eternidade, nesta vida e na vida pós-morte de sua alma imortal. Por isto, uma pergunta sempre crucial é: “O que o homem deve fazer para ser feliz”? O Salmo 1 ensina: trilhe o caminho da virtude, que antes de tudo é o caminho da verdade, é caminhar na verdade, e pode ser trilhado por pobres e ricos, homens e mulheres, saudáveis e doentes, e assim por diante.

Há uma relação entre verdade e felicidade, pois o homem foi criado pela Verdade eterna para a Verdade, pela Sabedoria Onipotente para a Sabedoria, como instrui Santo Agostinho. A este respeito vale o ensinamento de Cristo, que diz “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”. Como a verdade da fé e os milagres eucarísticos enquanto motivo de credibilidade dizem que Cristo está realmente presente no Divino Sacramento, então faz sentido dizer que a Sagrada Eucaristia “é o caminho, a verdade e a vida”. Assim, quanto ao Pão consagrado o Deus-homem diz “isto é o meu Corpo”, quanto ao vinho consagrado diz “isto é o meu Sangue”, e diz “quem se alimenta com a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia”.

Um dos significados do primeiro mandamento é: “Em tudo sempre amar toda a verdade”

Como palavra de vida eterna, o primeiro mandamento divino ensina amar a Deus sobre todas as coisas, instrui amar em todas as coisas o que merece ser amado antes de todas as coisas, pois é o Ser mais amável de todos, o único totalmente bom eternamente, o Supremo Bem. “A felicidade da vida é a posse da verdade, ou seja, a posse de Ti que és a Verdade”, ensina Santo Agostinho.

Um dos significados do primeiro mandamento é: “Em tudo sempre amar toda a verdade”, pois Deus é a Verdade Eterna criadora de todas as coisas. Em comunhão com Cristo, em conformidade com a Vontade divina, quem estima a verdade como valor supremo deseja que em tudo ela prevaleça, o que vale para a religião. A verdadeira religião ensinada pela Verdade Eterna é uma religião de verdades eternas na qual a verdade possui máxima importância. Assim diz o Salmo 118: “a tua palavra, Senhor, permanece para sempre, e a tua verdade, pelos séculos dos séculos”.  

Tão importante quanto conhecer a verdade é permanecer na verdade conhecida, manter-se fiel a ela. O sábio é aquele que sabe o que passa e sabe o que permanece e, com razão, mantém suas sábias convicções, pois diz Eclesiástico 27 que “o homem virtuoso permanece na sabedoria, estável como o sol, mas o insensato é inconstante como a lua”.

A devida estima pela verdade é tão importante que vale a salvação eterna em oposição ao inferno sem fim. Em Tessalonicenses, ao advertir sobre os enganos do império do Anticristo, São Paulo fala daqueles “que se perdem, por não terem cultivado o amor à verdade que os teria podido salvar. Por isso, Deus lhes permitirá um poder que os enganará e os induzirá a acreditar no erro. Desse modo, serão julgados e condenados todos os que não deram crédito à verdade, mas consentiram no mal”.

Santo Agostinho diz: “Porque a verdade gera o ódio? Por que é que os homens têm como inimigo aquele que prega a verdade, se amam a vida feliz, que não é mais que a alegria vinda da verdade? Talvez por amarem de tal modo a verdade que todos os que amam outra coisa querem que o que amam sejam verdade. Como não querem ser enganados, não se querem convencer de que estão no erro. Assim, odeiam a verdade, por causa daquilo que amam em vez da verdade. Amam-na quando os ilumina, e odeiam-na quando os repreende.”

Maria, a Imaculada, é refúgio dos pecadores e o Santo Terço é arma contra os demônios

“Quando São Domingos estava pregando o Rosário perto de Carcassona, trouxeram à sua presença um albigense possesso pelo demônio. São Domingos o exorcizou na presença de uma grande multidão de pessoas; parece que mais de doze mil pessoas tinham vindo ouvi-lo pregar. Os demônios que possuíam este infeliz foram obrigados a responder às perguntas de São Domingos, com muito constrangimento.

Primeiro eles disseram que havia quinze mil deles no corpo deste pobre homem, porque ele atacou os quinze mistérios do Rosário. Continuaram a testemunhar que, quando São Domingos pregava o Rosário, ele impunha medo e horror nas profundezas do inferno; e que ele era o homem que eles mais odiavam em todo o mundo, por causa das almas que arrancou dos demônios através da devoção ao Santo Rosário. Eles depois revelaram várias outras coisas.

São Domingos colocou seu Rosário em volta do pescoço do albigense e pediu que os demônios lhe dissessem quem, de todos os santos nos céus, eles mais temiam, e quem deveria ser, portanto, mais amado e reverenciado pelos homens. Neste momento, eles soltaram um gemido inexprimível, com o qual a maioria das pessoas caiu por terra, desmaiando de medo.

Então, usando de esperteza, a fim de não responder, os demônios começaram a chorar e prantear de uma maneira tão deprimente que muitos da multidão começaram a chorar também, movidos por compaixão natural. Os demônios falaram através da boca do albigense, com uma voz dolorida:

— Domingos! Domingos! Tem piedade de nós, nós prometemos que nunca te machucaremos. Tu sempre tiveste compaixão dos pecadores e daqueles que estão na miséria; tem piedade de nós, pois estamos padecendo. Já estamos sofrendo tanto, por que te comprazes em aumentar as nossas penas? Não te dás por satisfeito com o nosso sofrimento? Tens de aumentá-lo? Tem piedade de nós! Tem piedade de nós!

São Domingos não se mostrou nem um pouco movido de compaixão por estes espíritos, e disse-lhes que não os deixaria a sós até que respondessem à pergunta que lhes havia feito. Eles disseram, então, que lhe sussurrariam a resposta de tal forma que apenas São Domingos seria capaz de ouvi-los. Ele retorquiu que eles deveriam responder claramente e em alta voz.

Então os demônios se mantiveram quietos e se negaram a dizer uma só palavra, desconsiderando completamente as ordens de São Domingos. Este, então, ajoelhou-se e rezou a Nossa Senhora:

— Ó, toda poderosa e maravilhosa Virgem Maria, eu vos imploro: pelo poder do Santíssimo Rosário, ordene a estes inimigos da raça humana que me respondam.

Mal acabara de orar, uma chama ardente foi vista saindo dos ouvidos, das narinas e da boca do albigense. Todos tremeram de medo, mas o fogo não machucou ninguém. Então os demônios disseram:

— Domingos, nós te imploramos, pela paixão de Jesus Cristo e pelos méritos de sua santa Mãe e de todos os santos, deixa-nos sair deste corpo sem que falemos mais, pois os anjos responderão a tua pergunta a qualquer momento. E, além do mais, não somos nós mentirosos? Por que haveríeis de nos dar crédito? Não nos tortures mais, tem piedade de nós.

— Pior para vocês, espíritos desgraçados e indignos de serem ouvidos — respondeu o santo servo de Deus aos demônios.

Ajoelhando-se diante de Nossa Senhora, então, São Domingos assim rezou:

— Ó, digníssima Mãe da Sabedoria, oro pelas pessoas aqui reunidas, que já haviam aprendido como rezar devotamente a Saudação Angélica (i.e., a Ave-Maria). Por favor, eu vos imploro, forçai vossos inimigos a proclamar a verdade completa e nada mais que a verdade sobre isto, aqui e agora, diante desta multidão.

São Domingos mal havia concluído esta oração quando viu a Santíssima Virgem perto de si, rodeada por uma multidão de anjos. Ela bateu no homem possesso com um cajado de ouro que segurava e disse:

— Responde ao meu servo Domingos imediatamente. (Lembre-se o leitor que as pessoas não viram nem ouviram Nossa Senhora, mas somente São Domingos.)

Então os demônios começaram a gritar:

Ó, vós, que sois nossa inimiga, nossa ruína e nossa destruição, por que descestes do Céu para nos torturar tão cruelmente? Ó, advogada dos pecadores, vós que os tirais das presas do inferno, vós que sois o caminho certeiro para os céus, devemos nós, para nosso próprio pesar, dizer toda a verdade e confessar diante de todos quem é a causa de nossa vergonha e de nossa ruína? Ó, pobre de nós, príncipes da escuridão!

Ouvi bem, pois, vós, cristãos: a Mãe de Jesus Cristo é todo-poderosa junto de Deus e capaz de salvar seus servos do inferno. Ela é o sol que destrói a escuridão de nossa astúcia e sutileza. É ela que descobre nossos planos ocultos, quebra nossas armadilhas e torna nossas tentações inúteis e sem efeito.

Mesmo relutando, confessamos que nem sequer uma alma que realmente perseverou no seu serviço foi condenada conosco; um simples suspiro que ela oferece à Santíssima Trindade é mais precioso que todas as orações, desejos e aspirações de todos os santos.

Nós a tememos mais que todos os santos nos céus juntos e não temos nenhum sucesso com seus servos fiéis. Muitos cristãos que a invocam na hora da morte e que seriam condenados, de acordo com nossos padrões ordinários, são salvos por sua intercessão.

Ó, se pelo menos essa Maria (era assim que eles a chamavam na sua fúria) não tivesse se oposto aos nossos desígnios e esforços, teríamos conquistado a Igreja e a teríamos destruído há muito tempo atrás; teríamos feito todas as Ordens da Igreja caírem no erro e na desordem.

Agora, que somos obrigados a falar, também vos diremos isto: ninguém que persevera na oração do Rosário será condenado, porque a Mãe de Jesus Cristo obtém para seus servos a graça da verdadeira contrição de seus pecados e, por meio desse instrumento, eles obtêm o perdão e a misericórdia de Deus.

São Domingos fez, então, com que todos rezassem o Rosário bem devagar e com grande devoção. Enquanto isso, algo maravilhoso acontecia: a cada Ave-Maria que ele e o povo rezavam, um grande número de demônios saía do corpo do infeliz, em forma de brasas acesas.

Quando os demônios foram todos expulsos e o herege se viu inteiramente livre deles, Nossa Senhora (que permanecia invisível) deu sua bênção ao povo reunido, e eles se encheram de alegria por isso.

Muitos hereges se converteram por causa deste milagre e ingressaram na Confraria do Santíssimo Rosário.” (São Luís Maria Grignion de Montfort, em seu livro “O Segredo Admirável do Santíssimo Rosário”)

São Domingos de Gusmão, extirpador de heresias, por amor à Verdade Eterna

Pelos males que surgem a partir dela, como os frutos de uma árvore má de que fala o Divino Jesus, a revolta protestante é como que uma das “caixas de pandora” na história humana. Significou uma mutilação no Corpo Místico de Cristo, pela multiplicação ilegítima de “denominações” que recebem o nome cristão, com novos “fundadores” e “mestres” de todo tipo, com inúmeras confusões e contradições entre si, contrário ao que é próprio da Verdade encarnada e suas palavras de vida eterna. Ela contribui assim para o destronamento social da verdadeira religião, da verdade e da sabedoria. Tudo isto, com as falsidades e maldades aí contidas, atinge negativamente os verdadeiros caminhos ensinados por Cristo para o bem eterno das almas, pois diz Santo Agostinho que é importante para a salvação humana que “estejam concordes: a filosofia – isto é, a procura da sabedoria, e a religião”.

Hoje é dia São Domingos de Gusmão. Como está escrito no livro Diálogos, sobre ele disse Deus Pai à Santa Catarina de Sena: “Se consideras a ordem de teu pai Domingos, meu filho querido, verás que foi com perfeição que a fundou. Era desejo seu que os religiosos se ocupassem unicamente com minha glória e a salvação dos homens mediante a luz da ciência. Foi neste ponto que ele fixou sua escolha, sem desprezar a pobreza autêntica e voluntária (…) mas o elemento próprio de sua ordem era a luz da ciência, para como ela extirpar os erros surgidos naqueles tempos. Domingos assumiu a função de Jesus, Verbo encarnado: surgiu no mundo como apóstolo, semeou a Palavra com veracidade e clareza, afastou as trevas, espargiu a luz; foi um luzeiro por mim colocado no mundo, através de Maria, e inserido na hierarquia da Igreja como extirpador de heresias. (…) Onde alimentou Domingos os seus religiosos com a luz da ciência? Na mesa da cruz! É na cruz que se encontra o desejo santo, graças ao qual a pessoa sente sede de almas para minha glória. A intenção de Domingos era que seus filhos se preocupassem unicamente com isso mediante a luz da ciência. (…)

Quis que seus filhos praticassem a obediência; que fossem obedientes na realização dos seus encargos. Dado que a vida impura prejudica a visão intelectual e corporal, Domingos desejou que nenhuma imoralidade ofuscasse a luz da razão em seus filhos. Esperava que elas alcançassem a luz da ciência em profundidade; por isso estabeleceu o terceiro voto, de castidade, pedindo que observassem perfeitamente. Hoje, infelizmente, é tão mal praticado! Também a luz da ciência, como muitos a pervertem mediante a trevas do orgulho! Em si mesma, a luz da ciência não tolera as trevas, mas pode obscurecer a alma. Onde há soberba, não existe obediência. Como afirmei, o homem é tanto humilde quanto é obediente, e tanto obediente quanto humilde. (…)

Domingos assemelhava-se a meu Filho: não queria a morte do pecador, mas sua conversão e vida (Ez 33, 11). (…) Em verdade, Domingos e Francisco foram duas colunas da santa Igreja; Francisco pela pobreza, Domingos pela ciência”.