A mensagem dos dois grandes Profetas: quem morre em pecado mortal não pode merecer a vida eterna, não terá o convívio eterno com a Trindade Santíssima

No livro de Jó, em um dos discursos de Deus, é dito: “Quem é esse que obscurece assim a Providência com discursos sem inteligência?” Nas épocas de crise, de obscuridade para grande parte das consciências, predominam discursos sem inteligência que obscurecem realidades importantes. Em épocas que predominam perversões da ciência, perversões da filosofia e perversões da verdadeira religião, a realidade de Deus, em grau importante, é obscurecida, e assim, por exemplo, é perdida a consciência de que “nada se criou nem se pode criar sem Deus”, que Deus existe eternamente como Ser imutável e que “do ventre de sua divindade” nascem todas as almas dotadas de razão, todas as mentes inteligentes.

O profeta Isaías diz que “antes de eu nascer, desde o ventre de minha mãe, Deus tinha na mente o meu nome” e com gratidão ao mesmo Deus o profeta Davi, no Salmo 138, diz que “de modo admirável me formastes!”. À Santa Brígida, Cristo disse: “Tudo o que existe, existiu e existirá é previsto por mim. Nem mesmo um pequeno verme ou o menor dos grãos pode existir ou continuar a existência sem mim. Nem a menor coisa escapa da minha presciência, por que tudo vem de mim e é previsto por mim.” Isto quer dizer que para as criaturas contingentes “perdurar no ser significa receber a existência a cada instante”, por vontade amorosa do Criador. É por participação na presciência divina que os verdadeiros profetas profetizam, anunciando acontecimentos futuros. Assim, Deus concedeu a Zacarias, pai de São João Batista, um conhecimento profético sobre seu filho: “E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, pois irás à frente do Senhor para preparar os caminhos dele, e para dar a seu povo o conhecimento da salvação, mediante o perdão dos pecados”.

São João Batista é o maior dos profetas abaixo de Cristo, que é antes de tudo o verdadeiro profeta. Assim, de certo modo todo verdadeiro profeta é subordinado ao Cristo e participante de seu Espírito profético. O precursor, com sua vida exemplar e suas palavras cheias de fogo, prepara as consciências para o Cristo, Sabedoria encarnada, e ambos, ao seu modo, mostram à mente o que ela deve escolher e o que ela deve evitar se deseja ser realmente feliz e evitar infelicidade eterna. Ela deve escolher a verdade e evitar a falsidade, deve escolher a virtude e evitar o vício, deve escolher a vontade divina cheia de bondosa sabedoria e evitar a própria vontade insensata cheia de egoísmo, deve preferir a glória eterna que perdura para sempre à gloria mundana que se desfaz totalmente na morte. 

Pode-se dizer que é mensagem dos dois profetas: enquanto é tempo, convertei-vos, confessem seus pecados, fazei penitência, pois quem morre em pecado mortal não pode merecer a vida eterna, o reino dos céus, o convívio eterno com o Cordeiro de Deus, com a Trindade Santíssima.  

São Thomas More e São João Batista: a obras de Deus “são verdade e são justiça”

Hoje é dia de São Tomas Morus, mártir inglês do século XVI, morto decapitado por se opor à vontade do rei inglês Henrique VIII, o pai humano da “Igreja Anglicana”. Na época, o rei queria que a Igreja de Cristo aprovasse religiosamente sua união com outra mulher que não era sua então esposa. O Papa, porém, permanecendo na verdade católica da indissolubilidade de um matrimônio válido, negou tal aprovação. Contrariado, Henrique decidiu se tornar o chefe da Igreja na Inglaterra, uma espécie de “novo papa”.  Para clérigos e leigos ingleses isto significou ter que escolher entre a Igreja do legítimo sucessor de Pedro ou a nova “igreja” do rei, sob pena de pagar com a própria vida, nesta ou na outra.

São Thomas More, que até então era amigo e chanceler do rei, decidiu pela verdadeira igreja de Cristo e, como São João Ficher, morreu pela verdadeira fé. A história dele lembra em parte a história de São João Batista, morto decapitado, e que falava publicamente do adultério do rei Herodes. Ontem e hoje, governantes adúlteros que não respeitam leis de Deus, homens virtuosos na defesa da lei de Deus quanto ao matrimônio, martírio por fidelidade à verdade contra o poder temporal do chefe político, verdadeira religião contra falsa religião, vontade humana contra a vontade de Deus.    

Se é assim, a autodenominada “Igreja anglicana” nasce da decisão de um homem movido por desejos do egoísmo, e enquanto tal é no máximo algo permitido por Deus, mas não visto por Ele como algo “muito bom”, como é dito das obras da criação, e como é dito no Salmo 110, “suas obras são verdade e são justiça, seus preceitos, todos eles, são estáveis, confirmados para sempre e pelos séculos, realizados na verdade e retidão.”

Os clérigos que ficaram com o rei, como Judas, foram pelo caminho da infidelidade à verdadeira Igreja de Cristo. Consequentemente, a dita igreja anglicana é falsa em partes importantes, e ela, por ser o que é diante da Mente divina onipotente, não tem a garantia dada por Cristo de permanecer até o fim do mundo, e portanto seu destino é perecer ao longo da história. Isto também vale para todas as falsas religiões e para as denominações ditas cristãs herdeiras do protestantismo. Pelos frutos conhecereis.

O verdadeiro matrimônio em Cristo, Sabedoria encanarda

No Evangelho é dito que muitos discípulos, ao ouvirem o Divino Cristo, disseram: “Estas palavras são duras. Quem pode escutá-las?”, e que certa vez ele disse que “nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus.” Isto quer dizer que o verdadeiro cristianismo é exigente e que alguém que se considera cristão pode estar enganado e ser um “cristão” contra Cristo. Sem puritanismo, exemplo disso são as palavras que o Redentor disse à Santa Brígida sobre o matrimonio de alguns.  

“Mas as pessoas nestes tempos se unem em matrimônio por sete razões. Primeiro, pela beleza facial; segundo, pela riqueza; terceiro, pelo prazer grosseiro e gozo indecente que conseguem no desejo sexual impuro; quarto, pelas festas com amigos e glutonaria descontrolada; quinto, por causa da vaidade no vestir e comer, na brincadeira, entretenimento e jogos e em outras futilidades; sexto, pelo bem procriar filhos, mas não criá-los para a honra de Deus ou boas obras, e sim para bens materiais e honra; sétimo, se unem pela luxúria e eles são como bestas grosseiras em seus desejos luxuriosos.

Eles vêm às portas da minha Igreja em comum acordo e consentimento, mas seus desejos e pensamentos são completamente contra mim. Eles preferem sua própria vontade, que visa agradar o mundo, ao invés da minha vontade. Se todos os seus pensamentos e vontades fossem dirigidos a mim, e eles colocassem sua vontade em minhas mãos e se casassem em meu temor, então eu lhes daria o meu consentimento e seria como o terceiro com eles. Mas agora meu consentimento, que seria a coisa mais preciosa para eles, não lhes foi dado, porque têm mais luxúria em seu coração do que amor por mim. Desde então, eles sobem ao meu altar onde ouvem que devem ser um só coração e alma, mas meu coração se aparta deles porque não possuem o calor de meu coração e não conhecem o sabor de meu corpo.

Eles buscam o calor e prazer sexual que perecem e amam a carne que será comida pelos vermes. Assim, estas pessoas se unem em matrimônio sem o laço e união de Deus Pai, sem o amor do Filho e sem o consolo do Espírito Santo. Quando este casal vai para a cama, meu Espírito o abandona imediatamente e o espírito de impureza se aproxima em seu lugar porque eles se unem somente pelo prazer e não conversam entre si. Mas, minha misericórdia ainda estará com eles desde que se convertam a mim.”

Às vezes, permito que os maus pais tenham bons filhos, mas é mais frequente que nasçam maus filhos de maus pais, pois estes filhos imitam as más ações e injustiças de seus pais tanto quanto podem e os imitariam ainda mais se minha paciência permitisse. Um casal assim, nunca verá meu rosto, a menos que se arrependa, porque não há pecado tão pesado ou grave que não possa ser limpo pela penitência e o arrependimento.

Por essa razão, desejo voltar ao matrimônio espiritual, o tipo que é apropriado para Deus ter com uma alma casta e corpo puro. Existem sete coisas boas nele em oposição aos males mencionados acima. Primeiro, não há desejo pela beleza da forma ou beleza corporal ou olhares voluptuosos mas somente olhares e amor de Deus. Segundo, não há desejo de possuir nada mais do que é necessário para sobreviver, e somente as necessidades com nada em excesso. Terceiro, eles evitam as conversas vãs e frívolas. Quarto, eles não se preocupam com ver amigos ou parentes, porque Eu sou o seu amor e desejo. Quinto, eles desejam manter a humildade interiormente em suas consciências e exteriormente no modo como se vestem. Sexto, eles nunca têm nenhuma vontade de conduzir-se pela luxúria. Sétimo, eles geram filhos e filhas para seu Deus, por meio de seu bom comportamento e bom exemplo e mediante o uso de palavras espirituais.”

A Luz verdadeira e exigências do amor

Amar é sempre amar algo, pois amar nada é não amar, é ausência de amor. Assim, o amor exige o ser.  Alguém só pode amar aquilo que conhece, pois amar o que não se conhece é o mesmo que amar nada. Assim, o amor exige a consciência.  Se o amor exige o conhecer, o amável exige o cognoscível (pode ser conhecido) e o amante exige o cognoscente (aquele que conhece), e assim aquilo que não pode ser conhecido não pode ser amado e aquele que não pode conhecer não pode amar. Tudo isto está contido na realidade do amor, e será sempre assim, porque não pode ser de outro modo, é essencialmente necessário.

Posso dizer que uma paisagem é cognoscível mas não cognoscente, é amável mas não amante, enquanto que a pessoa humana é amável e amante, cognoscível e cognoscente, portanto é superior à paisagem, pois pode mais. Em razão da multiplicidade, uma verdade contém outras verdades, porém, como o Ser é uno, a Verdade é una. A multiplicidade não significa negação da unidade do ser, assim como as múltiplas verdades não significam negação da unidade da verdade, e quando há esta negação seu nome é falsidade.

Deixando a parte o Deus verdadeiro, isto mostra que no ser de cada coisa há possibilidade, impossibilidade e necessidade – o que não pode ser de outro modo. No caso, possibilidade significa mutabilidade, quer dizer, pode passar por mudanças, e a impossibilidade com a necessidade significam imutabilidade.

Considerar isto é importante por diversas razões. Por exemplo, diz São Boaventura: “A nossa inteligência compreende realmente uma proposição, quando sabe com certeza que ela é verdadeira. E saber isso é saber verdadeiramente, porque se tem certeza de não se enganar. Com efeito, a inteligência sabe que uma proposição é verdadeira quando não pode ser de outra maneira e que, por consequência, é uma verdade imutável. Mas, como nosso espírito está sujeito à mutação, não poderia ver a verdade de maneira imutável sem o socorro duma luz invariável – a qual não pode ser uma criatura mutável. Se ele conhece a verdade, conhece-a, pois, naquela luz que “ilumina todo homem que vem a este mundo”, a qual é “a verdadeira luz” e “o Verbo que no princípio estava em Deus” (Jo 1,1-9).

O Sagrado Coração e o Imaculado Coração: caminho de vida eterna

Nas verdades da verdadeira religião, Cristo é Deus-homem e possui um Coração humano-divino, pulsante de amor e como que ávido por conceder a cada homem a vida eterna, a vida verdadeira, que é superabundância de felicidade, delícias inesgotáveis, paz duradoura, suavidades sem fim.

Quando nos mistérios do Santo Rosário (ou Terço Mariano) medito partes importantes da história da salvação, reconheço que o caminho do verdadeiro cristianismo é em parte essencial o caminho da Sabedoria, das virtudes e dos afetos superiores. Por exemplo, nos mistérios gozosos há pelo menos cinco valores-virtudes importantes: no 1º a humildade, no 2º a caridade fraterna, no 3º a simplicidade, no 4º a pureza e no 5º a sabedoria. Se são mistérios da alegria, então pode-se dizer que há a alegria da humildade, a alegria da caridade fraterna, a alegria da simplicidade, a alegria da pureza e alegria da sabedoria. Quer dizer, todas essas virtudes, quando exercidas, quando possuídas, são fontes de verdadeira alegria espiritual.

Quanto à sabedoria, diz Salomão, no livro da Sabedoria, que “sua convivência nada tem de desagradável, e sua intimidade nada de fastidioso; ela traz consigo, pelo contrário, o contentamento e a alegria”. Salomão também diz que a Sabedoria é um Espírito puro; e se é puro de certo modo sua presença exige pureza. 

Sobre esta conexão entre sabedoria e pureza, entre verdade e virtude, modelo exemplar é a Santíssima Virgem Maria. Ela é a Imaculada, puríssima, e em sua Ladainha é ensinada como “Sede da Sabedoria”. Enquanto Mãe de Cristo é mãe da Sabedoria encarnada.

Ensina São Luís Maria Grignion de Montfort que o caminho mais curto, mais perfeito e mais seguro para se chegar ao Cristo, Deus-homem, é a verdadeira devoção à sua Mãe, Maria Santíssima. O Imaculado Coração de Maria traz consigo o Sagrado Coração do Filho. Assim, quem possui um, possuirá o outro, e quem possui os dois, possuirá o descanso, o repouso, pois diz Santo Agostinho, quando de coração se dirige a Deus: “Fizeste-nos para Ti e inquieto está nosso coração, enquanto não repousa em Ti”.

Davi contra Golias: a verdadeira religião contra a falsa religão, o reino celeste contra o império infernal

Parte importante da Escritura é o Um e o Múltiplo presente nela. Isto significa que um é o fato, o personagem, a palavra, a afirmação, a situação, porém múltiplos são os seus significados, que não possuem vitalmente a mesma importância, enquanto palavras de vida eterna, que são espírito e vida.

Os sentidos legítimos das Escrituras são os sentidos queridos por Deus, já que elas são frutos de sua Sabedoria. Entres tais sentidos estão os sentidos simbólicos, que anunciam, por exemplo, realidades espirituais, verdades eternas e acontecimentos proféticos contidos na presciência divina. Por exemplo: a pedra e seus significados simbólicos. Na história de Davi e Golias é dito que o filisteu foi ferido na fronte, e assim Davi o venceu, “ferindo-o de morte com uma funda e uma pedra.” No Evangelho, Cristo diz a Pedro, após este reconhecer sua Divindade: “Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus. E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela.”

Um dos significados simbólicos da pedra é: verdades permanentes, indestrutíveis, reveladas pelo Deus verdadeiro, pelo Espírito da Verdade. Em oposição a elas, as portas do inferno e Golias, o gigante da carne, símbolo dos vícios e da ilusão de poder, são como castelos de areia, estão destinados a ruir tão logo venha à água, tão logo venha o vento, tão logo alguma mão lhe empurre. Golias é no seu tempo e nos tempos futuros símbolo do paganismo, das falsas religiões com seus ídolos. Como parte do império infernal, estão destinadas a ruir, pois não estão edificadas na rocha da verdadeira religião, na rocha das palavras do Deus verdadeiro, e, na plenitude dos tempos, na rocha que é o Cristo e sua verdadeira Igreja. Quando o vento impetuoso passar, isto é, o Espírito da verdade e das virtudes, ficará apenas o que é dele, o que é pedra divina, e o que não lhe pertence perecerá.

Cristo é o novo Davi e o novo Salomão, maior que Davi e maior que Salomão, e sua Igreja apostólica é o novo Povo de Deus, da eterna aliança. E diz Salomão que contra a Sabedoria o mal não prevalece.

Cristo, o Deus-homem: para que leve às nações a verdadeira religião

Na Escritura, com Isaías, diz o Deus vivo: “Eis meu Servo que eu amparo, meu eleito ao qual dou toda a minha afeição, faço repousar sobre ele meu espírito, para que leve às nações a verdadeira religião… Anunciará com toda a franqueza a verdadeira religião; não desanimará, nem desfalecerá, até que tenha estabelecido a verdadeira religião sobre a terra, e até que as ilhas desejem seus ensinamentos.”

O Servo da profecia é Cristo. No Evangelho Jesus é mostrado como Supremo Mestre que instrui com verdades importantes e é ele mesmo a Verdade Vivente. Parte importante de seu vivo ensinamento é: permaneçam na verdade, permaneçam em mim.

Quem estima a verdade como valor supremo deseja que em tudo ela prevaleça, o que vale para a religião. Deus é a Verdade Eterna e a verdadeira religião tem de ser uma religião de verdades eternas na qual a verdade possui máxima importância. Tão importante quanto conhecer a verdade é permanecer na verdade conhecida, manter-se fiel a ela. O sábio em parte é aquele que sabe o que passa e sabe o que permanece e, com razão, mantém suas sábias convicções. Em Eclesiástico é dito: “o homem virtuoso permanece na sabedoria, estável como o sol, mas o insensato é inconstante como a lua”.

Assim, o indiferentismo religioso, que considera sem importância a visualização das “religiões” do ponto de vista do verdadeiro-falso, e que significa assim uma negação da importância que a verdade possui, é um daqueles importantes enganos que enganam, uma perversão que perverte, pois não é possível que todas elas sejam, cada uma em sua totalidade, verdadeiras, já que inegavelmente há entre elas oposições inconciliáveis.

Onde há falsas religiões ou religiões com falsidades em sua essência, há doses de idolatria, ídolos, e pelo menos em alguns casos demônios. E tudo isto se opõe ao Espírito do Servo que veio trazer a verdadeira religião, o Espírito da Verdade.

Se há figuras religiosas desta ou daquele “religião” que encarnam em sua personalidade valores positivos, que significam a afirmação de valores positivos, se Buda, por exemplo, é uma figura positiva, então eles se prostrariam ante Cristo. E se a Igreja Católica é o Corpo Místico do Servo, portanto a verdadeira religião, então não há nada de positivo nas religiões que a Igreja não possua, e ela possui o que as outras, por essência, não possuem: por exemplo, a Sagrada Eucaristia.

A presunção dos saduceus, ou: todos que se opõem a Cristo estão enganados

Um modo de exercer uma frutuosa consciência crítica é considerar, na medida do possível, suposições contidas naquilo que é  afirmado. No Evangelho há um exemplo a este respeito. Certa vez os saduceus, um círculo de hebreus que negavam haver ressureição, colocaram a seguinte questão para Cristo: “(…) Havia sete irmãos: o mais velho casou-se, e morreu sem deixar descendência. O segundo casou-se com a viúva, e morreu sem deixar descendência. E a mesma coisa aconteceu com o terceiro. E nenhum dos sete deixou descendência. Por último, morreu também a mulher. Na ressurreição, quando eles ressuscitarem, de quem será ela mulher? Porque os sete se casaram com ela!” E a resposta do Divino Mestre foi: “Acaso, vós não estais enganados, por não conhecerdes as Escrituras, nem o poder de Deus? Com efeito, quando os mortos ressuscitarem, os homens e as mulheres não se casarão, pois serão como os anjos do céu.”

Dito de outro modo, seria como se Cristo dissesse: se para vocês saduceus as Escrituras é algo importante, um critério decisivo, neste caso estão enganados por não conhecer aquilo que deveriam conhecer, por supor enganosamente o que não deveriam supor, se considerassem o que está contido nas escrituras e o poder do Deus que dizem estimar.

Nessa história, Cristo mostra que a suposição dos saduceus é falsa e, por esta razão, a pergunta é sem sentido.  Um caso semelhante é quando alguns perguntam: “se Deus criou tudo, quem criou Deus?” ou “de onde Deus veio?”. A suposição é de que Deus tem uma causa ou origem. Porém ela é falsa, se considero o ser de Deus. Deus, em sentido elevadíssimo, como Ser Supremo, é eterno, e consequentemente não tem princípio nem fim, não passou a ser nem pode deixar de ser. Ele é o Antecedente eterno de todos os consequentes, a Causa Primeira de todos os efeitos, o Primeiro Princípio que tudo contém, Alfa e Ômega.

Assim, considerar suposições contidas em um discurso e o valor de cada uma, enquanto verdade ou falsidade, enquanto certeza absoluta ou mera hipótese, tem sua importância, pois, como os saduceus da história, posso por presunção falar enganosamente do que não conheço, por supor saber o que na realidade não sei.

“Só sei que nada sei”.

O modos de presença de Deus: tocar o Cristo Eucarístico como João ou como Judas

A experiência humana mostra que há diferentes modos de ser, como o ser-possível e o ser-atual, e diferentes modos de conhecer, como a intelecção da inteligência que vê a impossibilidade de uma madeira de aço ou a percepção dos olhos que vê a cor azul. Porém, seja qual for o modo de ser, tudo que é alguma coisa é participante do ser Deus, pois Ele é o Ser por excelência, e neste sentido Ele disse a Moises que seu nome é o “Eu Sou” e Cristo disse a alguns hebreus que “antes que Abraão existisse, Eu sou”. E seja qual for o modo de conhecer de uma criatura, ele é sempre, de modo limitado, conhecimento na Consciência divina que tudo conhece intimamente e totalmente. À Santa Brígida o Deus-homem disse: “Tudo o que existe, existiu e existirá é previsto por mim. Nem mesmo um pequeno verme ou o menor dos grãos pode existir ou continuar a existência sem mim. Nem a menor coisa escapa da minha presciência, por que tudo vem de mim e é previsto por mim.”  Isto significa que para as criaturas contingentes  “perdurar no ser significa receber a existência a cada instante”, por vontade amorosa do Criador.

Assim, quanto à presença de Deus nas criaturas, pode-se com razão do Um e o Múltiplo. Por exemplo: há a presença de seu Poder onipotente, a presença de sua Sabedoria onisciente e a presença de seu Amor misericordioso. Outro modo de presença é a presença enquanto Verbo Encarnado, do “Verbo que se fez carne e habitou entre nós”, como ensina São João Evangelista. O mesmo Verbo encarnado, Jesus Cristo, está presente na Sagrada Eucaristia, pois está escrito “isto é o meu corpo”, “Eu sou o Pão Vivo que desceu do céu; se alguém comer deste pão, viverá eternamente”, “a minha carne é verdadeira comida, e meu sangue é verdadeira bebida”. Na Hóstia Sagrada vemos a circularidade, e isto significa que Deus não tem princípio nem fim, que não há princípio nem fim em sua Sabedoria, em seu Poder e em sua Caridade. Um Deus que se fez Pão e assim permanece, sem deixar de ser Divino, mostra nisso sua Onipotência que tudo pode, que há razões em sua Sabedoria, e até que ponto ama sua criatura humana.

Porém, embora todos recebam o Pão vivo, nem todos recebem com o mesmo efeito, pois nem todos recebem como deveriam receber, conforme as exigências da Sabedoria Divina. Alguns, por exemplo, recebem o Pão como o discípulo amado que tocou em seu Coração na Santa Ceia e permaneceu com Ele no Calvário, e outros recebem como Judas, isto é, com a duplicidade do traidor que, por um lado, em aparente sinal de afeição, lhe dá um beijo, mas que por outro lhe entrega aos inimigos que desejam sua destruição. Assim, podemos tocar o Corpo de Cristo com os lábios do traidor, com os lábios da falsidade, com os lábios da duplicidade de quem pretende permanecer em seus graves pecados, e desse modo, como diz São Paulo, “beber e comer da nossa própria condenação” em vez da Salvação, dos bens divinos.

A importância de virtuosamente sempre permanecer na verdadeira Igreja de Cristo

A consideração das realidades celestes é importante para amá-las e possui-las, pois alguém só pode amar aquilo que conhece. O amor exige a consciência. O ensino e o aprendizado de verdades cruciais é parte vital do exercício da verdadeira religião.

No Salmo 15 Davi diz: “Fora de vós não há felicidade para mim… Vós me ensinareis o caminho da vida, há abundância de alegria junto de vós e delícias eternas ao vosso lado”. Isto significa que o valor supremo da verdadeira religião é a união eterna com Deus, é a posse do Supremo Bem, é vê-lo “face a face” para sempre. Cristo disse: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim”. Isto significa que para os homens o portão dos Céus está aberto e o caminho está preparado: é o verdadeiro Cristo, o Cristo total, a Sabedoria Divina encarnada, o Mestre Crucificado, que permanece presente nas verdadeiras palavras divinas – palavras de vida eterna, que são espírito e vida -, em seu Corpo Místico, a Santa Igreja Católica com os sete sacramentos, sobretudo a Sagrada Eucaristia.

O Divino Mestre disse aos seus Apóstolos para ensinar e perdoar os pecados. Assim, parte importante da essência da verdadeira Igreja, tal como criada pelo Salvador, é o ensino da verdade e o perdão dos pecados (o “sacramento da confissão”). Ele veio para salvar o homem, dar-lhe vida divina, e nisto é crucial sua Igreja. Saber tudo isto é importante porque tenho um destino eterno, o céu ou o inferno, decidido no tempo de minha vida nesta terra, e porque me traz a consciência do valor de me tornar membro do corpo de Cristo e de nele virtuosamente sempre permanecer, o que vale para todos os momentos da vida, pois não sei quando morrerei.

Assim, um modo de ser “cristão” contra Cristo é ir pelo caminho oposto ao que Ele ensinou, é perverter a sabedoria de seus caminhos, no caso considerar dispensável o pertencimento à Igreja que ele entregou aos Apóstolos, a Pedro, símbolo do clero, e a Paulo, símbolo dos leigos.

O Senhor Jesus, cujo Sagrado Coração é casa de Deus, aconselha a crer que suas palavras são verdadeiras. “Crede em mim… Na casa de meu Pai há muitas moradas”, “quem crê em mim terá a vida eterna”.